Depois de certa idade assumem-nos a paternidade

De vez em sempre lucubro.

Pra que tamanha pressa se mais cedo ou no mais tardar do tempo, querendo ou não, uns mais prematuramente, outros no tempo certo, embora gostaria de ter o controle do tempo para dizer a ele sutilmente: “por favor meu tempinho apressado. Me deixe montar  na sua cauda, cavalgando-lhe mansamente,  sem lhe pedir tempo para descansar, que tu pares um cadinho antes de me despedir de todos dessa vida tão gostosa, já que penso que a gente vive assoberbado de trabalho. E no ocaso de nossa existência deixamos o trabalho de lado e passamos a dar trabalho a quem vai cuidar da gente.

A ordem natural das coisas não é outra senão esta: nascemos sem saber quem é nossa mãezinha. Ao abrirmos nossos olhinhos, feinhos como um filhote de passarinho ainda por emplumar e sair do ninho. Nos braços de uma enfermeira estranha somos aquecidos numa manta e nos enrolam. No mais tardar do tempo infelizmente crescemos.  Uns mais um cadinho outros não mais que um metroemucado.  Fui à escola por volta dos cinco aninhos. Passei uns tempos no jardim da infância cujo nome era Narizinho Arrebitado.  De lá fui levado, menininho levado e sapeca, a outra escola onde aprendi a olhar as coleguinhas com olhinhos de pura gula. Umazinha delas não me sai dos pensamentos. E como era bonita aquela menininha. Bem me lembro daquele dia infeliz. Elazinha, assentadinha  a uma carteira vizinha  a minha. Sem querer pra mim querendo dobrou uma das suas perninhas. Se me recordo elazinha usava uma sainha tão curtinha que deveria ter sido feita com um lencinho que sua mãezinha usava no seu pescoço. Não mais de alguns centímetros de pano se muito. E quando a danadinha deu na  sapituca de cruzar suas perinhas lisinhas eu, sem querer mas desejando muito, dei uma virada de olhos pro lado de sua carteira. E vi algo que não deveria ter enxergado. A tal não usava calcinha. E eu singelamente, sem maldade nenhuma, só queria saber de que cor era a sua calcinha. E fui levado ao diretor que me puniu com uma semana inteira de olhos vendados. Para não ver a cor da sala de aula. Nem mesmo se elazinha sabia o quanto gostaria de vê-la peladinha por inteira no banho molhado do seu chuveiro.

Chega de lero lero pois  bem sei que voismecês,  meus leitores, cansados que devem estar das minhas crônicas diuturnas.  Estarão ansiosos para ler essa que nessa manhã de hoje começou mais tarde devido a ter ficado assistindo ao jogo de tênis do João que terminou com uma bela vitória dele. Esse menino vai longe nesse esporte que pra mim é o mais difícil de praticar.

Depois de crianças seremos jovens.  Uns mais responsáveis e outros nem tanto.

De jovenzinhos infelizmente nos tornamos adultos. Muitos deles são adúlteros.

E eu, como a muitos acontece, ficamos bobos, lerdos e burrinhos nos casamos.

Confesso e me penitencio. Deveria ter comprado uma bicicleta, mas me casei com uma patinete motorizada que não para quieta um instante sequer.

Uma vez cometido essa sandice, já são tantos anos corridos. De pai passei a avô. Quer coisa mais apetitosa do que ter netos? Os meus três me fazem de gato persa amarfanhando e ronronando de prazer quando os tenho ao meu lado. Embora eles me dêem prejuízo quando me assaltam a carteira. Felizmentemente a tenho quase sempre vazia. Noutro dia infelizmente ela estava recheada de notas altas. Bem mais altas do que as deles quando me mostram os boletins.

Uma vez avós avoando e babando sem usar babadô.

Nossos filhos, pensando que a gente já passou do tempo. Se bem que eles um dia irão passar.

Os danadinhos dos nossos rebentos só têm olhos para o que escrever na lápide de nossa sepultura. Na minha deixarei escrito eu: “aqui jaz um senhor que, se morreu não queria que isso tivesse acontecido. Morri de susto. Sem querer nem desejando a morte para ninguém salvo à megera da minha sogra que, na hora da minha morte deve estar batendo palmas no céu”.

Quando nós, os pais avós quase avoam ao céu. Nossos filhos, a quem demos tudo, durante a vida inteira. A nossa conta bancária mudou de dono.   Todo nosso patrimônio muda de pai pra filhos. E a gente passa a viver num asilo e nem recebermos a visita rápida de qualquer filho ingrato. Nossos descendentes diretos e indiretos pensam em nos interditar. Tudo que a gente tenta fazer com nossos bens nossos filhos impedem a concretização de nosso negócio. E bem sabem eles que fomos nós que construímos aquela casa enorme onde eles foram criados e mal. Malcriados sim, respondões e irreverentes aos nossos cabelos brancos e as rugas que colecionamos em nossa face.

Dura, cruel e insana realidade.

De crianças jovens ficamos. De jovens adultos nos tornamos. Casamos sem saber o que os filhos que geramos irão fazer com a gente. Ainda bem que os filhos nos deram netos. Se não fossem eles…

E ai? Pergunto a vocês?

Quando velhos ficamos.  Não ainda decrépitos e seres abomináveis como homens das neves.

Depois de certa idade filhos e netos assumem-nos a paternidade.

Como se fossem eles gestores da nossa capacidade. Ainda muito produtiva e com muita coisa a passar adiante…

 

 

 

Deixe uma resposta