Viver além da morte, feliz e bem humorado, remar contra a corrente, ao invés de envelhecer ir ao revés dos anos, em eterna saúde, evitar visitas a médicos, nem pra prevenir enfermidades, não apenas pra mim foi sempre um sonho, realizável, como para muitos que vivem sob esse céu azul, assistindo nas manhãs bem cedo o despertar do sorriso franco do sol, ou o derrocar sonolento da lua em seu leito celestial.
Bem sei que eternidade trata-se não apenas de uma palavra linda bem como um desejo utópico, neste mundo de tantas coisas boas, entremeadas de momentos ruins.
Seja eterno enquanto dure. Foi dessa maneira lírica que minha mãe, que mora na infinitude azul onde penso ser um lindo condomínio, cercado de muito verde, pássaros cantando, liras tocadas pelos anjos, pessoas amistosas, aladas, cobertas de penas brancas, ao ouvir dela, naquele exato instante do seu passamento ao mundo descrito antes, quando ela me disse: “Paulinho, meu filho doutor. Seja bom enquanto durar-lhe a existência terrena. Pois, do lado de lá, pra muitos desconhecido, creio, piamente, que a maldade inexiste, o amor impera, as coisas boas predominam, daí o nome de eternidade linda”.
Ela partiu fechando os olhos, pertinho da minha passividade e incompetência em prolongar-lhe a vida, mesmo sendo médico, profissional compromissado em oferecer todos os recursos possíveis que a ciência coloca-nos a seu serviço.
Quem me ensejou este texto, por mim batizado de Adorável Senhor Eterno, inspiração que me assaltou durante a noite de ontem, três de agosto, mês ventoso, não tanto frio quanto o inverno dita, não é apenas personagem de ficção, mais uma das invencionices minhas, e sim ele existe mesmo, lutando contra a morte, desde há muitos anos atrás, valente, aguerrido, um grande sujeito, escritor de renome em toda a região, jornalista versado em vários assuntos, com certeza vai conseguir vencer a morte, já que ela tem a ele se revelado e o mesmo a chuta pra longe, tantas e tantas vezes tantas.
Seu nome é Pedro. Talvez o pai, ou a mãe, o tenha nomeado em honra e glória de um dos discípulos de Jesus Cristo, considerado por Augusto Curi como o homem mais inteligente da história.
Com meu amigo Pedro ombreava orgulhoso uma das páginas de um prestigioso jornal da nossa cidade de Lavras. Naqueles tempos encimava o nosso texto fotografias nossas e um curto currículo.
Não me recordo quem de nós era o mais feio. Nossas mães, que no céu estão, certamente apontam, a dele- ele, a minha- eu.
Eram textos curtos, o dele. O meu mais longo, não por este fato tenha sido considerado de maior qualidade literária.
Nossas idades regulam. Por volta de mais de sessenta e sete. Pedro é mais velho alguns meses apenas. Embora a doença pertinaz que dele se apoderou acuse mais.
Em livros publicados sou mais profícuo. Ainda me lembro de ter saboreado um romance do escritor Pedro, de nome Sonhos da Noite. Obra notável, em formato de bolso, entremeada de sexo e paixão. Outro, Navio Pirata, estilo crônica, sua especialidade, tive a honra de prefaciar. Suas incursões pelo cinema não podem ser deixadas de lado. Não como ator, pois beleza nunca lhe foi o forte, assim como a enorme competência em escrever e dirigir películas cinematográficas.
Sei que o amigo Pedro Coimbra tem lutado bravamente contra um câncer já bem avançado. Passou por cirurgias delicadas, dietas insalubres, faz sessões de quimioterapia, tem uma equipe notável para ajudá-lo a vencer tal enfermidade.
Pelo whatsAp temos nos comunicado diuturnamente. De quando em vez tenho o prazer de com ele fazer curtas viagem pelos arrabaldes.
No começo, filosofando sobre eternizar a vida, ao assistir maravilhado e assombrado a luta do Pedro contra a morte, como torço para que ele consiga vencê-la, achei por bem cometer não um sacrilégio. E sim mudar-lhe o nome de Pedro Coimbra de Pádua para Adorável Senhor Eterno. Com o aval da sua querida Eudóxia.