Hoje mesmo, cedo, quase no exato momento em que o bem educado sol entra em cena, mostrando-nos a todos sua face amarelo ouro, dando lugar ao descanso da lua, talvez a ela dizendo, na minha pia credulidade: “querida amiga, que comigo brilha no firmamento. Sumo de cena para não ofuscar-lhe o brilho”. Talvez a resposta, da mesma forma gentil dada pelo astro bem menor, e mais perto da gente, tenha sido esta “não se apoquente amigo quente! Conte as horas, perto de doze, e de novo estarei a enriquecer a face da terra com meu disco de pouco brilho, mas, deveras apaixonado por você, meu amor impossível”.
E eu, intrometido e curioso, ao ouvir o diálogo, pergunta e desafio, posso ter pra mim a razão de a lua ter dito que o amor do sol por ela seria incompreensível, em sua linguagem romântica. Quem não teve a luz feérica da lua a contemplar-lhe os primeiros beijos roubados, um abraço apertado, um sorriso fechado depois da intromissão inoportuna do pai da donzela pura, somente meses mais tardios o sexo se revelou pudico, à sombra da mesma lua que no alto brilhava com a intensidade declarada de milhões e milhões de vagalumes que sonhavam ser estrelas, e a ciumeira das estrelinhas miúdas impediu.
Hoje mesmo, vinte e sete de julho, o meio do ano já foi cortado pela metade, ano vai, novo dele vem, saudade s do que passou chora dentro de nós, vontade de voltar aos verdes anos de quando éramos crianças menores, hoje as mesmas sumiram-nas das lembranças pueris, ao descer a rua a onde estou agora, prestes a realizar mais uma pequena operação num bem pequeno menino, das tantas que já realizei em meu périplo pela vida, dei de cara, numa esquina, com um colega de anos passados, não imagino em que ponto da minha escada longa pelos descaminhos da medicina, se no primeiro grau, mais certo no segundo. Mal nos cumprimentamos. Ele seguia o seu caminho, eu, o meu.
Até chegarmos juntos a idade que contamos agora, perto dos setenta, três anos apenas nos separam.
E como tem morrido pessoas da minha idade, e da do meu colega de infância! Caso preferisse contá-las nos dedos todos das duas mãos eles juntas não dariam conta. Melhor juntar todas as mãos de mil pessoas, e creio, mesmo assim não seriam elas suficientemente exatas para ajuntar o número de todas eles, que não mais estão entre nós.
A minha hora há de chegar. Não sei, muito menos desejo saber, quando e como será. Melhor ficar na ignorância de quando eu deixarei de existir, se pudesse e tivesse a competência de vaticinar seria num trinta de fevereiro, mês nanico, e pródigo em festejos, haja vista a festa de Momo.
Ao ver o colega daqueles verdes anos andando lentamente pelos passeios da minha Lavras, a me ver no espelho a lavar o rosto mal dormido da noite de ontem, com rugas expressivas causando-me no âmago um enorme desalento, vendo montes e montes de fios de cabelos brancos tintos em meus sobrolhos, nas têmporas então, nem se diz, cala-se. E a calva mais e mais proeminente, raros fiozinhos eram penteados nas suas desordens desorganizadas no alto da cabeça grande da direita rumo a esquerda, a pele macilenta que me permite ver como velho e gasto estou, saltitante por todo lado por onde olho, ainda bem que ainda enxergo tanto bem, o nariz não exibe o formato da idade provecta, ele é igualzinho aquele que antes cheirava melhor do que hoje acontece, e como tem entupido meu nariz dada a secura do clima seco em pleno inverno. Sobre os olhos, mesmo enxergando além das entrelinhas, eles exibem idem sinais desalentadores de mais idade. As bochechas paralelas não são como as do meu netinho Theo, rosadinhas e macias como algodão doce, o qual tanto amei.
Mais abaixo, queixo empinado deixado no píncaro menos elevado da minha face idosa, minhas duas orelhas escutam como dantes, salvo o que a elas incomoda, e como tem incomodado ao assistir a televisão recheada de más noticias, a do lançamentos dos meus quase quinze livros sobre isso ela se cala, o pescoço murcho, como ele está precisando ser esticado!
O peito que me abriga o coração, que apanha mais do que bate, ainda o mantenho forte e sem excessos de células adiposas, graças a malhação contínua numa academia pra onde sempre me dirijo no debrum das tardes, quase noite adentro. O abdome, não tenho a pretensão de dizê-lo negativo, como o as lindas moçoilas da mesma academia. A pelve a mantenho como dantes. Nem protusa demais muito menos pro lado de dentro, demasiadamente.
Já as pernas, como elas ainda estão vigorosas e fortes e altivas. Dado ao fato de deixar o carro descansando à sombra da velha seringueira, por isso elas mantém as duas panturrilhas como ferro de bigorna.
Os pés são os grandes apoiadores, verdadeiros sofredores, nessa história toda de fazer propaganda de mim como atleta que não sou.
Hoje pela manhã, bem antes das sete horas, primeiro passei os olhos, dois deles, no espelho confidente dos anos que passarinham lépidos adiante de mim.
Através dele, e por ele, dei-me com uma indescritível real realidade: “ como lá se vão os anos, levando sustos ao olhar no espelho, levando a mais anos e desenganos tamanhos, que nem mesmo sei quantos serão”.