O cansaço do Juquinha

Quem ainda não se sentiu cansado depois de um dia inteiro de trabalho.

Quem ainda não se viu exausto depois de amar tanto e não ser amado.

Quem ainda, depois de tentar tocar as estrelas não se sentiu abandonado, triste e acabrunhado; não se viu aqui na terra e não próximo aquelas luzinhas piscantes, que vivem agrupadas ou solitárias lá no alto?

Quem ainda, naquele momento ingrato, que tenta apagar de suas memórias, quando se despedia dela na rodoviária. Dizendo adeus e não até breve, contando minutos desesperado, a espera de outra hora poder estreitá-la de novo nos braços.

Qual de vocês, em momentos melancólicos de despedida, não perguntou a si mesmo e não teve resposta- por que a deixei ir embora? Fomos tão felizes juntos. Deveria ter aproveitado melhor aquelas horas felizes que passamos lado a lado. Faltou-me coragem para ter escolhido mudar de vida. Seria em verdade mais feliz se porventura de uma aventura naquele momento crucial de minha vida tivesse decidido abandonar minha família e me lançar de cabeça naquele amor que me fez tão bem?

Quantos e quantos momentos de indefinição povoaram meus sonhos. Em menino sonhava muito. Agora, não mais criança, deixando a infância anos atrás,  infinitamente perdido em lembranças de quando ainda menino , como sinto falta dos meus amados pais.

Eu me encontro e me acho naquele menino, de gênio difícil, meio excêntrico tido pelos coleguinhas da sala de aula. De nomezinho singelo como uma flor de assa peixe que recebe o orvalho das madrugadas  e se despetala todinha tiritando de frio. Cujo nomezinho primeiro se escreve Juninho. Mas bem que poderia ser um Paulinho qualquerzinho.

Juninho não se adequava as normais rígidas de conduta naquela escolinha rural.

Elezinho era tido um menininho fora do contexto normal.

Não assentava às carteiras convencionais. Usava seus lápis ao revés com o grafite escrevinhador do lado contrário do normal. Não levava merenda na merendeira e sim numa trouxinha que sua avozinha fazia. Não se acostumou a levantar a mãozinha quando queria ir ao banheiro dizendo com licença professor.

Ele, ao contrário dos coleguinhas, não prestava atenção ao que dizia a mestra. As lições que ela ensinava não eram de sua maior predileção. Na hora do recreio ele não tinha recreação. Passava horas vazias olhando as estrelas mesmo ao lume dos dias claros.

Juquinha era um garoto um tanto esquisito. Parecia aflito e desconcentrado aos que não o conheciam bem. Uma carta fora do baralho a embaralhar as vistas de quem não enxergava muito bem.

O que para os outros era bom para Juquinha não era tanto. Ele destoava de todos aqueles que troçavam dele.  Um anãozinho de pouca estatura, mas de uma cultura inegável convenhamos também.

O menino Juninho cresceu até menos de metroemucado. Da sua testinha ancha ao dedão do pé a fita métrica dizia: “ocê, meninozinho, quando adulto vai ser pintor de rodapé”.

Mas de deficiente e demente Juninho nada tinha nem fazia questão de possuir. Ele se metamorfoseou de uma bruxinha feiosa numa borboletinha que avoava de flor em flor.

já na maior idade Juquinha, se já não tinha nenhuminha vaidade acabou por perdê-la de vez pra nunca mais a encontrar.

Aos dezoito incompletos naquele mês de abril depois da semana santa o mocinho Juquinha já era um cientista renomado. Foi ele quem inventou o para raios que não deixava os raios caírem no mesmo lugar duas vezes. E foi ele também que adoçou o mel das abelhas. Adocicou não é bem o termo, salgou, o sal salga melhor.

Juquinha fazia questão de não se enquadrar em quadros de mau gosto. Além de cientista inventor Juquinha pintava o sete nas lousas negras do quadro negro.

Era um zero a esquerda embora não fosse petista de carteirinha. Nem se posicionava a direita deixa ver.

Foi no feriado da semana santa que nos demos de olhos enternecidos.

Juninho chorava sem derramar lágrimas.  Era um choro seco, doloroso e doído.

Eu me condoí da sua tristeza e melancolia.

“Por que você está assim Juninho? O que te aflige tanto? Qual a razão de tamanha infelicidade”?

Juninho,  esfregando os olhinhos numa tentativa inglória de enxotar ou encaixotar a tristeza me respondeu mais alegrinho: “ sabes por quê? Cansei de tentar caber em caixas que me apertam e me sufocam. Agora me desencaixotei de vez. Estou cansado de seguir as normas ditadas por minha professora dona Norma.  Ela que se foda, não eu…”

 

 

 

 

 

 

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