Fruto do “Condomínio Buraco Quente”.

Desde tempos aos que aqui me olham surpresos percebo as diferenças entre coisas e loisas.

Favelas são favelas. Comunidades são nomes elegantes dados às mesmas aglomerações urbanas, ajuntamentos verticais ou horizontais, cujas características inerentes são locais habitados por gente pobre, que, por não poderem comprar moradias dignas, habitação e saúde dizem ser direitos dos cidadãos, espremem-se, por vezes, em regiões densamente povoadas, insalubres até, quase todas onde falta segurança, impera a lei do mais forte, embora a maior parte seja composta por gente de bem.

Pena que o ambiente fabrica o sujeito. Se deixarmos um filho nosso, um neto, pobrezinho do meu querido Theo, que no dia vinte passado acumulou o primeiro dos seus muitos anos no seu currículo ainda modesto, fosse pelos pais e avós deixado à deriva, como moleque de rua, não sei se o menino, uma vez feito gente grande, enveredasse pelo caminho do bem. Talvez sim ou quiçá não.

Um dia, já bem distante, em visita a minha filhota linda, onde ela morava, no Rio de Janeiro, como nos saía dispendioso mantê-la no Leblon!, a uma quadra da praia de igual nome, passou-me pela cabeça de jornalista, Bárbara o é, seu pai gostaria de ter sido, fazer uma visita à famosa favela da Rocinha, na qual alguns eruditos, que nunca pisaram numa, preferem chamar comunidade, mais chique e menos pejorativo.

A bordo de uma vã, tomada no mesmo bairro elegante, saltei no alto da Gávea. Depois de algumas explicações tomadas ao motorista simpático que conduzia o transporte a preço módico.

Era lindamente maravilhosa a visão que se descortinava, do alto, da minha retina xereta, a paisagem do mar na praia de São Conrado, com seus espigões que olham para cima com ares de superioridade, mesmo estando em instância inferior.

Sem nenhum receio do que me esperava fui descendo pelas vielas estreitas de cima abaixo. Levado pelo espírito de escritor que já me assaltava naqueles idos anos de dantes.

Um ex-ronda do meu condomínio já me havia prevenido, ex-morador de ali, das belezas esculturais das suas mulatas, da gente boa, misturadas as não tanto, que ali moravam, uns por falta de opção, outros por realmente apreciaram seus barracos minúsculos, onde entra o primeiro deve sair mais de um.

Como aquela era a primeira vez que por ali passava, desconhecedor dos seus intrincados descaminhos, fui inquirindo a um, perguntando a outrem, por onde deveria passar para conhecer pelo menos undécimo daquilo tudo?

Na parte alta da comunidade, ou favela, como preferirem, já outros dizem “condomínio”, observei que, se não a grande maioria dos que ali moravam provinham do Nordeste.

Ou de perto de lá. Era gente boa, trabalhadora, desempenhando funções que os da zona praiana, principalmente a Sul, não se davam bem como domésticas, chapas, garçons, e até mesmo garotas de programa que cobram para vender o corpo, por minutos apenas, não davam de graça para os playboys filhinhos de papais, montados nos seus carrões importados, não importa a que preço foram comprados e mais tarde batidos de frente, provocando acidentes graves, evadindo-se do local sem prestar socorro às pobres vítimas, que acabaram deitadas mortas no asfalto quente.

Quem me ciceroneou pela visita não turística pelas ruazinhas estreitas da Rocinha foi um rapazola simpático, paraibano nato, carioca se considerava, de nome de mocinho de cinema, seu ídolo nas telonas, de nome James Bond.

Entrei barraco adentro do novo amigo Bond. No sofá dormia seu outro irmão. Não fui introduzido à sua graça. A mãe, na cozinha, afavelmente convidou-me para o café da manhã. Agradecido fomos, James e eu, descendo a ladeira, sem ver nenhuma dama com a lata dágua na cabeça.

E muito menos nenhures traficante barra pesada, desferindo balas perdidas em direção extraviada. A tal mulata da Rocinha deveria estar dormindo, pois não vi nenhuma que merecesse estar pelada na capa da revista Playboy.

Despedi-me do garoto James como se fossemos velhos conhecidos. Foi quando me lembrei da rica hospitalidade nordestina, do amigo urologista Ciraulo Barroso que infelizmente nos deixou.

Já no sábado derradeiro, uma vez na roça em Ijaci, antes prejuizenta, hoje lugar exclusivamente de lazer, sem o prejuízo de dantes, já que ela está entregue às mãos de quem entende de vaca e suas crias, ao entrar na varanda dos fundos da casa do pedreiro que tenta entregar meu pedaço de céu que nunca termina, deparei com um rapazola, muito semelhante aquele morador da Rocinha favela ou comunidade ou até mesmo condomínio. Seu nome: João Vitor.

De pronto encantei-me com ele. Não sei bem a razão julguei-o inatacável moral e pessoalmente.

Passamos pouco mais de uma hora um na companhia do outro. Se tanto.

Andamos no mesmo cavalo, um a seguir do outro. Trocamos prosa amistosa, embora em idades díspares. João Vitor, aos doze. Eu aos sessenta e sete.

Soube que o sonho do João era ser biólogo. E pela sua hospedeira, dona Bela, aparentada, que ele era um músico nato, tocador de viola e sanfoneiro ótimo. E que fazia dupla de dois com o avô, que vivia na minha cidade, num condomínio por ele chamado de Condomínio do Buraco Quente, pertinho de uma avenida que tem o nome de Perimetral.

Como a sua carona para aqui estava de partida combinamos que o levaria comigo a sua morada. Foi o que fiz.

Ao entrar no pequeno AP, duas ruas acima da tal avenida, depois de percorrermos um pequeno corredor, e tirar-lhe a vó da cama, ela descansava no momento, tive do amigo novo uma palhinha dos seus dotes artísticos. Escutei-o na sanfona e no violão surrado, duas canções a meus pedidos. João Vitor era em verdade quase perfeito nos dois instrumentos e na voz de cantor sertanejo. Entusiasta com o menino, ao saber que ele era portador de uma fimose fechadinha, e não poderia pagar o preço alto antes dado por um colega, combinamos um valor apetecível às posses da sua família, talvez para esta semana em curso.

Já a noite, numa reunião de família, ao mostrar as imagens feitas antes no meu celular, de nós dois, a uma professora amiga, com que surpresa fui introduzido ao pequeno currículo vitae do pequeno aluno.

João Vitor, com incontáveis passagens pela delegacia, ficha suja, antes havia fincado a caneta no pescoço claro da pobre professora, sem explicação convincente. Foi feito um boletim de ocorrência. Onde estava escrito o incidente. A marca dos furos da caneta, sorte não ter sido uma faca, ainda estavam evidentes na pele fina da amiga mestra, de uma escola pública local.

Coisas e loisas como estas entulham os processos criminais, desde aqui à favela comunidade da Rocinha ou de qualquer outra aglomeração urbana, soberbamente em países como o nosso.

Pena, muita pena mesmo.

João Vitor nada mais é do que mais um fruto do buraco quente, do seu pseudo-condomínio, mais um lugar dos excluídos da vida, dos marginalizados pela sociedade, que os exclui sem saber o motivo. Simplesmente por sim…

 

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