Quem? Eu???

Já escrevi, disse, afirmei: o limite entre a sanidade e a louquice é mais fino que um fio de cabelo de nenê.

Definições de louquice existem aos montes. E homens célebres pela genialidade tanto escreveram sobre loucura.

Loucura é um distúrbio, alteração mental característica pelo afastamento mais e menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir. Sentimento ou sensação que foge ao controle da razão.

Nietsche deixou-nos a opinião sobre o mesmo tema várias vezes: “há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura”.

Já Proust deixou-nos como testemunho: “para tornar a realidade suportável, todos temos de cultivar em nós pequenas loucuras”.

Fernando Pessoa escreveu: “a loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.”

Florbela Espanca deixou a nós outros: “afinal, quem tem a pretensão de não ser louco? Loucos somos todos, e livre-nos Deus dos verdadeiros ajuizados, que esses são piores que o diabo”.

Sêneca testemunhou, sobre a mesma louquice: “se me apetece rir de um louco, não preciso ir procurar muito longe; rio de mim mesmo”.

Deixando os loucos gênios de lado, meu dito não poderia ficar maldito: o que seria do mundo sem os insanos? Eles se confundem aos gênios. Não teríamos a lâmpada que ilumina, as pás dos moinhos que giram, o relógio que infelizmente aponta a hora de nossa morte, a faca de fio fino que mata, a persiana que tapa a boca voraz do sol, que nessa hora da manhã ofusca-me a inspiração, maltrata o vidro transparente do aquário deixando-o mofado, o mouse inventado por quem aprecia o computador, esse então, o que seria de nós, escritores, caso apenas a pena e o papel fossem cúmplices de tantos textos deixados ao futuro atestando-nos a loucura imensa, por escrevermos e pensarmos tanto?

Loucos existem aos montes fora dos nosocômios, ditos hospícios, casas que felizmente foram fechadas, quase não existem hospitais onde se  encarceram os ditos loucos. Fácil constatar que do lado de fora destes muros altos, das camisas de forcas, coexistem, lado a lado, ombro a ombro, os conceituados normais e os dotados de genialidade pura, a exemplos cito Da Vince, Michelangelo, Renoir, Picasso, e outros tantos mais.

Não quero deixar fora do meu texto de hoje cedo, nove de agosto, escritores fecundos, poetas trovadores, pessoas que nos deixaram como legado ao invés de contas de somar e multiplicar versos, crônicas, romances, reportagens, livros e mais volumes de capas duras ou macias, que, infelizmente, em nosso país não vendem tanto quanto cachaça e tira-gostos em botequins infectos.

O acontecido teve seu começo, meio, não sei dizer se vai ser o fim, no final da manhã de ontem, quando este louco que vos escreve, durante o atendimento num posto de saúde aqui perto, basta caminhar alguns metros apenas, depois de prescrever mais de vinte receitas tarjas negras como a noite sem lua, outras em duas vias, antidepressivos, ansiolíticos, coisas e loisas iguais, adentrou-me sala adentro uma pessoinha diferente.

Era uma menina ainda, moça casadoira, poder-se-ia dizer, bonita, aos seus pouco mais de dezesseis aninhos.

Ainda melhor, para contrastar os demais, ela não queria do médico que habita dentro de mim uma daquelas receitas controladas, sem elas as farmácias não vendem os tais fármacos.

A mocinha desejava sim um simples encaminhamento a um ortopedista para atenuar-lhe uma dor na planta dos pés. E um atestado de que ela, em verdade, esteve ali.

Como estava adiantado na hora tive um súbito lampejo de conversar fora do assunto que a trouxe a mim. Proseamos, se, por uma acaso, ela apreciava ler, ou quiçá escrever. Ela, num sorriso encantador, afirmou efusivamente: “ sim”!

Mostrei aquela menina moça meus dotes de escritor. Falei à boca escorreita como me faz bem teclar as teclas negras do meu computador, todos os dias, antes das oito da manhã. E como idem me apraz praticar idiomas, pena que por vezes não tenho interlocutor.

Passados mais de vinte minutos, a consulta normal, naquela unidade de saúde não dura mais que a queda das flores do ipê, nem demos por nós o adiantado da hora. A hora do almoço estava por vir em menos de dez minutos.

Foi quando da mocinha ouvi, num sorriso iluminado, a sua voz sonora percorrer aqueles parcos metros quadrados do consultório modesto, num dito mais ou menos assim: “ doutor, esta foi a melhor consulta que já tive. É sempre assim que dialoga com seus pacientes? Afável e de humor em alta? Desculpe-me a ousadia. O senhor, meu bom doutor, é um adorável insano”.

Uma vez na rua, olhando atento pros lados, a mim mesmo inquiri: “ quem?, eu”???

Deixe uma resposta