Ele não viu, mas enxerga muito

Quando penso em alguém, desprovido da visão, que não prescinde dela para viver feliz, e fazer tudo aquilo que dantes fazia, logo me vem ao pensamento meu amigo Cláudio, filho de outro amigo que foi morar no céu. O não menos querido Zé Antonio. Aquele caboclo tinhoso, de mãos cascudas e tezes tostadas pelo sol, que mesmo aos seus mais de oitenta não sabia dizer não quando o intimavam a um roçado. Foi ele mesmo quem ajudou a fazer uma cerca na minha casa beira represa. Na minha rocinha prejuizenta.  A fim de protegê-la dos dentes roedores das capivaras e outros invasores nocivos.

Cláudio dispensa e não faz questão de encômios. Piadista de boquinha palradeira. Quando  nos encontramos faço questão de não sair da sua presença amiga sem antes ouvir um chiste novinho.  Já que o Cláudio cegueta tem um repertório que não acaba nunquinha, nem que a vaca dele mesmo tussa por estar resfriada.

Deixando meu amigo descansar nessa semana santa. E seu amado pai olhar por nós lá do céu em boa companhia dos meus pais. Não por ser hoje, dia primeiro de abril, efeméride dedicada a mentiras. Não minto se falo bem tanto do amigo Cláudio e do outro amigo Zé Antonio. Faltaria sim com a verdade se dissesse que ambos não são pessoas de finíssimo trato.

Isso de não ver e enxergar muito pode parecer um contra senso. Fere o bom senso e agride quem pensa o revés.

Estamos mais ou menos ao meio da semana santa. A partir de amanhã, quinta feira vou dar folga a mim mesmo e a minha querida Zaninha que acumula duas funções- a de secretária e uma dedicada enfermeira.

Convenhamos- nessa semana, e em outros dias santos ou feriados. Eu lhes indago. Por que não nos dar uns dias de descanso? Médicos ainda não são robozinhos ligados a internet. Os quais sempre estarão dispostos e de caras boas. Varando noites sem poder dormir direito. Desdobrando-se em plantões intermináveis.  Percebendo pagos ridículos sem poder dizer sim a uma aposentadoria que nos remunere condignamente até o fim de nossa jornada aqui na terra.

Não estou acostumado, desde que me graduei em medicina. Nos idos anos de um mil novecentos e setenta e quatro. Naquela faculdade que até hoje desfruta de ótimo conceito entre suas congêneres. A usar e abusar desse computador que, assim que o ligo ele não liga pra mim. E resmunga e faz cara feia quando nos encaramos. A internet então, era uma ilustríssima desconhecida nos anos que lá se vão.

Quando aqui apeei, em tempos quase dinossáuricos. Fumando não maconha e sim tentando equilibrar um cachimbo importado não me importo em saber de onde. Oriundo da belíssima Madrid. Falando um portunhol arrevesado. Ao montar, não num cavalo bravo, e sim começando minha lida de esculápio num consultório que não era esse. Os meus pacientes, alguns impacientes que não sabiam esperar. A minha secretária de antão fazia fichas anotando a lápis os nomezinhos e dados inerentes a eles para que eu não fizesse perguntas já respondidas dantes na ante sala da minha secretária não secreta.

Como os tempos mudam e nos obrigam a mudar também.

Agora os computadores não nos causam dores e poucos dissabores.

Aprendi, em parte, a me dar bem com eles.

Em boa hora melhor que se diga. Quando esse que estou escrevendo trava e eu não sei destravá-lo tenho vontade de jogá-lo pela janela desse meu sétimo andar.

Às vésperas dessa semana santa senti uma novidade malvada no meu tornozelo esquerdo.

Foi durante uma travessia pelas águas barrentas da represa do Funil. No meu barco tendo por companhia dois amigos- o Marcelo emburrado e o não menos piloteiro falador o Tom Zé, meu caseiro.

Já no começo da navegação senti no calcanhar uma picada de algum inseto. Graças a Deus não foi uma cobra peçonhenta e sim talvez uma mosca que não deixou nome nem endereço.

Desdenhei daquela coisinha miudinha.

Na volta a minha morada comecei a sentir calafrios e não estava frio. Um indizível mal estar pegou carona em minha pessoa.

Mais uma vez não dei minha bunda à palmatória. Isso só aconteceu quando me deram uma picada de injeção no meu traseiro branco. Numa farmácia aqui pertinho da qual não vou citar o nome para não fazer propaganda enganosa.

Voltemos um cadinho no tempo para não lhes causar contratempo.

Era domingo de tarde, quase noite.

O inchaço no meu tornozelo me fez apoquentado. Ele ficou roxo como tenho meu tento da mesma coloração.

O que fazer? Sou ainda médico, embora não da especialidade que trata dos inchumes das pernas ditas extremidades inferiores.

Já havia me consultado com uma senhora dermatologista que assina Capotorto e eu capo reto. Ótima médica por sinal.

No entanto dos entre tantos agora a moléstia era outra.

Medicar-me-ia? Ou iria procurar no balcão de alguma drogaria o fármaco certo para a minha enfermidade no começo.

Que boa idéia tive! Uma das infinitas que me assaltam sem arma empunhada.

Angiologia parece ser especialidade de anjos. Médicos são anjos sem asas.

Mas de verdade angiologistas são médicos afeitos a varizes, circulação defeituosa, tornozelos roxos como o meu.

Que sorte eu tive. Um desses profissionais de saúde era meu primo Rodarte- de nome muito conhecido e de excelente conceito: doutor Neto.

O segundo foi quem acertou o diagnóstico sem me ver olho na perna enferma.

Mandei fotos das lesões. Tanto do tornozelo esquerdo roxo e inchado como da planta dos meus pés descascados.

Ah! Foi um santo remédio e me senti remediado.

O tal especialista em tornozelo roxo e sola dos pés descamados foi pronto no meu atendimento.

E não foi mentira não! Embora hoje seja primeiro de abril.

Um dos doutores Furtados, que não têm nada a ver com roubo, delito punido pela lei. Pois são médicos doutores de excelente passado e presente. Ainda não se conhecem seus futuros.

Esse douto doutor especialista em cirurgia vascular e outros epítetos mais, não é que acertou no mosquito? Eu não sei qual mosca me picou a perna.  E nem sei se o doutor Leandro Furtado sabe o nome dela.

Meu  caro colega doutor Leandro, não vou deixar escrito Furtado pra não me furtar ao decoro.

Mesmo sem me ver em pouca carne e muito osso. Mas convenhamos: ele enxerga muito. E não creio precisar de estar comigo,  juntinho a mim. Para me receitar tão bem e espero estar curado até o próximo carnaval.

 

 

 

 

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