Agonia do ocaso

Hoje, segunda, quatro de setembro, a manhã acordou estupidamente linda. Frio, céu azul, sol ameaçando esquentar.

A temperatura anunciava-se, enrolada em grossos cobertores, ao derredor de dez graus Celsius. Nada que um agasalho modesto não desse conta de resolver.

Deixei minha casa, antes das sete, pensando no ocorrido no dia de ontem.

Eu, minha adorável esposa, a enfermeira capaz que dele cuidava, meu netinho Theo, com seus ano e cadinho de meses, dois apenas, junto conosco passava o final de semana, já que seus pais curtiam uma linda viagem ao país do papa Francisco. Um inovador, pessoa adorável, que mais e mais nos surpreende com suas pregações notáveis.

Como Theo me tem feito bem ao cuidar dele poucos minutos ao dia! Talvez a razão do meu rejuvenescer tenha explicação por esta proximidade magnífica. Naquelas hora e meia brincando com ele, confesso que me cansa mais do que correr dez quilômetros na esteira da academia que fecha minhas tardes de prazer e saúde, sinto, talvez esteja errado, que o relógio que marca meus anos retrocede anos luz pra trás. Por esse motivo que um dia, um conhecido de tempos idos tenha me chamado de Paulo Benjamim Button. Aquele senhor que nasceu idoso, veio andando de costas de anos corridos em direção à juventude perdida, até retornar ao útero da mãe.

Já perto da aurora da minha vida, sentido que minha infância querida não volta jamais, na noite de hoje, curtida numa insônia inspiradora, sonhei como seria a confissão de um moribundo.

Ele, prestes a começar a viagem a outro mundo, já agônico e ainda respirando debilmente, talvez fosse assim sua despedida final.

“Aos que ainda vivem o meu adeus. Aos que comigo se encontrarão que me desejem boas vindas. Aos que sentem saudades do que fui, me perdoem o abandono prematuro. Aos que não me apreciavam, em vida, que pelo menos cultuem os bons momentos que porventura causei. Aqueles que me amaram, por favor, amem meus sucedâneos. Aqueles que comigo estiveram, se, por acaso, tiveram comigo uma pequena rusga, me perdoem pelo meu acesso de descompostura. Aos que junto a mim tiveram boas lembranças, que elas continuem a minha ausência. Aqueles a quem amei, continuem assim, depois de mim”.

A minha carreira pelos caminhos da medicina, tomara, ainda esteja longe do seu epílogo. Que ainda possa tratar, operar, consolar, a tantos aqueles que me elegeram como seu esculápio, pelos anos todos que ainda me restam. Que a urologia, já que não posso acompanhar par e passo seus avanços, que pelo menos possa saber informar ao paciente qual método de escolha mais indicado para que suas doenças tenham um final feliz. Se não for curada totalmente, pelo menos atenuada suas dores e dissabores.

Hoje, quatro de setembro, dia frio, lindo, sol radiante, ao me dirigir ao meu consultório, onde, a partir das oito me transformo em médico, antes dessa hora chegar visto a batina de escritor, ao passar pela porta da Santa Casa, notável nosocômio que inda me da abrigo, poucas vezes entro por aquela porta de vidro, sempre aberta aos que dela necessitam, deparei-me com um colega, bom pediatra, decano dos médicos que ali labutam, emprestam seus conhecimentos a serviço do bem estar de outrem, entrando por aquela mesma porta, ele assim o faz poucas vezes durante a semana, para visitar crianças enfermas, ver nelazinhas transformado seu grito de dor em sorrisos faceiros, despedindo-se da vida de médico.

Ele, meu colega, bem mais velho de profissão que eu me encontro, quando aqui cheguei o próprio já estava a muitos anos se desdobrando em plantões que varavam noites, trocando seu sono em favor daqueles seres novinhos, como hoje está meu querido Theo, conforme me disse, durante nosso encontro breve num banco, dias atrás, que estava o ocaso da sua jornada pelos caminhos tortuosos da medicina.

Foi quando me vieram às lembranças de quando assisti ao fechar dos olhos de outro colega. Que não mais está entre nós.

Ele, respirando com enormes dificuldades, tez lívida da cor da morte, me fez lembrar da agonia do ocaso. Ocasião que nenhum ser humano vai escapar.

Por mais que tente. Jamais…

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