Notável metamorfose

Disse Sêneca: “Não adie o amor, não adie o sorriso, o olhar de candura, a boa palavra, o abraço caloroso e o beijo de ternura, por que não se sabe se amanhã reencontraremos essas pessoas”. Agora mesmo também li: “É impressionante o rastro de devastidão que alguém mal resolvido pode deixar por onde passa”.

Talvez eu mesmo, em dias passados, mais jovem e menos sábio, intempestivo que era, essas duas máximas caiam como uma luva em minha mão direita.

Assim mesmo era eu.

Uma vez egresso da Espanha, achando-me o rei dos reis, inovador e com ideias de mudar o mundo, não consegui nem ao menos mudar a mim mesmo, trazendo a minha Lavras querida técnicas inovadoras na arte da Urologia, especialidade cirúrgica de fácil diagnóstico e de difícil resolução em certos casos, principalmente os muito tratados, vindos de colegas novatos e intempestivos como eu era, naqueles anos de antão, nunca pensei que como os anos mudam as pessoas, principalmente aquelas de mentes abertas, ávidas por aprenderem mais e mais.

Quem comigo conviveu, recém de bisturi entre os dedos ágeis e a princípio temerosos do estrago que aquele instrumento de fio afiado, mal posicionado, imiscuindo-me em tratamentos cirúrgicos mal indicados, toda operação de indicação dúbia tem grande chance de ser mal sucedida.

Tanto as diligentes enfermeiras, fossem elas de curso superior ou simplesmente técnicas, quanto meus colegas esculápios, ao assistirem meu desempenho, creio na maior parte das vezes bem capacitado, apreciassem o médico operador, o doutor versado em pelo menos quatro idiomas, hoje são pelo menos seis, a por um ponto final no sofrimento que as doenças traziam ao seus hospedeiros aplaudiriam efusivamente. Lógico, quem não opera não comete senões. Quem fica apenas a ler os gordos compêndios de medicina, sai da faculdade exalando conhecimentos e não os põe em prática, não comete logros. Todos eles, exceções existem, consideravam-me uma mala sem aquele apetrecho que permite os portadores levarem-na de um lado a outro, em viagens domésticas ou internacionais. São as alças e as rodinhas.

Agora, no debrum dos anos, embora ancião não me ache, quando preciso de médico para um exame rotineiro recorro ao pediatra, e não ao geriatra, médico especializado em seniores e velhos como aquele sapato de sola furada que nem meia sola enseja.

Não sei o que pensam meus conhecedores. Aqueles que antes faziam juízo de minha pessoa. E agora, na planura dos mais de sessenta e sete anos, que tal perguntar a eles se observaram alguma mudança tosca dentro de mim?

Não sei se a reposta a esta indagação foi respondida num dia atrás.

A caminho do consultório, no passeio do lado direito, na mão direita, ainda longe do meu cantinho que amo tanto, de urologista escritor, de fone de ouvido, como rotina, ouvi uma voz alta saindo de dentro de um barzinho simpático que vende comida e petiscos os mais variados.

Não tive como não retirar meus tapas audição.

Uma vez refeitos da música, não sei qual era, os tímpanos agradeceram.

Foi quando parei dentro do pequeno estabelecimento, já bem conhecia o amável dono, pai de família de rica prole, e fui apresentado ao filho mais velho, embora o velho aqui seja eu, que bem poderia ser avô do jovem rapazola.

Orelhas e audição atentas, do dono do bar escutei: “Doutor Paulo, o senhor é um filé mignon”.

Como a pressa me apressava, quase sete da manhã, ao sofismar sobre o dito, pensando sobre mim antes de agora, quando de volta da Espanha, eu, carne de segunda, de pescoço, poder-se-ia dizer, metamorfoseado em filé mignon, pensei, seria o dito um encômio? Um elogio, para quem não sabe o que é encômio?

Caso a verdade viesse à tona, trata-se ou não de uma notável metamorfose?

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