Eu não sabia

Tantas dúvidas e incertezas povoam-me os pensamentos.

Penso muito. Lucubro sobre tudo um pouco.

Devido a minha grande sensibilidade sofro só de pensar na vida.

Pra mim ela tem sido magnânima.

Cheguei a essa idade sem deixar a idade pesar muito as minhas costas ainda rijas e fortes.

Tenho as pernas ágeis. Dentro da minha cabeça os pobres neurônios correm de um lado a outro meio zonzos de tanto que eu exijo que eles pensem.

A minha imaginação não tem parança. Como um cavalo inteiro relincho e corcoveio tentando derrubar o peão que tenta se equilibrar no meu lombo.

Dantes, ainda criança, longos anos me dizem adeus.

Eu ignorava tantas coisas.

E perguntava a minha mãezinha querida, com aquela vozinha meio fanhosa: “mãe, peixinhos aquarianos sabem voar”?

Essa perguntinha  que fazia bancando o inocentinho tinha uma razão de ser feita.

Euzinho tinha um grande aquário de água doce. Nele inseri centenas de peixinhos.

Uns douradinhos de rabinhos vermelhos. Outros de barbatanas coloridas em azul e cinza.

E um delezinhos, de bocona grande e sempre faminto . Desde que passou a nadar no meu aquário senti a falta de outros peixinhos miudinhos.

Fiz-me de guarda vigilante. Postei-me escondido nas vizinhanças do meu aquário. Flagrei o tal peixinho voraz comendo dois ou três dos meus amiguinhos amarelinhos. Não tive dúvidas de como proceder. Peguei a rede de pesca. Abri o tampo do aquário no momento exato que o sacana devorava um dos meus peixinhos de maior beleza. Não vou dizer que movido por uma vingança extremada pesquei o assassino das águas do meu aquário e o atirei ainda vivo pela janela entreaberta.  E o vi esborrachar-se lá em baixo no asfalto negro sem poder escutar seu grito de socorro.

Fiquei de castigo devido a essa maldade. Mas não me arrependo de ter ficado horas e outras defronte a televisão sem poder assistir ao desenho animado que tanto apreciava.

Eu já sabia que peixes não voam. Mas eu levito quando estou escrevendo.

Não sabia, desde antão. Já mais crescidinho e metido a sabidinho.

Aos doze aninhos. De volta da escola. Já pensando no que seria anos mais tarde.

Ainda dúvidas me dividiam em vários Paulos Rodartes.

Dois Paulos principalmente. Um de mim queria ser médico. O segundo ser escritor.

Entramos em acórdão. Dividimo-nos em duas metades. A metade mais antiga optou por ser médico urologista. O escritor Paulo Rodarte esperou mais um cadinho para começar a escrever de verdade.

Continuei sabendo pouco e querendo saber mais.

Na vida quando a gente para de aprender por certo iremos parar de viver.

A vida pra mim é um eterno aprendizado.

Nos primeiros anos aprendemos o baba. Depois ligamos as letrinhas miudinhas para com elas formar frases. E com as frases fazemos parágrafos. Amontoando parágrafos, no meu caso muitos anos depois.  Descobri um novo amor. Passei a amar as palavras e até mesmo inventei outras. Até chegar a esse ponto de ter publicado vinte e dois livros com mais um que está por nascer.

Foi na manhã de hoje, quinta feira da semana santa. Que aprendi mais um aprendizado.

Numa tronqueira recém aberta por meu amigo Cláudio.

Gente boa vizinho da minha roça. Pessoinha da prateleira lá do alto. Quase impossível de ser tocado por nós do rés do chão. Ele, que desde tenra idade não enxerga e faz questão de viver feliz desse jeito.

Cláudio faz de tudo melhor que eu. Tira leite da vaca sem ver qual ela é. Trata de sua porcada indiferente se é noite ou dia a supino. Transborda de bom humor. Conta piadas melhor que muitos humoristas que ganham vida se fingindo de palhaços.

Quando parei perto dele naquela tronqueira que nem eu sabia como fechar e abrir. o não tão velho Cláudio aceitou posar junto a mim num selfie que tirei de nós dois no meu celular.

Foram segundos de riso quando ele imitava, com grunhidos  que ele fazia com sua boca numa imitação perfeita de porquinhos famintos jantando um farelinho de fubá molhado no soro do leite de vaca. E não é que ele também imitou à perfeição o mugido da vaca com saudade de sua cria ao se despedir de seu gabiru depois da ordenha da tarde.

Pena que a pressa me intimava a voltar à cidade.

Despedi-me do amigo Cláudio não sem antes perguntar a ele como é que você faz para fazer tantas coisas sendo privado da visão.

Cláudio me respondeu com um aperto forte de mãos.

E eu não sabia até então.

“Eu enxergo com os olhos da minha alma.”

É possível sim. Eu também faço assim…

 

 

 

 

 

 

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