Quem quer comprar ?

Não tenho muita tendência a vender coisas.

Nem ao menos de comprar qualquer coisa.

Divido-me entre ser agarrado aos meus bens. Que são bem poucos. O suficiente pra ser feliz com o que tenho. Pra que mais?  Já escrevi um texto que responde a esse dito. Pra muitos maldito já que quem tem muito cada vez mais pensa em ter mais um cadinho.  E tudo que tenho, o cadinho que guardo no meu cofrinho, distribuo de mão aberta aos que nada têm.

Pra mim a máxima tem efeito. Prefiro ser alguma coisa de importante para alguém a ter um monte de dinheiro igualzinho aquele que o tio Patinhas tinha quando nadava em cédulas de não sei quantos reais ou dólares seriam.

Tudo começou há anos atrás. Quando aqui apeei vindo da Espanha. Tentando me fazer  entender num portunhol arrevesado. Num linguajar meio arranjado e nem tanto manjado. Dizendo ter lido Dom Quixote de La Mancha no original de Manoel de Cervantes. Pura balela! Desde antão tinha mania de inventar historinhas tais e quais o O Conto da Carochinha.  Ou a Chapeuzinho  que ficou vermelhinha quando se desnudou a frente do lobo mau ( não sei se ele a comeu já que não fui eu)”.

Queria e fazia birra para comprar uma rocinha que desse lucro e não apenas causos para contar.

Assim o fiz. Empenhei tudo que tinha mais algumas coisinhas que minha esposa possuía.

Paguei caro por aquela porcaria. Lá não tinha porcos nem vacas latindo latinha.

Naqueles tempos idos pensava que todo esculápio poderia ser dono de vacas. Mal sabia eu que vaca berra e não canta como os bentevis. E que delas tudo se aproveita inclusive quando uma vaca morre urubus se banqueteiam.

Levava cada manta, fazia catiras erradas. Comprava uma vaca mocha e deveras o seu boi era chifrudo. Capava porcos que em verdade eram porcas sem parafusos. E eu ficava confuso, desnorteado sem saber onde era o norte e adonde o bonde fazia baldeação no balde.

Mesmo assim, e não assado de tanto andar no lombo do cavalo a pelo. Persisti no oficio de ser roceiro não fazendeiro do asfalto.

Anos e não ânus se foram na poeira do tempo. E eu, médico experiente continuei na lida na roça. Foram mais de trintanos tentando entender o por que da porcaria de o leite ser branco nascido numa vaca preta.

Era um tirador de leite a cada ano. E mais desenganos sofria eu.

Abandonei a atividade leiteira devendo tudo e mais algumas coisiquinhas que guardava na minha cuequinha. Quase pedi concordata as minhas vacas.  E foram elas que me avalizaram.

Há tempos idos nem passava a frente de um banco.  Assentava-me  em outro banco, o de cimento que não empresta dinheiro e nem cobra juros os quais desconjuro de tão altos que são.

Em boa hora passei minhas ruminantes a um amigo que não só entendia de curar umbigo de bananeira que já deu cacho, como também sabia capar porcos. Euzinho, sozinho, capo gente com meu bisturi afiado como minha pena pesada.

Depois de tantos anos trocando éguas por cavalos eunucos. Tentando entender que vaca não da leite e custa caro tirar dela. E que elas, as vacas, só dão lucro quando o dono fica junto.

Tomei uma decisão acertada e irremediavelmente irrevogável e irreversível.

Quem quer comprar meus causos, minhas crônicas que já são mais de vinte mil. Quem vai pagar a importância que pra mim importa e muito.  Já que passaram-se quase mil anos desde que uso a minha rocinha para escrevinhar tanto?

Quem se habilita a comprar, por um precinho nada camarada, aqueles camaradas que já me deram tanto prejuízo na minha lida rurícola. Era um tirador enganador de leite a cada ano. Se for contar quanto de grana já gastei com eles, nem meu contador sabe.

Quem deseja adquirir aquele pedaço de pasto sujo que agora, depois dessa chuvarada danada, quem vai roçar a pastaria e remendar as cercas?

Mais uma vez pergunto: “quem vai querer comprar o prazer que me deu ao ver aquela novilhota lindona expelir a cria numa matinha ensombrada, quando eu mesmo a trouxe ao curral devagarinho para que ela, a Braúna, não escondesse o colostro que não só para o seu bezerrinho como pra mim era um colosso de leite purinho”?

Quem almeja comprar o prazer que me deu ao fazer uma visitinha ao Tiãozinho da dona Vanda. Aquele senhorzinho que se sente acanhado ao me cumprimentar,  pois pensa que sua mão cascorenta, em contato com a minhazinha, que se diz limpinha,  já passeou por tantas regiões insalubres mesmo enluvada ao fazer o toque quando do exame de próstata.

E por qual preço penso em vender minha rocinha prejuizenta?

Seguro que sou. Não vai ser por menos que dez galinhas caipiras com doze pintinhos amarelinhos debaixo de suas asas.

Ou por dez sacos de milho em grãos. Ou por dois quilos de fubá saindo do munho d’água que meu amigo Cláudio troca por dez quilos de milho em grãos.

Se eu decidir mesmo vender meu sonho de ser um dia fazendeiro não façam horas comigo.

Paguem o preço justo e combinado. E não carece de assinar um garrancho ininteligível, pois bem sei que vosmecê não sabe discrevê letra. I eu tamém num sei iscreve direto e reto.

Ainda bem que ninguém se manifestou inté ainda.

Pois eu num vendo minha rocinha por precim nenhum desse mundo imundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

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