Naquela madrugada de seis de outubro Zé Leréia acordou sem ter dormido.
Como de costume, aliás.
A esse aliás, nome dado por ele a um pernilongozinho enxerido. Que não o deixava pregar os olhos. A noite zunia em seus ouvidos. Nem um travesseiro felpudo. Que usava como escudo na tentativa malograda de matar aquele pernilongo bandido. A peste não apenas zoava acima de sua cabeça. Também, quando Zé descuidava. Tentava e retentava usar a fronha do tal onde se escora a cabeça. À hora do sono que não vem. Debaldes eram as tentativas de dar fim à vida daquela mosquinha abelhuda. Que de abelha nada tinha. Já que abelhas têm grande utilidade. Tanto não polinização das flores quanto nada vida de cada um de nós.
A vidinha insossa do pobre infeliz Zé Leréia não estava sendo nada fácil.
Além da grana em falta. Faltava-lhe mais que tudo na mesa da cozinha.
Geladeira descongelada, vazia, aquele cenário lhe dava azia.
O fogão à gás nem chama tinha.
A hora de requentar a comida, cadê o gás?
Zé não tinha outra opção a não ser improvisar um fogão a lenha.
Empilhando alguns tijolos. Sobra de construção.
Três de cada lado. Um foguinho por baixo. Uma lata velha como trempe e a marmita morna ficava quente. Zé, faminto como sempre. Dava cada mordida, sem seus dentes da frente. Naquele naco de carne de segunda que ele inventava ser de primeira.
Zé foi casado. De papel passado não.
Durante uma vida inteira com uma mulher de primeira.
Elazinha foi sua primeira namoradinha. Nem se lembra de quem foi a segunda nem a derradeira da fila. E a fila andava na sua vidinha enfadonha. Sem aquela fronha que tanto usava para matar o tal pernilongo que ele chamava Aliás.
Com ela se ajuntou aos menos de trinta. Ela tinha menos três que seus poucos anos.
Zé, apelidado de Leréia. Já que penso ser leréia aquilo que tem gosto de contar, recontar, triplicar causos que nunca terminam.
Uma embromação danada. Gente que esvazia banco de tão chato que é.
Zé era mais que isso. Sujeitinho insuportável. Preguiçoso, que acordava cedinho pra ficar mais tempo atoinha da vida.
Sorte dele, azar o dela.
Tudo começou, bem pra ele. Ruim de montanha pro lado dela.
Eles se conheceram no rela do jardim.
Ela ainda menina. Que mocinha lindinha.
Zé, ainda não leréia. A fim dela, e ela nem pensando passar seu fim ao lado dele.
Nem o começo. Numa volta em volta daquela linda praça. Onde mora a Tipuana e outras árvores irmãs.
Zé e a tal mocinha, que me parece chamar Tianinha qualquer coisinha.
Assim que Zé viu aquela prenda pensou com seus dois neurônios, Tico e Teco.
Essa é a tampa da minha privada ( privada mesmo, não panela).
E pá nela na canela fina dela.
Aquele chute na canela fina da linda mocinha foi o estopim que incendiou o barril de pólvora molhada que não deu em nada, à princípio.
Depois acertaram os canecos.
O ajuntamento foi um rega bofe cheio de bofes que deram bofetões na cambada de penetras.
Convivas mesmo foram pouquinhos. Penetras mais de um milhão.
Zé Leréia tomou todas e mais algumas.
No meio da festança baixou hospital. Melhor seria ao hospício já que mais de doido ele era.
Aquela relação, que não era matrimonial. Nem metade disso. Uma simplesinha união. De más intenções do Zé. E bem melhores da Tianinha.
Não sei como aquilo durou mais que a florada dos ipês.
Enquanto a trabalhadora Tianinha vivia agarradinha nas suas máquinas de costura.
Fazendo peças de vestuário lindíssimas. Tinha uma enorme freguesia.
Zé, folgadão. Vivia nas mesas de bar, em más companhias, piores que a dele.
Esse ajuntamento durou quase cinquenta anos.
Até que enfim Tianinha se cansou e pediu as contas.
Zé teve de sair de casa. Não era dele e sim dela, a linda Cinderela.
Juntou as trouxas. Saiu pela porta da cozinha com sua mochilinha furada às costas, de costas.
Como não tinha teto onde se abrigar acabou brigando feio com o dono do bar.
Ali pensou em morar. Num quartinho dos fundos onde Seu Nacib. Um turco de ascendência libanesa. Mais pão duro que um pau duro de eucalipto tratado usado pra fazer cercas.
Não carece dizer que ele não lhe deu guarida. E o enxotou à enxó, já que seu xodó, por ser carpinteiro. Gostava muito dos seus instrumentos de serviço. O melhor deles era sua enxó, herança do seu bisavô.
A partir daquela data triste Zé foi morar na rua da amargura.
Foi ontem que nos encontramos.
Na mesma praça; não no mesmo jardim.
Zé estava muito sacaneado. Á beira de um precipício, mais fundo que o fim do mundo.
Tentei confortá-lo dando-lhe um apertado abraço.
Vi que ele chorou.
“Zé, deixa a leréia de lado. Me conta o que te aconteceu”.
“Tá tudo uma merda na minha vida. Se piorar não melhora. Minha mulher me deu um coice no traseiro. Como ainda dói… Não tem sido fácil viver mendigando. Como o que me dão se não me dão não como. Durmo debaixo dessa ponte aqui pertinho. Se chove acordo molhado. Se não esse cachorrinho que inda agorinha passou. Faz xixi em mim e ainda late sorrindo. Que vida ando levando. Mais apanho dela que bato. Falta só um empurrãozinho para que eu caia dessa ponte. Você pode me fazer um favor? Me empurre dela”.
Naquela hora ingrata não soube o que fazer.
Se daria um empurrão no Zé ou passaria a contar leréias pra ele não tentar o suicídio.