Não me lembro de quando foi, ou se o fato aconteceu, de ter começado um texto pelo nome da pessoa motivadora deste meu escrito. Acontece que hoje, agosto dando seu ar da graça, mês especial por tantos motivos a seguir assinalados: da florada dos ipês, do final das férias escolares, da metade do ano que já se foi, do vento que sassarica forte, frio ainda. Hoje, ao descer a rua o termômetro marcava nove graus Celsius. Mesmo observando o sorriso franco do sol. De muitos aniversários, data, no meu entendimento modesto, depois de passados os enta não deve ensejar motivos para comemorações, salvo aquele cumpleanos brilhantemente celebrado no dia vinte de julho passado, data natalícia do primeiro aninho do meu querido neto Theo. E, para não deixar a efeméride esquecida não poderia sonegar a lembrança dele, do pra mim, e creio para todos que tiverem a felicidade de conhecê-lo, senhor circunspecto, hábil administrador, fundador da agência do Banco do Brasil onde tenho conta até hoje, apesar de a tal casa bancária estar completamente distinta daqueles idos anos de ontem, quando ele era o gerente, sempre vestido num terno escuro, com sua calva luzidia, magricela, quando jovem, dizem que muito parecido ao meu irmão e a mim mesmo.
Absolutamente não poderia olvidar, ainda sobre datas do mês de agosto, o dia dos pais, no dia treze de agosto perto, e, exatamente no dia primeiro meu pai, Paulo José de Abreu, fazia aniversário. Caso ele fosse vivo estaria noventa e quatro anos de idade. Pena que aos setenta e sete uma pertinaz enfermidade nos deixou órfãos, eu e meus dois irmãos, Fred e Rosinha. Que inda hoje me faz passar em sua casa, naquela rua de tantas lembranças eternas, de nome Costa Pereira. Minha saudosa mãe o sucedeu por cinco anos apenas. Ambos se despediram da vida em meus braços impávidos e impotentes de médico. E como foi duro assisti-los em suas agonias…
Paulo José de Abreu, nascido de Abreu, da região mesmo, creio que o ramo dos de Abreu veio da hospitaleira Ribeirão Vermelho, e da zona rural das Três Barras, onde meu tio Zito tinha uma fazenda onde aprendi que, mesmo a vaca sendo preta o leite despejado de suas tetas veste branco espumoso.
Meu pai era o segundo em ordem de idade dos Abreus de Ribeirão. A mais jovem, filha única mulher do casal descendente de portugueses, Vó Maria e Alberto José de Abreu. Ela, do lar, prendada moçoila casadoira, fazedora de um doce de leite de adocicar as papilas linguais. Seu marido, católico convicto e praticante, ferroviário carpinteiro que trabalhava nas oficinas da Rede Ferroviária hoje extinta, deixando em seu lugar ruinas escombros de saudades tantas dos trens de ferro, das Marias Fumaças nos seus “ piuiiiisss” sibilantes. Ainda sobre o mesmo tema, citando os filhos do casal de Abreu, tia Liquinha, sempre que me lembro dela me recordo da progressista Varginha do ET, que não sei se realidade ou fantasia, pródiga em fazer filhas fêmeas, em número de cinco no total, apenas um varão contava o casal nos dez dedos das duas mãos. O de mais idade, o grande mascate viajor, Tio Bento, notável contador de causos, ao me lembrar dele e de meus primos do Paraná, outro bom vivant, sempre mancando numa das pernas, deixou três filhos distantes, com os quais, dado a lonjura, foram com quem menos convivi. Já o tio Chico Abreu era o mais formoso da turma. Idem fazendeiro, depois construtor, deixou entre nós fama de Don Juan. Com imensa saudade e tristeza me lembro do primo Haroldo, o qual encontrei morto num pequeno apartamento nas vizinhanças do condomínio onde hoje vivo feliz ao lado da mulher que tanto me faz falta.
O derradeiro de Abreu, o último dos Moicanos vivo, tio Albertinho, aos quase cem anos por certo vai chegar a tanto, mora em Volta Redonda, ao lado da santa Tia Luzia, amparado por mãos afáveis da querida prima solteira ainda, embora linda, a amada com a qual troco whatsAp, Maria Inês, irmã de outros primos de Abreu ciganos do mundo.
Depois de citar, an passant, tantos de Abreus, não posso deixar a data do seu aniversário, que caiu no dia de ontem, a revelia do olvido.
Foram tantos momentos passados juntos que nem sei contá-los em números. Em saudade, talvez sim.
Acredito que aprendi a escrever ao vê-lo em sua Facit branca, naquele escritório onde, por pouco tempo, uma vez aposentado do banco, em sua curta carreira de advogado competente, ele datilografava petições rigorosamente exatas.
A primeira crônica nascida de dentro de mim foi na noite de sua morte. Seu nome solfeja ainda: “Réquiem a um pai sem limites”. A partir de aí não parei mais de escrever. Talvez psicografado por sua inspiração maiúscula.
Caso fosse me lembrar de todos os fatos, provindos tanto da saudade e das lembranças que Paulo José de Abreu nos deixou, dos comentários alvissareiros ainda hoje escutados dos que com ele conviveram, dez, vinte páginas não caberiam tantas letras e palavras uma a uma ditadas pela saudade que ele me deixou como legado.
Exemplo de competência profissional, ética, decência, sobriedade, amor à família, cultura e educação refinada, foram características marcantes, além doutras, que desejo deixar aqui como testemunho do quanto o admirava, e ainda cultuo a sua imagem, embora as imagens sejam perenes e as pessoas passarinham. Meu pai não morreu, ficou, segundo o dito por Guimarães Rosa, encantado. Encantando a todos que com ele estiveram juntos antes da sua partida, vítima de cruel enfermidade.
Paulo José de Abreu não mais está entre nós. Deus o chamou para ser gerente do céu. Ao que meu pai aquiesceu, de bom agrado.
Paulo José de Abreu deixou-nos órfãos não apenas eu, meu irmão Fred, a Rosinha, que ele tanto amou. Sei que agora, ao lado dele, num lugar especial, assenta-se minha mãe Rute. Deus zele por eles dois, pelos pais do mundo inteiro. E por nós…