Os dias de hoje mugem sombrios dado à crise que venta pelos ares de agosto.
Não tanto pelo clima seco e hostil. Da mesma forma por falta de brilho da florada dos ipês que no fim do mês passado se fez anunciar. O fato retrato que mostra a situação crítica por que passamos, basta estarmos atentos às notícias funestas veiculadas pelos jornais, tanto pela imprensa escrita, pela TV, ou na linguagem abreviada da internetês, para ficarmos cientes da falta de respeito a nós, cidadãos brasileiros, cumpridores dos nossos deveres, contribuintes responsáveis por impostos exorbitantes, sem retorno, que tudo fazemos para andar na linha, e, quando menos esperamos lá vem um trem, chamado de corrupção, atropelando-nos os sonhos, fazendo com que nossas mais idílicas aspirações desapareçam pelo ralo furado da pia do banheiro sempre entupida, pela podriqueira bandida dos que nos desgovernam. Salvo desonrosas exceções.
E quando algum heróico cidadão de bem, que nunca jogou papel no chão das vias públicas, leva o próprio lixo para a própria casa, sempre limpa e asseada, que nunca precisou usar os serviços mal vistos do sistema único de saúde, pois, pobre dele caso não pudesse pagar um plano decente para tratar doenças tantas que nos afligem tanto, cria coragem para desengavetar um negócio com que tanto sonhou, desde os tempos longínquos dos bancos escolares, as exigências são tamanhas para abrir uma pequena pastelaria de fundo de quintal, apenas ele e sua amásia são os responsáveis por fazer a massa, comprar a carne de segunda, no velho supermercado cheio de ratos gordos (não são políticos os tais roedores), cuidar da faxina da vendinha simplesinha, de apenas dois metros por um e meio, entra o dono tem de sair a parceira, aparece dois grandes entraves ao sucesso do negocinho pouco rentável: a tal gente da vigilância sanitária, vestidos todos como policiais da Suate americana, só lhes faltam as armas de gordo calibre, pois as usadas por eles são apenas a caneta e um papel amarelado chamado de alvará de funcionamento.
Aí, o dono da pastelaria que já nasceu chorando fraquinho, com apgar bem baixinho, de nome João, Adequa-se é o sobrenome, descabela-se os parcos cabelos, só os tem na vizinhança das duas orelhas, ao ver os fiscais exigentes da tal vigilância mais que atenta, não precisava tanto, tenta dialogar com eles e não tem sucesso na empreitada. Fecha a pastelaria ou adequa-se às exigências enormes, como se fosse um hospital de referência regional. Ainda indeciso com a decisão a ser tomada, se muda o piso de cimento duro para porcelanato de preço exorbitante, se compra a pia exigida pelos visitantes mal vistos, se faz pastel segundo a receita dada a preço injusto pela dona da pastelaria bem perto, que faz parte da quadrilha de pouco aparecida.
Ao lado da venda que tudo tinha para ter sucesso, foi aberta uma mercearia da mesma forma humílima. O dono foi batizado de Jorge Abre Falência. Ainda, naqueles verdes anos não se sabia a razão do nome que tudo indicava o final do pobre menino ainda não batizado. Só descoberto depois, da vistoria imposta pela mesma turma de gente inamistosa, que apenas se orgulhava de fechar estabelecimentos, mesmo sabendo da falta de higiene da própria casa onde moravam.
Dito e mal feito.
Uma semana depois, longo mês se passou, e nada de o alvará que permitiria deixar a reles mercearia do pobre comerciante primário começar a pagar as compras aos fornecedores, que entulhavam a porta da tal como abelhas a espera da florada da primavera, sempre de olho à porta, e nada de aparecer a mulher obesa mórbida, que comia como um capado gordo, com a licença tão aguardada, o tal papel com o timbre da fiscalização municipal, o salvo conduto a dias melhores, que nunca virão.
A mesma data foi referência para ambos. Era primeiro de agosto, mês considerado por muitos de mau agouro, confirmado depois.
A licença foi-lhes negada. O alvará não saiu da gaveta cheia de papéis borrados da secretaria irresponsável pela permissão de funcionar coisas e loisas tantas, que não se sabe quantas casas comerciais estariam a pleno vapor, permitindo ao país tão sofredor ver sorridente seus filhos honestos tornando-se comerciantes prósperos, se não pelo menos que lhes fosse permitido pagar as contas, prover a família de muitas bocas famintas serem felizes, até mesmo se darem bem na vida. Um futuro risonho, crianças realizando sonhos, adultos felizes, anciãos passando bem o resto dos seus derradeiros dias.
Ao final da história, como em outros casos semelhantes, iguais, tanto João quanto Jorge, por não se adequarem às conveniências da tal vigilância insana, decretaram falência, não fraudulenta, daí os seus nomes que ensejaram o título do texto de hoje