Isso de conhecer, antes de nascer, o que nos está reservado, não sempre faz parte do costume de quem pela primeira vez passarinha os olhos incrédulos pelo mundo de fora da cavidade segura e molhada do útero da mãe.
Pois, se fosse factível muitos infelizes, vindos ao mundo com o destino prefixado de ter a lhes esperar um futuro não alvissareiro, por certo continuariam ali mesmo, dentro da mãe, ad- eternum. Pena que esta intenção poderia acarretar incontáveis malefícios à progenitora que, num dia de amor, teve seus genes misturados aos do pai, no caso dos cães são muitos pais de uma só mãe.
E como as fecundações têm sido mais e mais distintas daquelas dos tempos dos nossos avós!
Não mais das conjunções entre machos e femeas que se formam embriões. Não mais do sexo saem os conceptos. Não mais do amor, do acasalamento, conduzem às crias. Filhos, via de regra, gerados depois do casamento, nem sempre na lua de mel, pode ser antes, hoje são exceções à regra.
As coisas mudam como as estações trasmudam-se, nestes tempos díspares, quando o outono não tem a cor própria, assim como a primavera nem sempre exibe flores mil cores, e o verão muito menos quente se pinta. Assim como o inverno faz frio. O planeta onde vivemos, dizem os entendidos, tem esquentado mais e mais.
Uma das maravilhas da natureza, que em nossa região se deixa ver, é, na plenitude da seca, quando a poeira tinta de sujo o derredor, quando os campos não se deixam ver em sua verdice ímpar, quando a pastaria fica de um verde pasmacento, tem acontecido de poucos dias para cá.
Os ipês têm dado seu show de raro brilho. A princípio vi-os roxos. Ontem algumas flores amarelas já se deixam observar despetaladas prematuramente, salpicando a relva dos jardins.
Estamos em oito de agosto. O frio ainda mostra a que veio, para depois deixar-nos a vontade, com as roupas de novo no armário, os cachecóis engavetados, as luvas postas novamente de onde saíram, para depois serem soltas a aquecer meus dedos todos, que agorinha mesmo são usados para teclar febris o computador, nascendo textos um a cada manhã, já são mais de dez mil crônicas aqui guardadas, a espera da hora exata de serem montadas em livros outros, já que quatorze deles já se mostram por detrás de mim, na estante que me olha impassível, como se suplicasse: “pare de escrever tanto doutor, em pouco tempo não vou dar conta de abrigar tantos volumes. Eles serão um peso enorme para minha madeira tosca guardar”.
Estava falando com os dedos sobre as flores dos ipês. Com sonora coincidência, quando os ipês florescem nascem livros meus. Em honra e glória às árvores símbolos de nossa terra, como elas proliferam por aqui, nomeei alguns livros primeiros de : “À Sombra dos Ipês Contestações e Devaneios”. Creio que em número de três.
A seguir, na intenção de inovar, o nome dos demais não se repetiram. Como se repete o ciclo da brevidade das flores dos ipês.
Como não sou entendedor de flores, apenas um admirador confesso, acredito que, uma vez espargido em cores, em começo no mês de julho, ao seu final, as flores dos ipês, vivas ainda, se derramam contrariadas por sobre a terra, sobre a pastaria onde a árvore mãe cresceu, sobre o verde esmaecido dos jardins. O tempo que as flores duram é bem mais exíguo do que a vida da linda borboleta em seu voo fugaz, esvoaçando lindamente sobre outras flores, dos mesmos jardins.
Foi hoje, agosto em seu debut, ao deixar o condomínio onde moro, ao passar por uma pracinha onde apenas aparam-lhe a grama, que nem grama mais é, no mais é capim, vi algumas flores, as primeiras nascidas da ponta dos galhos, deitadas por sobre a relva desvestida de verde.
Colhi algumas delas entre os dedos. Tentei conversar com as mesmas. Insisti na entrevista. Prometi que seria breve, como curta lhe seria a vida.
Foi mais ou menos assim nosso curto colóquio: “minha querida flor do ipê. Caso a senhora soubesse que iria viver tão pouco, nasceria assim mesmo”?
Delazinha escutei a reposta, a que já previa: “olha, meu caro doutor sonhador. Já sabemos que duraremos pouco. O senhor, já bem andado em anos, caso soubesse, antecipadamente, quantos anos iria viver, nasceria assim mesmo”?
Deixei as flores despetaladas sobre a relva ressequida do jardim da pracinha à porta do condomínio onde moro pensando na vida. Elas, as flores dos ipês, em verdade não estão com a razão? O destino de cada um de nós não o fazemos. Alguém, bem mais importante que a gente o traça. Independe de nós.