Minha maior desgraça

Por vezes me indago?

Indagações entranham em  minha cabeça pensante.

Qual seria a maior desgraca que um ser humano poderia ver desabar sobre sua cabeça?

Seria, depois de uma tempestade, morando num morro sem poder se mudar. A seguir de uma aguaceira escorrer morro baixo sem poder nada fazer para conter o ímpeto destrutivo das águas. Vendo seu barraquinho construído com as sobras da construção de um ricaço que não faz conta de tanto desperdício ser soterrado por um amontoado de terra lamacenta. E, debaixo daquele monte de barro com odor fétido ver a totalidade de seus entes queridos mortos. Sem ao menos ter podido se despedir deles todos?

Outra desgraça que me faz pensar ser uma das piores. É quando aquele pai, que amava tanto seu filho único.  Numa distração de seu ente amado. Quando ainda bem novinho, pedalando a sua bike depois dever retiradas suas rodinhas traseiras. Equilibrando – se tropegamente ladeira abaixo. De repente vem um auto em alta velocidade e acaba atropelando tanto ela quanto seu amado filhote.

Pra mim se torna uma das maiores tristezas desse mundo é ver um pai enterrando um filho. Nesse caso a ordem é invertida.  Já que o certo e o esperado é pra mim ver  um filho dando adeus ao seu pai amado.

Já pra meu amigo e companheiro Seu Amado.

Um senhor que inspira respeito a todos que o conhecem.  Por ser um pai exemplar e um marido bom, que se diria sem defeitos.

Aos seus muitos anos continua casado com dona fulana.

Dona Marieta e seu marido colecionam mais de quarenta anos juntos numa união que há tempos deveria ser desunida.

Ela, controladora e raivosa recebe seu Amado (de nome apenas já que o pobre senhor Amado nunca foi amado de verdade). Com uma pedrada certeira na cabeça quando o infeliz desamado volta pra casa depois da hora marcada por sua não dedicada esposa.

Dona Marieta sempre foi castradora e mandona.  Quando ela diz meu marido: “não se esqueça de passar pela padaria e de lá trazer uma dúzia de pães quentinhos e uns dez pãezinhos  de queijo mais quentes ainda”.

E ai dele se desobedece as suas ordens. Entra na chinela. Fica de castigo sem assistir ao seu jogo de futebol favorito. E tem de lavar a louça da cozinha e ainda de quebra não pode nem elogiar a beleza da bunda da vizinha.  Que, em contraste ao traseiro de dona Marieta. Uma coisa que despenca morro abaixo sem sequer levantar um cadiquinho. Derrière esse cheio de celulites e branco como lençol depois de ser lavado com Omo dependurado ao sol no varal.

Seu Amado e sua dona nunca se deram bem de verdade. Nem na lua de mel se ajeitaram entre as cobertas. Dona Marieta, além de roncar soltava puns fedidos e  recusava sexo dizendo ter dor no umbigo.

Seu Amado a tudo suportava por ser de boa índole.

Calminho calminho pitava seu paiero apagado pois não sabia  tragar nem cigarro.

Quase uma vida, se é que aquela relação podia ser chamada assim.

Buzinaram quarenta e mais anos entre tapas e ofensas de dona Marieta ao pobre desinfeliz Amado.

Ele não se aguentava mais.

Não via a hora de afivelar seus trastes. Tomar o busão das cinco e partir sem rumo definido.

E dona mandona da dona Marieta assistia a infelicidade do seu marido sem se condoer da sua desdita.

Foi ontem que me encontrei com Seu Amado numa volta do jardim.

Achei-o meio não, inteirinho desenxabido.

Para tentar desanuviar no céu as nuvens que não se mostravam lá em cima puxei prosa com ele.

“E aí meu amigo. Como tá tu? Parece que não tá nada bem.  Está com algum problema? Posso te ajudar? Se for dinheiro não posso não”.

Seu Amado, não amado, como seu pré nome diz.

Levantou a cabeça baixa e me respondeu laconicamente: “É meu amigo Paulo Rodarte. Deveras não estou bem. Estou no fundo do poço sem fundamento algum. Minha maior desgraça dorme ao meu lado. Não sei se você conhece minha inimiga maior a dona Marieta. Ela nunca foi companheira. Ao revés, inimiga figadal. Implica comigo sem motivo. Adora chamar minha intenção e é incapaz de enaltecer às amigas as minhas virtudes que tantas são. Você já tentou dormir com um machado do lado? Sei que você  já teve uma namorada amada que não era um machado e sim um achado. Minha mulher, a dona Marieta,  é desses machados afiados. Que não somente cortam lenha e derrubam  árvores com uma só machadada”.

Dormir ou tentar sonhar tendo ao lado um machado afiado na língua é pra mim uma das mai ores desgraças que uma pessoinha boa pode ter durante a sua vida inteirinha.

Eu vou continuar a procurar uma mulher que não seja machado. Uma que seja um verdadeiro achado sem M. Melhor que se deixe escrito.

 

 

 

 

 

 

 

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