Árvore de poucas letras e o poetinha encantado

O final de julho já começa a nos encantar, em nossa região, com a florada dos ipês.

Ontem os observei roxinhos da silva. Amanhã há de ser a vez dos amarelos, sendo os de cor branca os derradeiros, e mais duráveis. No meu entender obscuro.

A árvore do ipê não apenas trata-se de um símbolo de nossa cidade, dita dos ipês e das escolas, embora a escolaridade experimente um decréscimo no país onde vivemos e o costume saudável e erudito da leitura não tenha um hálito de alecrim com canela, como tenho observado com olhos atentos. Pena…

Escrever é maravilhoso.  Encarreirar letras, com elas formar palavras, dando-lhes sentido, tem feito parte motivadora de continuar vivo.

Para onde estou agora, no sétimo andar do prédio situado à Rua Misseno de Pádua, número 352, sala 701, dirijo-me quase madrugada fechada com a manhã. Antes, bem antes das sete aqui já estou, computador ligado, esperando ávido que ele dê sinais de vida, mostre atividade em seu monitor preguiçoso, de segunda a sextas, por vezes aos sábados e domingos.

De começo passarinho pelas notícias do dia. Hoje, segunda-feira, julho fechando os olhos, agosto ventando leve, viajo pela internet, por seus portais noticiosos, e, com o coração em sobressalto percebo que as más novas predominam sobre as de melhor alvitre. Tanto num, quanto noutro portal, raro se ler que fulano de tal ganhou o prêmio Jabuti por ter lançado mais um romance, um livro de crônicas que teve a tiragem esgotada, foram vendidos só no lançamento mais de mil exemplares. Meu Mugido de Vaca e Cheiro de Curral, pobre dele, resta ainda quase a metade dos quinhentos editados debaixo de um espaço da escada na casa onde moro.  A espera de compradores, leitores vorazes, que cultuam o hábito salutar de desligar a televisão e ler tantas e tantas letras que não se mostram obsoletas dentro dele. Fazer o quê? Minha paixão, além de correr, de exercitar o médico urologista morador dentro do meu eu, além de outras tantas, quantas, é escrever.

Tomara essa paixão não me deixe nunca. Como espero que minha mulher continue ao meu lado, para o que der e vier.

Ao chegar a onde estou passou-me pelas ideias a historinha do rapazola, de porte miúdo, que tinha para si a paixão, como a minha pelos livros, de poetar, e observar as árvores encherem-se de flores, multicores, experto e atento, de olhinhos que nada perdiam ao derredor, tanto enxergando coisiquinhas miúdas, bonsais, a exemplo uma reles formiguinha indo ao formigueiro com um enorme galho duas vezes o seu tamanho, um pedregulho enorme, uma colega falecida de pouco, no intuito de salvar-lhe a vida quase extinta.

A melhor época do ano, para ele, de nome Paulinho, era o finado julho, agosto abrindo os olhos, tempo de florada dos ipês.

E como ele, que filosofo como sendo eu, admirou, na tarde de ontem, domingo, na praça central da minha Lavras amada, três, seriam mais, árvores de ipês roxos derramando flores ainda vivas pela relva ressequida, atapetando-a com suas flores gentis. Era um espetáculo que a mãe natureza nos dava, graciosamente, encantadamente, espargindo vitalidade máscula, por se tratar de tempos de seca inclemente, que o digam aqueles que vivem na roça, tendo de encher os cochos pelas bocas de trato, ou capim e cana picados e silagem de milho saídos da safrinha de pouco espremida dentro de buracos enormes, para alimentar o gado na entressafra, até que a chuva de fim de ano nos brinde com o ar de sua graça.

Diz o mesmo homem do campo que a flor do ipê não se debruça em terra seca. No que tenho as minhas dúvidas. Embora o céu de hoje cedo se mostre cinzento não creio que vá chover.

Esse mesmo menino, que inda mora em mim, um doutor Paulo Rodarte de Abreu que não se avexa em ser chamado de Paulinho, lindo diminutivo, a ele não desejo ser chamado no aumentativo, Paulão, ao ver a árvore de ipê roxo se abrir em flores, não segurou a emoção, por não saber fazer versos, apesar de amar os poetas, e se afeiçoar demais pelas crônicas, como essa que fala dos ipês, na tarde de ontem, debaixo da velha árvore, de flores roxas, tentou novamente, ao ver as flores caídas por sobre a grama seca, inseri-las de novo de onde desabrocharam, deixando tristonhos as pontas dos galhos da árvore mãe.

Debaldes lhes foram as tentativas malogradas. Apesar de agradeceram a boa vontade as florzinhas que o doutor Paulinho reinseriu aos galhos mais finos de novo foram ao solo. Não sei se infelizes ou não.

A árvore de poucas letras (ipê) e o poetinha (que era cronista), encantado, continuam andando por aí e por aqui. O cronista escritor, romancista provado ser, de nome Paulinho doutor Rodarte de Abreu, montado em sua fé em dias melhores para o nosso país, iletrado e de pouca cultura, onde a maioria esmagadora não cultiva o costume de ler e comprar livros, por achá-los caros, embora uma noitada num bar custe muito mais de cinquenta reais, e no dia seguinte tudo vai adentro do vaso sanitário, no caso do livro ele fica em forma de conhecimento, cultura não ocupa espaço, apesar de muitos livros terem pouco conteúdo que preste, ao admirar a linda árvore de poucas letras não se conteve e fez um versinho minúsculo.

“O ipê derrama suas flores de brilho fugaz em fim de julho, agosto afora, deixando setembro extasiado por tamanha beleza floral. Que bom seria se todos nós, boquiabertos ou não, ao admirarmos as flores do ipê, perdêssemos nem que fosse um minuto em atenta e não estulta observação. Para não apenas observarmos o nascer das flores, como também o renascer de amores, um amor diferente. Não aquele que o homem sente pela fêmea, carnalmente. E sim o desejo genuíno de adquirirmos amor pelas letras, formadoras de palavras, com ou sem rimas. E, ainda melhor, se não pior, pelo menos uma vez em sempre comprarmos um livro, tomara dois”.

 

 

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