Doutor escritor

Quem diria, que de mais de dezesseis anos de aqui passados, na mesma noite quando meu pai nos deixou, fazem exatos dezessete anos, eu, urologista com agenda cheia, operações que varavam noites, consultório lotado, experimentaria uma mudança radical de comportamento?

Não que tenha sentido um arrefecimento na arte de médico cirurgião. Ao revés. Ainda sinto por dentro um comichão enorme quando aparece, seja aqui, em outro lugar, um paciente com a urina entupida, com uma enorme pedra no caminho da urina, uma fimose carecendo de tratamento urgente, uma bolsa escrotal anormal, pode ser um tumor de testículo ou uma singela hidrocele, lesões bem parecidas a doenças sexualmente transmissíveis, por um descuido dos dois, faltou-lhes precaução, foram promíscuos, embora, por culpa dos anos, apenas, por morar no interior, não ter me acostumado a trabalhar com eu e mais um ou dois colegas, tenha deixado as modernidades tantas as quais agora tomaram espaço do pobre bisturi, sabedor que os robôs mais e mais serão capazes de tratar com mais perfeição todas as mazelas da alçada da nossa especialidade, bem como as outras, tantas que são. Assim  como o laser, as cirurgias minimamente invasivas, os instrumentos fininhos intrometidos pelos canais naturais, citam-se a uretra, os ureteres, indo até as cavidades renais, dali retirando cálculos, tumores das vias excretoras, alargando pertuitos estreitos, até mesmo fabricando novos órgãos responsáveis pela saúde da gente, os tais transplantes, cada vez mais frequentes.

E como o médico que ainda tem lugar cativo dentro da minha pessoa tem escrito tanto!

Dias existem que mais de duas crônicas nascem inspiradas de dentro de mim. Nesse computador a minha frente, CPU novinha, teclado negro de teclas brancas, vicejam, como recentemente floreceram as flores amarelas dos ipês, dentro em pouco elas se calam, para no próximo ano de novo atapetarem a relva seca com sua amarelice brejeira, nascem crônicas tantas, que, creio ter perdido a conta de quantas são. Noutro, um notebook negro, já antigo, mas bom de digitar, defronte a mim, é onde escrevo romances, inda pouco mais um, o terceiro, espera nascer da gráfica maternidade, com o nome “por quem os sinos não dobram”.

Permaneci um par de dias longe dos meus ipês. Da minha cidade amada me ausentei em busca de mais saber. Fortaleza, capital do lindo Ceará, foi a escolhida para receber mais de dois mil e quinhentos urologistas, cada um com um sotaque distinto, até mesmo tentando se fazer entender em outros idiomas, principalmente o inglês.

Foi um congresso de ótimo tom. Além de assuntos pertinentes aos dias de hoje, não deixaram de nos oferecer alvissareira hospitalidade, com a cara e o sorriso apenas encontrado na parte de cima do mapa de nosso país continente.

Acordava cedo, tomava meu desjejum reforçado, e ia ao centro de convenções do Ceará, uma casa gigantesca vizinha da Universidade Federal daquele estado nordestino, em confortáveis vãs, ao lado de engravatados congressistas, grande parte deles desconhecidos, alguns caras velhas ali se faziam ver.

As atividades médicas só eram interrompidas ao redor das mais de doze horas. Intervalo do almoço, que era servido por ali mesmo, em lanches ofertados pelos patrocinadores do evento grandioso.

Além de roupa social, camisas de mangas longas, calças escuras, sapato preto, solado de borracha para andar mais macio, usava, recém-adquirida num shopping local, uma bolsa de couro especial.

Ali dentro conviviam harmoniosamente uma apostila com a programação das atividades e livros meus.

Como de costume uso os congressos da minha área de atuação para vender livros recém-lançados. O último recebeu o nome, inspirado em locais de pouca erudição, mas de gente boa, pele tostada pela inclemência de sol, de Mugido de Vaca e Cheiro de Curral.

Levei na mala vazia, mas pesada pelo peso das letras, dez exemplares do meu livro de edição recente.

No primeiro dia, era um domingo, segundo do congresso, foram passados adiante três deles. Ao preço de lançamento, cinquenta reais. De dez oferecimentos dois eram comprados. Uns alegavam falta de dinheiro em espécie, já que apenas tinham na carteira dinheiro de plástico. E eu, sem a maquininha apropriada, não tinha como completar a venda.

No dia seguinte mais três foram comercializados. Fazendo as contas vendi, no segundo dia, cinco deles. No último dia do evento, terça- feira, na quarta do centro de convenções do Ceará ficaria com os corredores vazios, foram desovados os cinco restantes. Ao todo foram vendidos dez exemplares, uma soma não tanto polpuda a que percebe Neymar, mas pra mim suficiente para aliviar o peso das malas de volta, e ajudar a pagar o motorista amistoso que nos aguardava no aeroporto de Confins.

Um fato me deixou bastante admirado durante minha visita de três dias aos dois andares do centro de eventos de Fortaleza.

Muitos colegas, melhores e mais atualizados urologistas, que não têm a felicidade de serem escritores, ao se depararem com meu novo livro, mesmo que não tivessem adquirido meus exemplares do Mugido de Vaca e Cheiro de Curral, ao reconhecerem em mim o talento pouco comum de escrever, acabaram por me chamar por um nome pra mim temeroso.

Grande parte dos meus colegas me chamavam de “doutor escritor”.

Ou seria “escritor doutor”?

Até agora a dúvida persiste. E nem quero resolvê-la.

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