É cada coisa que me aparece que da vontade de desaparecer.
Cada nome esquisito que me da vontade de soltar um grito.
Apelidos então, eles acabam ocupando o lugar dos nomes.
Pros lados da minha rocinha então…
Tem um tal Damião, nome registrado no cartório. Desde o nascimento.
Pelo simples fato de ter nascido numa sexta feira da paixão. Numa madrugada chuvosa e trovoenta. Deram-lhe a alcunha de Dan Truvão (não trovão como deveria).
Outro vizinho de cerca. Sempre que tentava passar por entre os fios de arame farpado. Era um emérito pulador de cerca enfeitando a cabeça oca de sua mulher com um belo par de chifres.
Cujo nome de verdade era Augusto. Por ser um danado de linguarudo. De língua tão grande e comprida. Diziam outras línguas ferinas que o tal. Que pensava ser outro tal. Quando ele se aproximava de uma cambada de palradores. Temerosos da voracidade dele de esparramar prosa ruim no ventilador ventoso. Logo a moinha se desfazia. Indo cada um, andando de costas pro seu lado. Antevendo que logo a boataria se esparramaria como folhas na ventania.
Qual seria o apelido que vocês iriam batizar o Augusto linguarudo?
Se não sabem eu digo: “Fofoca”.
Isso de dar nomes aos bois não é costume só de Minas. Outros estados também podem nos pedir emprestado.
Tem uma cidadezinha lindinha. Aqui pertinho. A um tirinho de espingardinha de chumbinho de São João Del Rey.
Onde fui feliz por uns tempos e não sabia que a felicidade morava na linda Belo Horizonte nossa capital.
Onde tinha, e penso ainda ter, um corguinho que desce um morrinho. Desaguando essa água limpinha numa fonte de nome Narciso. Sobre a tal fonte dizem por lá: “quem bebe dessa água sempre volta”.
E nós dois voltávamos sempre numa paixão ensandecida. Reafirmando nosso amor pra sempre. Pena que a eternidade. Que pra nós dois pensávamos ser uma doce realidade. Acabamos dando um tempo pra nós mesmos.
Nessa linda Prados homens, se podiam continuar a ser quem pensavam ser.
Deviam mudar seu pós nome.
Naquela cidadezinha fincada num vale verde. Onde os pradenses, acolhedores. Hábeis artesãos entalhadores em madeira esculpindo leões enormes dando-lhes formato de lindas peças decorativas que enfeitam moradas aqui e acolá no estrangeiro.
Homens, se são chamados Josés ou Antonhos. Pedem as suas mulheres o nome delas e passam a ser chamados desse jeito: “Zé da dona dele Margarete. Antonho da dona dele Tonha e assim por diante.
Que saudade de Prados e dela.
Se a gente se ajuntasse em Prados iria mudar meu nome para Paulo da Sol.
Pena que hoje o sol não mostra a cara e chove.
E o tal Zé do Boi? Que deu título ao meu texto?
Quem seria ele?
Elezinho, a essa hora inda madrugada. Deve estar se preparando para mais um dia de labuta.
Ontem, pela vez prima. Proseamos pelo telefone.
Quem mo deu a indicação de um bom pedreiro para fazer uma garagem. À beira da represa do Funil onde pudesse deixar meu barco e meu Jet descansar até serem postos dentro d’água.
Outro bom lidador daquela colher grandona que não serve pra comer comida no prato. E outros instrumentos usados no ofício duro de um pedreiro. De nome Bahia. Filho do meu amigo ex retireiro Custódio. Que só me dava notícias ruins. As boas eram raridades. Penso ele guardava pra si mesmo.
Bahia me disse que estava atolado até a cueca de tanto serviço e dessa vez não poderia me satisfazer e me fazer mais feliz que já estou.
Então me satisfiz, menos feliz. Em dar a construção da garagem ao Zé Boi que desconhecia quem era sua mãe vaca.
Que mão de obra me deu conseguir o número do celular do tal Zé.
Do outro lado da linha, não do trem, Tom Zé esgoelava estridente entre seus poucos dentes: “patrão, o número do Zé Boi. Pedi a sua mãe que não é vaca é esse.”
Eu ligava e Zé Boi não respondia. Era o número equivocado.
Quase desistindo da infeliz empreitada. Hora e outras se foram e nada.
Depois de mais uma noite indormida enfim Zé Boi me ligou.
Ele não me conhecia e vice no verso.
Ele, e eu, nós dois inábeis no uso de celular. Eu aqui no meu lar e ele noutro lugar. Penso ser no seu lar.
Ouvi no meu telefoninho andejo essa voz alta e forte do outro lado da linha.
“O senhor é quem? O velho que vai me dar um servicinho na sua rocinha? Sou pedreiro de colher cheinha. Não de comida e sim de massa de cimento. O senhor quem é? Quantos anos o senhor tem (logo pensei na minha pegadinha que faço aos desconhecidos e velhos amigos: “quantos ânus você tem”?)
Já eu, era noite e pensava em pregar meus olhos. Não com pregos e tachinhas. Sim fechar os olhos e tentar dormir.
Ao Zé Boi respondi meio contrafeito mortinho de sono: “sou eu mesmo, doutor sem ser doutor com doutorado. Um reles médico especialista em enfiar meu dedo no fiofó dos outros. Que pensa ainda ser fazendeiro embora more num apartamento apertado numa rua asfaltada aqui em Lavras. Tenho setenta e seis anos. Ânus um só e não tenho medo de fazer o exame de próstata. Pois é isso que tenho feito no ânus dos outros a vida inteirinha. Pretendo, se a chuva permitir e o tempo melhorar. Pedir a você que faça um cômodo, se não lhe causar incômodo. À beira dessa linda represa de nome Funil. O preço da sua mão de obra já sei. O material me manda quando puder e espero que sua consciência não lhe doa mais que o necessário. Estamos combinados? Tenha cuidado. Não uso combinação nem anágua por baixo da minha camisola listada”.
Do outro lado da ligação ouvi o vozeirão do Zé Boi tentando desligar seu celular sem ser capaz.
A seguir escutei um mugido de vaca. E entrou pelas minhas narinas um cheiro doce de esterco de curral.
Era a vaca malhada, mãe do Zé Boi, irritada chamando seu filhão pra mamar.