Vai com calma doutor

Seria em verdade a pressa inimiga da perfeição?

E que devagar se vai ao longe?

Não é bem assim que acontece aos velocistas. Aqueles atletas, não maratonistas que como eu correm devagarinho como uma tartaruga manquitola. Aquelazinha que carrega a própria casa nos costados.  Feliz dos tais quelônios que não têm de pagar aluguel. E se dormem de luz acesa descarecem de apagar a luz do abajur. Pois a dona daquela casa onde mora a tartaruga já vem com o casco enrugado e não se lixa se falam bem ou mal da sua falta de pressa. Já que tartarugas nunca serão as primeiras numa corrida apressada. Elas caminham devagar pelas estradas e são ótimas nadadoras quando na água.

Euzinho, em tempos idos, quando morava num condomínio chamado Jardim das Palmeiras. Coisa de alguns anos atrás. Tinha um costume esdrúxulo de acordar ao cantar do galo. Acordava antes de o padeiro ir à padaria. E antes mesmo de o retireiro esfregar os olhos remelentos e ir atrás do leite branco da vaca preta que era o seu sustento. Vestia um short que não mofava numa gaveta, pois era aquela a minha vestimenta preferida para corridas em longas distâncias. E, numa velocidade ínfima chegava trotando a uns mais de cinquenta quilômetros. E, quando me cruzava com algum doido varrido corredor convertido nalguma estrada qual seja poeirenta ou  asfaltenta ele me perguntava já sabendo quem eu era: “vai com calma doutor. Enche o peito de ar. Corra mais devagar sem divagar muito que um dia vai chegar nalgum lugar”.

Já tive mais pressa em tempos idos. Dantes não sabia e ainda não sei esperar muito. Sempre fui apressado. Chego antes do combinado. Encontro marcado e lá estou eu minutos antecipado chego. Não sei deixar ninguém me esperando. Desde nascido fui temporão. Afligia-me ficar na barriga da minha querida mãe até completar os nove meses. Fui expulso aos sete. Deslumbrei-me ao ver a luz desse mundo em sete de dezembro quando deveria esperar um cadinho mais para nascer dois meses depois.

Hoje, na data presente de sete de abril desse mês entrante. Continuo na mesma afoiteza de sempre.  Não sei ficar na cama depois das cinco da madrugada. Lençóis, cobertores se for no frio neles me enrolo, travesseiros me enxotam do leito bem cedinho.  Pulo da cama e assento-me ao trono mesmo não tendo minha cabeça coroada. Espanto o sono lavando a fuça com água fria quase gelada. Já que dormi nuzinho visto minha roupa já dependurada no mesmo cabide. E aqui chego abrindo a porta desse prédio já que o porteiro ainda não chegou.

Deveria seguir os sábios conselhos daqueles da minha idade. Aqueles velhuscos que já deixaram a mocidade lá bem atrás. “Vai com calma doutor. Você já passou da idade de esperar o Papai Noel depositar presentes debaixo daquele pinheirinho colhido numa matinha para servir de árvore de natal. Aquiete-se, sei que você não tem parança.  Sossega sua testosterona.

Sabemos que você não da mais conta nem da sua veinha enrugadinha e corcundinha. Sossega seu facho senão tu viras capacho para os outros pisarem.

Vai com calma doutor. Conta inté mais de mil antes de entrar numa fria quando um valentão te chamar à briga.

Controle-se doutor escrevinhador.  Não queiras encher a cabeça dos outros com suas infindáveis crônicas  que a maioria nem passarinha os olhos.  Peça, implore de joelhos  que não é chegada  a hora, suplique aos seus leitores que  um livro novo agora é mais uma louquice sua em querer publicar. Os tempos andam bicudos. Espera o barro secar para tentar subir o morro.

Vai com calma meu experiente doutor. Não é hora de o senhor parar de escrever tanto? Leia mais. Estude muito mais. Aculture-se assistindo a boas peças no teatro de sua vida. Leia bons autores. Não fique só lendo um tal de Paulo Rodarte. Esse tal médico escritor não muda de escrito. Sempre toca na mesma ladainha. Inventa palavrinhas novinhas e incorre no mesmo senão trucidando as frases com suas aliterações fonéticas não intencionais, diz ele.  Pura balela!

Vai com calma e tranquilidade meu estóico proseador. Fica na cama mais um cadinho. Cuidado ao atravessar as ruas. Vai pelas faixas, pois senão podes acabar enfaixado todo quebrado na cama de um hospital.

Sossega, acalma sua escrevinhança. Cuida sim de fazer engordar a sua poupança. Tenha uma reserva gorda de dinheiro para que não faltem recursos para cuidar de sua saúde, no porvir de sua despedida.

Já me recomendaram ter calma e tranquilidade antes que eu me esconda na escuridão lúgubre da terra e veja o capim brotar viçoso pela raiz.

Mas quem diz que burro velho vai querer mudar o trote, aquela toada gostosa pelos campos da cidade e da minha rocinha que tanto amo.

Não me contradigam.

Euzinho não consigo e nem desejo mudar-me por inteiro nem dividir-me ao meio.

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta