Teríamos tempo?

Como o tempo tem sido implacável com os de mais idade!

Com as crianças, os bebês, ele tem sido complacente. A exemplo cito meu neto Theo.

Quando me acerco dele, em seus poucos mais de um aninho, completou seu primeiro degrau na escada da vida dia vinte de julho próximo passado, de sua boquinha linda brota aquele sorriso vinte de julho, explico melhor: faltam-lhe alguns dentinhos ainda, tanto na parte de cima quanto na arcada superior.

Caso o sorriso do Theo pudesse dizer, sobre a expectativa de vida, com certeza ele diria assim: “olha vovô. Conquanto o senhor, aos sessenta e sete, meu bisavô, seu pai, Paulo Abreu, despedindo-se da vida a encarar o outro lado dela, aos setenta e sete, se o senhor passar dos setenta, presumivelmente, embora seja imprevisível vaticinar o destino, ainda lhe restam apenas mais sete anos a partir de então. Somando-se aos três para alcançar os setenta, mais sete até os setenta e sete, o senhor, meu amado avô, tome cuidado. Viva em intensidade plena, faça tudo que lhe der vontade. Pois dez anos é muito pouco para lançar tantos livros que o senhor diz que ainda vai escrever. Para correr tantos quilômetros mais, nadar milhas e milhas náuticas em piscinas aquecidas no inverno, com as suas próprias temperaturas ambientes no verão, sonhar com tantas coisas legais. E, afinal, poder ver meus filhos lhe darem netos, bis, tataras, outros sorrisos como aquele que lhe destinei na tarde de ontem, quando o senhor veio me visitar.

Ontem, tarde ainda viva e esplendorosa em sol, quente, deixei meu consultório lá pelas três horas depois do almoço.

Carecia ir à minha roça nos arrabaldes de Ijaci. A fim de ver como estava o desenrolar tartaruguento do Solar do Paulo da Rosa, casa a beira da represa do Funil, onde pretendo não apenas admirar a linda vista ao por do sol, escrever do quarto na parte de cima, olhar meus dois cavalos transformando-se em três, com o nascimento do filhote da minha égua pampa ao fim de setembro, navegar naquelas águas plácidas e ainda impuras do lago do Funil, pescar em anzóis tão somente, não vou permitir redes perto de onde o Solar vai ser finalmente edificado, e assistir, extasiado ao vomitar da natureza linda que do segundo andar da minha casa se permite ver.

Levei duas caixas de cervejas em lata aos pedreiros e seus ajudantes, que inda pouco terminaram o muro de arrimo por detrás da casa altiva e de excelente visão do entorno.

A casa foi energizada momentos antes pela empresa de energia do estado das Minas Gerais.

Contando o tempo de hoje, desde o começo da construção, se não me fracassam as lembranças, somando-se o tempo de reforma da estrada que liga a casa Amarelazul a outra, creio que se passaram mais de seis meses. Ou um cadinho mais.

Não importa. O que conta é a conta que faço nos dedos da felicidade que vai me inundar assim que a nova casa vai estar pronta, para ali passar não apenas instantes fugazes de felicidade, bem como tentar eternizá-los inda mais.

Na parte lateral daquela casa plantei inda pouco um pomar. Ao lado de fruteiras cítricas ali inseri, à terra fértil, seca nesta parte do ano, um pé de jabuticaba. Não para que eu e minha mulher provássemos o sumo doce das jabuticabinhas madurinhas, disputá-las com os marimbondos e maritacas gritadeiras, mas deixar as mesmas frutinhas como legado ao meu neto Theo e a outros que Papai do Céu me deixar de presente no dia dos pais que se avizinha.

Além dessa casa beirando a represa mais perto da minha Lavras, outra, de mais estilo, poder-se-ia dizer mais luxuosa, situa-se a quase cinquenta quilômetros de onde moro na cidade. A represa de Camargos é tão ou mais linda que a outra. Pena ser tão longe. Não tanto quanto da terra a lua.

Ali vamos bem pouco, bem menos do que deveríamos. Já disse antes: a gente constrói castelos e não tem tempo de morar dentro deles.

Perto da casa a ser chamada de Solar do Paulo da Rosa plantei um pomar. No outro, em Camargos, mexeriqueiras morreram, por serem bem antigas e por não terem recebido os devidos cuidados.

A pequena muda de jabuticabeira foi inserida a terra na tarde de ontem. A cova onde ela foi plantada foi funda o bastante, não tanto quanto a que pretendo me afundar ao passar além desse mundo.

A casa quase finda, creio que em menos de dois meses passarei a morar dentro dela, se não morar passar fins de semana assaz agradáveis em companhia da minha família, a da segunda geração, pois a primeira me olha do alto, desejando bons dias dentro da nova morada, não sei quanto tempo irei ali olhar as águas da represa enternecido pela vista maravilhosa.

Já a jabuticabeirinha quase certo não irei sorver o sumo doce das suas frutinhas negras. As laranjeiras penso que sim. Dali retirarei mexericas poncãs, laranjas da ilha, limões azedinhos para fazer caipirinhas que falem errado, e outras frutas mais irão fazer parte do cardápio do meu desjejum matinal.

Da outra casa, na represa de Camargos, já mais antiga, e agora remodelada, vou, com certeza, desfrutá-la mais e mais anos.

Ainda sobre o tempo. Como ele tem pressa para chegar ao final dos tempos.

Estou sessenta e sete. Minha esposa quase lá. Meus filhos, bem mais jovens, longe estão da decrepitude, gozando de plena saúde, como ainda estamos nós dois. Minha esposa e eu.

Ficam, ao final desta crônica, indagações, não sei se pertinentes ou não: “teríamos tempo de chupar as jabuticabas já maduras do pé que ontem plantei? Sobre a casa a ser concluída em breve, que o breve seja em verdade breve, quanto tempo mais poderemos gozar do seu conforto? Quanto tempo de vida, em saúde plena, se não plena quase, viveremos ainda”?

Não sei, nem desejo saber. Fica a reposta sob a forma de uma interrogação. Como estas???

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