Aquele pé de camélia rosa

Foi durante uma visita a casa onde vim ao mundo, na linda Boa Esperança que os amáveis filhos de Dona Didi, ex-locadora dos meus pais, quando ele, naquela cidade próxima de onde cresci, e hoje vivo feliz junto à família que não escolhi para perpetuar-me a raça, se me fosse permitido seria outra do mesmo quilate, começava a sua longa e profícua carreira no Banco do Brasil, que, a procura das minhas lembranças deparei com aquela residência, situada à Rua Coqueiral 155, quase igual, com alguns retoques singelos, onde ensaiei meus primeiros passos, derramei lágrimas de manha pura, talvez com fome ou dor de barriga. Deixei a acolhedora Boa Esperança aos menos de cinco anos. Sem saber, por pura inocência, a razão de tal mudança, se já me sentia feliz ali. O motivo apenas fui informado bem mais tarde: aquela casa bancária, hoje assaz mudada, tem o costume de mudar de lugar seus funcionários, não sei ainda a razão, o porquê de tal procedimento mal explicado. Até hoje não entranhado em minha cabeça de quem não tem o prazer de entrar em outros bancos, talvez devido ao fato de ali não mais encontrar meu pai.

Foi naquela mesma casa, da mesma rua, central, que os filhos da dona do imóvel alugado a minha família resumida de então, apenas três, comigo presente, que fui informado que no jardim diminuto, até hoje ele existe, modificado, naqueles idos anos de 1950 e mais quatro, fora plantada um pé de camélia rosa, a qual, segundo informações dos mesmos foi replantada numa fazenda dos arrabaldes, e até nos dias da visita, lá se vão mais de quinze anos, a arvorezinha de folhas verdes, tronco fino de onde escorre um líquido leitoso quando um talho fere o sustentáculo do pé de camélia, não sei se branca ou rosa, ainda deixa florescer outras flores da velhusca árvore, creio não vou poder vê-la em plena atividade enriquecedora do mimo dos jardins, com suas flores lindas brancas e rosas carmins.

Saí da casa onde nasci não contendo as lágrimas da face do menino que saltou de dentro de mim, e não mais retorna, assim como os anos não voltam, apesar de desejá-lo muito.

Até hoje, quinze anos depois, não mais voltei à linda cidade emoldurada pela serra da Boa Esperança, feita imortal na canção de Lamartine Babo, que dizem tê-la escrito em saudade de uma namorada, a qual parecia linda pelas cartas entre eles trocadas. Quando, em verdade, o poeta cancioneiro era mais feio que um sapo amassado no asfalto quente, quando, desavidamente, foi atropelado por um carro em movimento. E não há como tentar matar a tal saudade quando ela é cultivada, sem querer, uma vez perdendo a mulher amada, tempos e tempos depois. Como da mesma forma torta de se tentar substituir um amor verdadeiro com uma paixão de carnaval.

Boa Esperança, o pé de camélia rosa, ainda existem, num lugar especial dentro do meu passado. Assim como eu, dono de intensa saudade, existirei até quando não mais existir, me fizerem partir, não quero saber quando, muito menos para onde, se sou muito feliz do modo que me apresento, e aprecio muito a pessoa que me tornei, sensível a dor alheia, inspirado entre instantes ups e outros downs.

Recentemente fui presenteado com duas mudas de camélias rosa por uma mulher especial.  As duas foram deixadas de supresa à porta da minha casa de Lavras, no mesmo condomínio onde pretendo ir às ultimas consequências do que minha vida ditar, quiçá ao fim dos meus dias. Que eles se alonguem por tempos perdidos na distância da infinitude do tempo, por mais tempo ainda.

Uma das mudas de camélia rosa foi inserida à terra perto do passeio fronteiriço ao meu jardim. Ombro a ombro com duas arvorezinhas: uma Murta de flores branquinhas e perfumadas, podada recente, quase de todo descabelada de seus galhos finos, sorte não estarem as flores branquinhas que se deitam ao chão logo logo aos serem nascidas presentes, para que ela, a árvore de Murta, cresça revigorada e com mais saúde que dantes estava. E, no meio delas, entre a Murta podada e o pé de camélia rosa, uma trepadeira de várias cores, protegida por espinhos perfurantes de peles finas chamada de Bougainvillea, também tosada rente.

A segunda muda de camélia rosa, nunca a vi sorrir flores, sejam rosas ou brancas, hoje mora no jardim de uma casa distante quarenta e sete quilômetros de aqui, num beira lago magnífico, especial.

Tanto a fincada no jardim fronteiriço a minha casa, quanto a segunda, beira lago de uma represa mais distante, poucas flores soltaram. Alguns parcos botões se permitem perceber entremeados às folhas verdes. Assim que estes botões ameaçam se abrir em flores elas se soltam de sua árvore hospedeira e nem tempo permitem de serem colhidas vivas a enfeitarem vasos no interior da minha casa.

Antes, bem antes do tempo de agora, um pé de camélia rosa existia no jardim da casa onde nasci. Pena que pouco ali vivi, por ter-me mudado para cá. Não me lembro, por ser ainda pequeno como um botão de camélia rosa, de que cor e quantas flores nasceram dos seus galhos finos.

Os dois pés de camélias rosa, os mais recentes, que ainda podem ser vistos aqui e acolá, poucas flores dos pés de camélia rosa eclodiram. Botões ainda são vistos, pena que a maior parte não gera flores cor de rosa. Ou de outra qualquer.

Pensando nos dois lugares que me marcaram o existir, Lavras e a acolhedora Boa Esperança, e nos pés de camélias rosa, em suas árvores pequenas, e em suas flores de vida fugaz, comparando-me as duas, já que eu, sênior feito, nunca vi flores nascendo de qualquer parte do meu corpo vergado em anos, passou-me, agorinha mesmo, quando eu morrer, e tiver de partir rumo ao desconhecido, que tal jogarem as minhas cinzas cinzentas nos pezinhos miúdos das duas arvorezinhas de camélia rosa, as duas que não produzem flores ainda?

Quem sabe, adubadas com minhas cinzas, elas floresçam como tentei frutificar meus escritos durante a vida toda? Quiçá?

Diz o ditado dito pelo povo: em sua vida procure ter filhos, plantar nem que seja uma árvore, e, finalmente, para ser eternamente feliz, escreva um livro.

Já cuidei de três pés de camélia rosa, tive dois filhos, e tenho tentado inserir cultura sob a forma de até hoje quinze livros. Missão cumprida? Sim ou não. Por certo respondo não. Vou lançar mais de dez livros, se a vida me permitir. Plantarei não sei quantas árvores mais, se possível mais pés de camélias rosa. Mais filhos não terei, netos, sim…

 

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