Revoada de relembranças

Há inexatos sessenta e cinco anos fui menino. Antes disso era apenas um bebê lourinho, chorão e resmungão, que deixava meus pais e avós em sobressalto, justamente por ser o mais longevo daquela linhagem dos Rodartes, primeiro neto do Rodartino, o pimpolho número um do casal de saudosas lembranças, Paulo Jose de Abreu e Rute Rodarte de Abreu, não contando nos dedos os de Portugal de onde vieram meus antecessores, precisamente da região de Torres Vedras, onde tenho uma prima, Tereza Rodarte, que, por acaso me descobriu pelo meu site – www.paulorodarte.com.

Foi aqui pertinho, por acidente, já que meu pai Abreu era funcionário do Banco do Brasil, oriundo de Caratinga, em longa carreira por aquela profissão antes mais valorizada, já que as máquinas não nos deixam falar com o gerente, nos tempos quando meu pai era o administrador principal era mais fácil e descomplicado falar com ele. Bastava se fazer anunciar, à entrada, não havia os dois andares, três com o subsolo, muito menos existiam as senhas retiradas após digitar números. A seguir de um périplo estressante ao passar pela porta giratória, que nos impede de entrar com eletrônicos, ou coisas que simulam armas, apesar de a arma de mais grosso calibre que o escritor usa é a caneta ou o teclado do computador, inserindo textos mídia adentro, seja pela internet ou jornais impressos, os quais prefiro, embora estejam agônicos, a espera de o padre encomendar-lhes a alma, num réquiem derradeiro ao cronicar sobre seus últimos alentos.

Aos cinco anos passei a morar naquela rua que de aqui se avista, pelas costas, pertinho do velho hospital onde ensaiei o fio cortante do primeiro bisturi em incisões enormes, do apêndice xifóide ao púbis, de ali investigando onde estavam as pedras nos rins causadoras de tantos sofrimentos aos portadores, removendo as mesmas ou parte do rim enfermo, quando não o retirávamos todo, já que, felizmente quase todos nós os temos em dupla.

Como estava em carreira solo me desdobrei, por mais de vinte anos pelos três hospitais. Eram dias e noites confundidas em horas tantas, que nem mesmo sei contá-las todas, já que em muitas delas não dormia nem uma hora, foi o que me fez tomar ojeriza pelos telefones fixos, já que os andarilhos ainda não haviam sido criados.

Felizmente, digo de coração aberto, depois de mais de vinte anos operando apenas tendo por cúmplice enfermeiros prestantes e prestativos, eu mesmo os treinei a entrar em campos cirúrgicos, com que prazer o fiz. Talvez tenha sido um logro meu. Pois, habilitado a ter como companhia nas mesas de cirurgia apenas não médicos testados e comprovados, e sim pessoas maravilhosas e dedicadas, não tanto valorizadas quanto seu real valor, não tive a sorte de formar equipe. Com certeza este é a real constatação da realidade de não ter progredido tanto quando meus colegas todos os quatro que operam juntos. Fiquei no ostracismo da urologia, motivo que me fez procurar outra forma de ser feliz, talvez mais, na atividade física, no aprendizado de idiomas e no escrever tanto.

E como me faz bem a alma exercitar a sensibilidade máscula que se apossou de mim! Com certeza verdadeira, a me ver ancião, quase, dotado de maior sensibilidade, tenho tido sucesso em ser mais ameno, mais paciencioso, consigo escutar mais os queixumes dos que ainda me procuram no consultório, não sou tanto afoito em pedir exames custosos, examino não apenas a parte física dos pacientes, bem como tento perscrutar-lhes o âmago, sou todo ouvidos e sentidos ligados, só em derradeira instância parto para pedir exames, muitos deles desnecessários ao correto diagnóstico.

Como disse em outros textos, creio, se não incorro em logro, grande parte deles ditam saudades, reminiscências, sentimentalismo.

Tenho o passado grudado ao meu presente. Sempre olho pra trás, embora muitos digam que o que conta é o de aqui pra frente.

Talvez a razão deste fato retrato em corpo inteiro de mim seja a capacidade que tenho de sentir demais, mesmo que isso doa em mim, como se uma faca pontiaguda me espetasse a pele cheia de terminações nervosas a flor da epiderme clara.

Ontem, sábado, foi um dia especialmente produtivo e de imensas recordações de coisas e loisas que sempre fizeram parte de minha pessoa já bem vivida em anos. A maior parte deles cruzei de frente com a felicidade. Principalmente quando tinha meus pais por perto. Já outros foram marcados pelas decepções maiúsculas que ainda se amarram a contragosto, não apenas neste começo de agosto, bem como pela vida afora. E pelos anos que me restam.

Fui cedo a minha roça em Ijaci. Antes das sete da manhã já estava ali. Andado de um lado a outro, a maioria só, indo e voltando a minha casa por ser conclusa, á beira da represa do Funil. Em ótima companhia de meu amigo peludo e orelhudo, um pastorzinho alemão, um filhotinho ainda, que me segue como uma sombra ao sol do meio dia. Seu nome, Del Rey.

Ao ver, quase chegando a casa Amarelazul, cenário do romance Madest, eis que vi, levantando voo em bando, colorido em negro e amarelo canário, cabecinha de fogo, pássaros vários. Eram avezinhas negras, ao lado de canarinhos da terra, já amarelinhos, ex-pardinhos, deixando de ciscar o esterco de curral já bem curtido, a espera de ser ensacados e ir adubar hortas.

Enchi mais ou menos dez sacos de esterco, para levá-los a outro cenário paradisíaco, outra represa tão linda quanto, chamada de Camargos, onde moram felizes a família boa do caseiro Valdir, sua esposa Nazaré, e seus dois filhotes o Careca e a Manu menininha. Junto eles meus dois cães, da raça border Collie, batizados de Pirunguinha e Laika Rosa. Se não me fracassa o diagnóstico a cadela de pouco mais de um ano vai me dar mais um neto, ou seriam vários, já que cães fêmeas aceitam a monta, uma vez no período fértil, de mais de um Don Juan de quatro patas e focinhos frios.

Voltei a Lavras feliz da vida após uma breve incursão à casa próxima a estação fornecedora de energia da represa de Itutinga, depois de ver aquela revoada de pássaros pretos e de canarinhos amarelinhos, que para mim nada mais foi do que uma revoada de relembranças que tanto procuro, nestes mais de sessenta e sete anos de vida. Tomara muitos mais me restam, de aqui em diante…

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