Negócio fechado

Nunca pensei na dificuldade de passar adiante um pedaço de pasto sujo, duas casinhas pequeninas, um curral feito depois, uma grande coberta onde vacas e seus cúmplices os bois pudessem se enfarar de tanta comida, duas ou mais matinhas onde os bichos pudessem se refrescar num dia de sol a supino, uma represa feita depois que agora se acha entupida pelas taboas, uma estradinha nanica que foi feita à duras pelejas na intenção de ligar os meus vinte e cinco hectares grandões a outra morada que enfeita a tal represa, ladeiras íngremes por ali sobem e descem onde vacas pastejam e se enfaram de tanto comer, e cercas carecendo de ser remendadas cercando divisas, tudo isso e mais algumas coisinhas foram postas a venda e eu pergunto: “quem quer comprar”?

O preço que a princípio botei na minha rocinha prejuizenta não foi nada saudável.

Qualquer mansão nalguma praia paradisíaca iria servir como entrada. Juntando a ela dois ou três iates últimos modelos, um Jet Sky de boa marca e que não consumisse tanta gasolina.  Uns dez tratores parrudos como tem meu vizinho ao qual dei o nome de Zé Peleja. Uma boiada de gado branquinho tido bravo e de difícil contensão (leia-se Nelore). Um jato supersônico que avoa sem cair ao chão.

Isso tudo e mais um cadinho pra mim entraria no negocinho. Noves fora, aquele corajoso e fortudo que porventura de uma desventura adquirisse meu pedacinho de paraíso.  Dantes eu o chamava assim e agora dei o nome de pedacinho do inferno. Devido às dificuldades encontradas por mim, seu dono, de manter aquilo tudo em bom estado.

Inté a noite passada não achava nenhum bobão que desse um lance insosso que fosse, dizendo-se interessado em comprar ou alugar minha rocinha perdida nos cafundós de onde Judas esqueceu as botinas.

Comprar a dinheiro vivo não foi bem a oferenda que na noite de ontem me passaram.

Ele, meu vizinho de cerca, sujeito de mãos cascudas e cabeça careca como bola de sinuca. Valente e renitente até que se provasse o contrário. Epitetado por mim de Zé Peleja. Seu nome de verdade não digo nem escrevo pra não melar o negocinho. Sujeito que não se sujeita a ser mandado, pois se diz patrão dos seus subordinados.

Enfim acertamos o contrato de locação.

Zé Peleja pai tem preferência de compra após vencer nosso acórdão que ainda não assassinamos.

O tal contrato tem distrato, normas escritas para desfazer o trato.

Ficamos acertados assim e não assado.

Eu, douto doutor sem ser titulado doutor por não ter a titulação devida. Mero esculápio urologista ainda praticante embora muitos me achem aposentado. Cujo dito cujo nome vem grafado como Paulo Expedito Rodarte de Abreu. Vamos desencompridar para Paulo Rodarte.

Abreu se não pagar nem eu. Assassino esse contrato que escorre na injustiça, melhor escrito justiça. Como sendo o locatário ( não otário).

Do outro lado do papel deixa escrito seus garranchos assim acordados e não dormindo.

Zé Peleja e seu filhote Zé Pelejinha. Aquele mocinho que ainda não mostrou seu canivetinho pra namoradinha.

Esse contrato com distrato passa a valer a partir do próximo vinte desse mês de abril.

Zé Pelejinha vai pagar a cada mês a importância que pra mim importa e muito de alguns mil reis. Se atrasar um dia sequer corre a multa de alguns bezerrinhos nascidos já na minha impropriedade.

A ele cabe roçar a pastaria a fim de evitar ser formado ali um sarandi.

E também remendar e não remediar as cercas divisórias entre a minha rocinha e os confrontantes que são muitos.

A mim caberia ficar a toa acordando mais cedo para passar mais tempo sem nada fazer. Além de receber pontualmente o aluguel antes da data marcada.  Se atrasar Zé Pelejinha tem de me reembolsar no bolso dez gabiruzinhos antes que eles virem linguiça.

Ficamos ainda acertados, no mosquito que, se uma cobra peçonhenta picar e varar a minha botina, é de responsabilidade do locatário.  No ocaso de um descaso o Zé Pelejinha.

O prazo do arrendamento não permite lamento. Nem que uma as partes envolvida escorregue na maionese.

Esse contrato passa a valer depois das assinaturas das partes envolvidas.

E se o locatário ficar louco varrido o locador não vai poder varrê-lo com vassoura de piaçava e sim usar outra vassoura feita na roça mesmo.

Esse acórdão de cavaleiros (deveria ser cavalheiros), perde o  valor caso a chuva ensope as folhas de papel.

AFFF, como foi duro convencer o pai do Zé Pelejinha a assinar esse contrato.

Ele é agarradinho e nunca quis comprar um só livro meu.

E ainda por riba lê e relê,  todas as manhãs, as deliciosas crônicas que mando a ele.

Negócio fechado num é Zé Peleja?

Num vai quiabar não…

 

Deixe uma resposta