O chão ressequido explodia em amarelo naquele setembro em seu começo.
Ipês despindo-se de suas flores amarelas cuspiam no chão seco. Por debaixo daquela arvorezinha de aspecto raquítico tudo fedia amarelão. Exagero falar em mau odor, já que as flores do ipê são quase inodoras. E elazinhas se deitavam ainda vivas sobre a relva de um verde esmaecido, atapetando o derredor como se um pintor, munido de uma tábua de tintas fartamente amareladas, um cadinho de verde desbotado, ali deixasse seu quadro de uma beleza única. Não havia como não parar, extasiado, frente a um cenário como aquele.
Assim aconteceu com o velho Rubião, gente de mãos caludas, tez tostada pelo calor do sol, acostumado às vicissitudes de uma vida singela, na roça onde tinha o umbigo enterrado debaixo de uma jabuticabeira vetusta, e o coração idem vai ficar ali, quando Deus o chamar para companhia. A data ainda não estava marcada. Ao seu desejo iria morrer numa sexta-feira de fevereiro, dia 31 desse mesmo mês, isso é, nunquinha, por seu querer.
E como amava a vida o velho Rubião! Naquele setembro quente, seco, dia dois, começo de mês, ele contava mais de oitenta anos nos costados rijos. Cacunda encurvada, dobrada sobre ela mesma, quase tocava com a boca o chão. Tudo por causa de um tombo em criança. Quando fraturou uma vértebra da coluna mais embaixo e não teve a devida atenção de um médico especialista. De família pobre, lavrador lhe era o pai, a mãe do lar, moça prendada, nascida na roça mesmo, quando Rubião criança teve o tal acidente, caindo de uma mula empacadeira, bicho de índole ruim, assim que o menino, tido esperto, montado a pelo, mal se equilibrou no lombo do animal, ele empinou, o que lhe causou uma queda enorme, com o resultado previsto nos compêndios de medicina ortopédica.
Na escola o apelidaram de Cacundinha. Mas não se importava com o epíteto. Tinha mais o que fazer para dar orelha ao bullying que sofria.
Aos quinze anos, barba por fazer, passou a ser o arrimo de família. O pai caiu na cama cedo. Aos menos de quarenta nada mais podia fazer. A não ser ter quem lhe trocasse as fraldas, cadeirante que ficou. Depois de um mal não diagnosticado pelo SUS. A pobre mãe, senhora zelosa da família, reduzida a apenas três bocas não esfomeadas, Rubinho, o pai inválido, e ela, dona Reduzina.
Rubião não desdenhava do serviço duro da lida rural. Antes da cinco já estava no curral. As seis terminava, solitário, a ordenha de mais de vinte vacas, isso em retiro de leite manual. Antes da manhã se transformar em meio dia já estava ele de curral lavado, vacas de bucho cheio, caminhando pachorrentas rumo ao pasto seco, salpicado da amarelice dos ipês. Tirava uma sonequinha leve depois do almoço. Pois a tarde já estava com a agenda lotada de coisas a fazer.
As águas de fim de ano eram benvindas. Outubro chegou. Com seu hálito molhado.
Era tempo de arar a terra. Enchê-la de esterco, quando podia comprava calcário. Caso o preco fosse convidativo. Quando não o excremento de vaca curtido servia muito.
Assim que o céu azul tintava-se de cinza como se via a alegria retornar àquelas caras sofridas, castigadas pela inclemência do clima semiárido. Faziam festa nos arrabaldes. Dançavam catiras, o forró subia morro acima.
De quando em vez um incêndio inesperado tingia de amarelo salpicado de cinzas caídas e um calorão dos infernos se via esquentar a pastaria.
Mas nada fazia desanimar a gente boa da roça das Minas Gerais.
Plantava-se a primeira safra de milho. Colhia-se espigas maduras caso o tempo fosse do lado do caboclo experimentado. Caso negativo as espiguinhas ficavam chochinhas. E não davam conta de alimentar a vacada na entressafra.
Mesmo assim, mercê das adversidades, a turma do Rubião não deixava o desânimo neles montar barraca.
Final de dezembro. Felizmente o tempo ajudou. A safra de milho vingou. A vacada enchia os baldes. A bezerrada brilhava o pelo. De aí viravam novilhotas. E de novo vacas feitas. Vacas baldeiras.
Fevereiro nascido se viam os enormes buracões encherem-se de milho picado. Ferozmente amassado pelas rodas enormes dos tratores. E os sorrisos faziam luzir as faces crispadas tanto pelo sol, pela friagem das madrugadas, pela aridez do clima, pela tristeza súbita ao ver a linda bezerrinha nascer natimorta. E ser devorada pelos urubus.
Assim iam, a Deus quiser, a família pequena do velho Rubião.
Entra ano, desponta outro, a mesma ladainha. Arar, semear, ver a chuva cair, se ela vinha, com que alegria era recebida! O enorme buraco raso, onde se armazenava milho picado, cheio pelas bocas.
A vida do velho Rubião, e dos seus vizinhos de pasto, era sempre um eterno recomeço.