Hoje a cidade chora. Mais uma vez

Chorei muito no dia do passamento dos meus pais.
Faz um tempo enorme do mesmo tamanho da minha saudade.
Lágrimas de verdade caíram dos meus olhos quando via, minha pequena jornalista. Embarcando no busão na rodoviária. Despedindo-se de nós, seus pais, inda bem que era uma viagem ida e volta. Distinta de quando meus saudosos pais foram chamados a mudar de residência. Sinto muito não poder visitá-los na sua nova morada. O que me conforta é que, num tempo desconhecido. Vou poder de novo dizer a eles o quanto ainda os amo.
Sou um bebê, mesmo em idade distinta do que um dia fui.
Talvez devido ao excesso de sensibilidade que mora em mim. Por qualquer coisinha meus olhos enchem-se de água. Não esse líquido essencial a nossa vida. Inodoro, cristalino quando a água é purinha tal e qual água da mina que brota de uma nascente protegida por um verde muito verde nesses tempos chuvosos que atravessamos.
Por vezes choro e soluço. Faltam-me palavras pra dizer o que sinto. Tenho vontade de soltar um grito. Mas ele fica preso na garganta.
E, quando minha amada Lavras chora, choro junto.
Hoje, nessa madrugada chuvosa. Ao passar perto da Tipuana. Chovia mansamente. Me protegia com guarda- chuva.
Fiz um selfie ao lado dela. Como de rotina aconteceu algumas vezes.
Ao me despedir da velha árvore. De mais idade que os meus setenta e seis.
Como penso ser de boa educação. Às mulheres, senhoras, vetustas mais ainda. A elas não se deve perguntar a idade. Naquela hora prematura. Nessa manhã chuvosa e úmida. Atrevi-me a perguntar a dona Tipuana: “quantos anos a senhora tem”?
Ela me respondeu da ponta dos seus galhos. Escorados por muletas feitas pelo pai do meu colega Paulo Rodolfo Libeck (se não é assim que se escreve – Libeck. Me perdoe querido colega).
“Não tenho satisfações a dar a você seu velho enxerido. Quem me conhece bem diz que foi o senhor que me plantou”.
Fui embora sob apupos e aplausos de outras lindas árvores de nossa não menos linda Praça Doutor Augusto Silva.
A estação chuvosa parece ter começado pra valer.
Aqui a chuva, sempre bem vinda. Desde que seja camarada e não faça estragos maiores.
Hoje uma chuvica de molhar bobo que sai de casa sem guarda chuva despenca e volta a parar.
O juiz, ajuizado, com seu apito apitando. Inda bem que suavemente e não estridentemente.
Deu indícios que o primeiro turno das eleições teve um final.
Feliz para os vencedores.
Tristonho, infeliz, para quem não se elegeu.
A vida é feita de perdas e ganhos.
Por vezes muitas, ou poucas, saímos vencedores.
Noutras somos sonoros perdedores.
Eu já perdi tantas coisas…
Umas encontrei. Outras não achei.
Quando me preparava para entrar na escola de medicina fracassei no primeiro vestibular.
No segundo saímos vencedores junto aos meus queridos colegas daquela turma memorável da UFMG de 1974.
Pena que alguns deles não mais estão perto da gente. Mas tenho certeza que, onde estiverem, torcem pelo nosso sucesso.
Já chorei junto à minha amada cidade quando nosso colega de farda. Doutor Sebastião dos Santos Vieira subiu aos céus para se encontrar com eus maiores e mais fiéis eleitores, seus pais.
Naquele dia enlutado chovia como hoje.
Uma chuvinha fina, céu cinzento, nuvens baixas.
Nesse dia de hoje, cinco de outubro, segunda- feira.
Pós dia das eleições nossa querida Lavras chora novamente em forma de chuva.
A ela, a nossa cidade, perguntei qual o motivo de seu choro.
Lavras me respondeu com seus ipês, que já perderam as flores.
Essas lindas árvores, símbolos de nossa amada cidade.
“Choro, a exemplo dos ipês que choram deitando suas florzinhas inda vivas na relva seca dos jardins.
O senhor quer mesmo saber a razão?
Basta não olhar apenas pro seu umbigo.
Olha mais adiante. Veja o resultado das eleições.
Mais uma perda inestimável pra nossa cidade.
Não conseguimos eleger nenhum candidato local.
Essa nossa mania de dar valor a quem não tem. E não merece, mais uma vez não fizemos nenhum representante nas câmaras tanto estadual quanto federal”.
hoje mais uma vez nossa cidade chora.
A bela Tipuana talvez não saiba o motivo de tanto choro.
Mas eu sei. E os lavrenses, que querem bem a nossa terra. Também sabem.

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