Em jovem adulto, médico feito, metido a especialista especialmente treinado em terras estrangeiras, ao chegar aqui, na minha cidade, tamanco branco nos pés, barba ruiva por fazer, logo ela branqueou, era tido um tanto quanto vaidoso demasiado, pensando que por estar chegando de fresco da Espanha, sendo o pioneiro na Urologia, trazendo ao sul das Minas Gerais a primeira cirurgia de próstata pela uretra, coisa nova, era o suprassumo da cocada preta, embora a branca seja de melhor sabor.
As enfermeiras, pessoas maravilhosas temiam me chamar ao telefone. Temerosas das minhas reprimendas, por motivo de uma sonda pós- prostatectomia entupida. Ao voltar ao hospital, plena madrugada, no melhor do sono, hoje tenho medo da noite, acho uma perda de tempo dormir oito horas inteiras, para reoperar os pacientes abertos na manhã do mesmo dia, elas, as boas meninas fingiam que não escutavam a minha braveza. E eu, depois de maduro, não apodrecido e de humor melhor apurado, acabei por ter ojeriza ao tal aparelho, antes não existiam os celulares, cada vez mais modernos, e de menor preco, passei a ser mais ameno no trato, mais receptivo aos queixumes das colegas de trabalho, embora ainda dê trabalho aos que comigo convivem.
Confesso, sem medo de me equivocar: gosto mais hoje da pessoa na qual me tornei. Com a opinião desejo ouvir a de vocês.
Antes pra mim, perfeccionista que ainda sou, menos, todavia, não diria “tanto faz”, “tanto fez”. Nem ao menos “vamos melhorar, da próxima vez”.
E eu não era feliz, e sabia dessa indefectível verdade.
Já o senhor, com o qual viajo de ônibus municipal, nas quartas e quintas- feiras, pelo fim da manhã, para atender Urologia num posto de saúde de nome pomposo, como eu era, AME, de nome Matusalém, alegre e extrovertido, assaz divertido por todos amado, ele mora sozinho numa casa amarela gasta pelos anos, logo defronte a um supermercado fincado na Zona Norte da cidade.
Um dos motoristas, todos são simpáticos e atenciosos, da Autotrans, apelidado Chumbinho, creio que nem ele mesmo sabe o próprio nome, chama carinhosamente o Matusalém de Corujão. E ele responde rodeando a cabeça em trezentos e sessenta graus como a ave em riba do cupim morto.
Já tive motivo de dar boas risadas ao lado dele. Embora use fone de ouvido, o tal Bluetooth, que dispensa fios, como eu não dispenso escrever tanto, finjo que ouço a conversa ruim entre o versátil Chumbinho e o alegre Corujão.
Hoje mesmo fui sabedor que um dia destes, por volta da volta do almoço, pela boca falante do mesmo motorista que não para quieto, um incidente que me fez pensar no quão é bom morar em minha cidade. Pasmem! O Corujão exibia um gordo volume no bolso da frente da calça surrada. Era, de verdade, um maço de notas graúdas, acumulando mais de cinco mil reais a serem depositados em sua conta num dos bancos da cidade. Talvez seja não fruto do seu trabalho. E sim herança de família, agora ele não tem ninguém a quem deixar seu legado. Na próxima viajem vou me candidatar a tal. Quem sabe ele me adote?
Foi hoje mesmo, quase onze horas, terminado o atendimento do dia, foram quase vinte pacientes impacientes a espera naquela salinha dotada de uma mesa branca, uma maca coberta por um lençol de papel da mesma cor, duas cadeiras defronte a minha, luvas suficientes ao toque na próstata, não confundam Urologia com Proctologia, ambas usam o dedo enluvado pelo mesmo trajeto, só que para fins distintos, quando, assentado ao mesmo banco de ferro, protegido do sol ao desvario e pela chuva que anda fazendo falta, assentou-se do meu lado direito o amigo de fresco, o Corujão Matusalém de batismo.
De pronto retirei meu Bluetooth das orelhas. Estava ouvindo um músico alemão, uma música linda alemã, de nome Berlim.
Finquei prosa com o amistoso Corujão.
“ E aí, caro amigo. Você vai adonde”? “ Almoçar”, afiançou-me o colega do banco do ponto da lotação. “ Em que lugar”? Mais uma vez dele ouvi o primeiro “ Tanto faz”. Seguido do “ tanto fez”.
A tudo que eu perguntava, se gostava das moças que passavam a nossa frente, se bonitas ou não, ele dizia, com ar de que não importa se as águas correm pro lado de cá ou acolá. Da sua boca ouvia: “ tanto faz, tanto fez”.
Despedimo-nos alegremente, sabendo da sua felicidade, por tantos e tantos faz, quanto fezes, conquanto eu, ao chegar recente da Espanha, metido a sabe- tudo, quando não sabia de nada, exigente e perfeccionista como era, não saberia jamais escrever, nem ao menos imaginar que a felicidade mora num embornal surrado, numa casa de campo, num casebre à beira mar.
O Matusalém, Corujão, para o motorista da Autotrans, pra mim mais um ícone de verdade, como era o Zé Miguel, o Baratinha que recente morreu, tanto para ele faz, quanto tanto fez.
Pro cê, amigo do banco do ponto de ônibus, morador na casa amarela desbotada, o meu sonoro abraço em forma de laço. Não muito apertado, agora contigo aprendi, que tanto faz, como tanto fez.