Hoje, por volta de bem antes das seis da manhã, ao descer a rua rumo a onde estou, lugar paradisíaco, claro, linda vista se deixa ver sob meus olhos, pela janela do sétimo andar, defronte pra rua, lá em baixo pode-se ver os quase escombros do colégio Aparecida, logradouro que no passado ensinou tantos lavrenses ilustres. Mais abaixo parte importante do meu passado, a Rua Costa Pereira que inda hoje me fascina, onde brincava quando o menino que morava dentro de mim fazia travessuras, por grande parte delas era castigado por minha saudosa mãe. Mas logo deixava a cadeira dura, depois de fazer escorrerem do canto dos olhos lágrimas de mentira, sob a alegação que querer tomar leite, líquido branco e de rico conteúdo em vitaminas que não me apetecia. Hoje, adulto idoso sênior feito, adoro tomar leite frio, pelas manhãs mais de um litro entra-me boca adentro, misturado a farinhas, bananas madurinhas, mel puro, pena que minha pureza se perdeu ao correr dos anos. Como foram perdidas as figuras amadas dos meus pais.
O sol agora brilha forte. Céu azul até demais. Um ventinho matreiro levanta as saias das moçoilas desavisadas. Pena que quase não se usa mais saias. E sim calças compridas, apertadas, daquelas que são usadas nas academias, que, se não permitem ver a intimidade desnuda das mulheres, mostra-nos quase o essencial. O resto fica por nossa conta. Da nossa imaginação imaginosa, surreal.
Saí de casa com uma roupa leve. Calça escura, tecido impróprio à temperatura ambiente, camisa branca amarrada em laços trançados no pescoço, o mesmo tênis de outros dias antes.
Assim que deixei o âmago de meu lar pude ver que a opção de vestir foi equivocada. Um vento maroto me fazia tiritar da cabeça aos pés. Não retornei de onde vim por um singelo detalhe. Sabia que mais tarde o sol iria tomar conta do vento, tapar a boca friorenta do frio, e acalentar não apenas meu corpo ancião, bem como de outras pessoas madrugadoras que não esquentam a cama mais do que o preciso.
Estamos no debut do inverno. Sol a pino, frio sem o exagero do mês passado, quando o relógio da pracinha anunciava a temperatura por volta de menos de dez graus.
No dia de hoje, primeiro de setembro, céu azul forte, sol amarelo, vento norte, ao sair de casa senti na pele o rigor do inverno. Sei que logo, a seguir do inverno, venta leve a primavera. Linda estação dita das flores, embora no inverno as flores do ipê, exibicionistas que são, despetalam-se suavemente, ainda vivas, causando estupefação aos que param e admiram o esvoaçar planando das flores amarelas, brancas, roxas já se foram, assentadas placidamente sobre a relva de um verde esmaecido, dos jardins descoloridos.
Sei que o inverno não se trata da estação ideal para ir de encontro às aguas frias das piscinas. Muito menos de ficar ao relento em plenas madrugadas, tomando cerveja desacompanhado de afeto e de amor. Nem de sair à rua mal vestido, frugalmente desagasalhado, como aconteceu comigo na manhã de hoje.
E sobre o sol que hoje brilha forte? Sobre as flores do ipê, das madressilvas, das azaleias floridas, das quaresmeiras de onde exalam cores roxas, e de outros tons sur tons? Parece que tudo já foi dito. Ou escrito, por mim, escritor.
Logo entra em cena a primavera. O inverno está com os dias contados. Em menos de um mês ele falece. Como seria o sepultamento de uma estação fria como o inverno? O seu ataúde seria negro? Ou de um branco diáfano, como seriam as asas dos anjos? Os presentes em seu velório estariam pessoas sisudas, sérias e sobriamente agasalhadas? Ou, como eu, ao sair de casa vestindo apenas roupas leves, em contraste com o frio forte e ventante que me recebeu de má vontade do lado de fora de minha casa, quase retrocedi, entrei de novo pela porta inda aberta, fui ao guarda-roupa do meu quarto dormitório, por sobre minha camisa branca leve joguei um agasalho de cor escura.
Sei que em poucos dias entra no lugar do inverno a primavera linda. Tomara chova logo a saudá-la com mãos carinhosas acompanhados de gordos pingos de água caída do alto. O entorno pede chuva. Como meu coração amargurado suplica por carinho. Por um ósculo macio, por um afago sincero.
Por mais que implore, por mais que chore, ao pressentir a chegada não estrepitosa da primavera, por mais que tente me fazer alegre, feliz, quase uma utopia, ao deixar minha casa na manhã de hoje, primeiro dia de setembro, não consigo abrir a primavera no meu cerne desencantado. Não consigo ouvir o canto das flores dentro do meu eu conturbado. Muito menos poder ver a felicidade entrar aos borbotões dentro de mim. Triste, enfim.