Brisa fresca de saudade

O tempo anda tumultuado nestes dias que marcam o meio do inverno. Agosto entrou agitando o vento, levando folhas ao desalento, nas madrugadas o frio assinala-nos a presença, para esquentar-nos o âmago depois do meio do dia. A seca ainda se mostra em suas roupagens cinzentas, deixando a relva amarelada, onde caem desatinadas as flores dos ipês em suas vidas fugidias.

O homem do campo olha pro céu. Faz penitência pela chegada das águas de fim de ano. Deixa na encruzilhada dos dois caminhos uma garrafa ao meio de pinga boa, um frango depenado, um pires novinho com o sangue derramado, e duas flores do campo. Na certeza de que os deuses da roça, que nada mais são que os mesmos do homem urbano vai agraciá-lo com chuva mansa no máximo ao tardar de setembro ao seu final, para que o secume não faça das vacas meras ossaturas brancas brilhando ao sol.

Não aprecio agosto. Não pelo vento que assopra. Nem ao menos pelo frio seco que ainda se mostra.

Acontece que, ao primeiro dia do mês que sucede julho, comemora-se o aniversário do meu pai: Paulo José de Abreu. O mesmo senhor circunspecto, quando ainda em saúde plena, ele se mostra em fotografia do lado direito de onde escrevo, recebendo de seu filho mais longevo um diploma na ocasião quando era eu o presidente de um dos três Rotarys Clubes de minha cidade.

Creio, embora não abrace a doutrina espírita, acredito em Deus Pai vestindo o amarelo das flores do ipê, no verdume da pastaria à chegada das chuvas de fim de ano, dado ao fato de a primeira crônica ter sido escrita na noite da sua despedida. Isso acontecido no ano distante de 2000. Quiçá psicografada por ele?

Fazem dezessete anos que ele nos deixou órfãos: meu irmão Fred, a outra menina que nunca deixará de ser menina, aos seus mais de cinquenta anos de idade, a Rosinha, como nós três sentimos a sua falta! E da nossa querida mãe Rute.

A casa onde cresci, sempre menciono esse fato em meus textos, tantos que são, daqui do meu consultório se avista pelos fundos. Todo meu passado se descortina do lado esquerdo, quando olho pela janela, do sétimo andar do edifício das Clínicas.

A Costa Pereira não a enxoto das minhas recordações nem um dia sequer. Afinal foram anos felizes quando ali vivi. Ao lado dos meus pais, tios, primos, um monte de amigos de infância, que os anos não trazem de volta, mesmo que eu deseje tanto.

Ontem mesmo, depois de subir o morro empinado, por onde sempre passo, ao deixar a minha atividade de médico urologista para o dia seguinte, assim que passei pela caixa d’água, dobrei a direita, pertinho do edifício Rodartino Rodarte, construído pelo meu pai ausente, dentro dele, próximo ao bebedor, uma placa enseja o agradecimento, a ele feito quando do final da obra, antes de chegar a casa onde hoje mora a Rosinha, estava quente a tarde, senti, no corpo gasto pelos anos todos, ainda em forma razoável, um ventinho leve, que não deu para descabelar-me os parcos cabelos que ainda trago na parte de cima do pescoço.

Indubitavelmente aquela era uma brisa fresca de saudade dele.

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