Chico Alpiste e o pé de passarinho

À primeira vista, desarmada de maldade, pura inocência ou ingenuidade, quem derrama o par de olhos no título do meu texto de hoje cedo, véspera de feriado em minha amada Lavras, vinte e cinco de julho, pode pensar: “que louco este doutor escritor, ao imaginar tal sandice, que um pé de passarinho pode vir de um cadinho de alpiste derramado no seu jardim”? De fato pode parecer uma deslavada mentirinha daquelas de fazer o nariz de Pinóquio espichar, e ficar do mesmo tamanho imenso da inspiração do tal doutor dos pintos que não piam e dos anexos do aparelho genital e urinário, que, ao reverso do que muitos podem pensar a Urologia não trata de doenças ano-retais, e sim da próstata e adjacências. Ali pertinho residem a bexiga, os dois ureteres, mais acima a saída do rim, e a própria fábrica de urina, com seus problemas imensos que podem vir um dia a nos afligir.

Mais um cadinho mais tarde, depois do relógio assinalar oito da manhã, vou livrar mais um amiguinho de ter seu piupiuzinho sem ver a luz do sol, desencapar a cabecinha do seu pênis, que nunca viu algo igual, mais lindo ainda, do que a sua Julieta, não tanto pudica como se pensava, num matinho ensombrado desvestir, num strip tease rasteiro, seu primeiro sutiã, para a seguir ir amontoando suas roupinhas curtas num galho curto de uma arvorezinha nanica, até se ver completamente nua, em pelo, peladinha, como quando nasceu nuazinha e chorona.

Esse garoto traquinas não é o Chico Alpiste, amante dos passarinhos enjaulados, desde que seja um canarinho feito para morar numa gaiola bem cuidada, com sua comidinha toda renovada a cada dia, água fresca, mesmo saída da torneira da pia do lado de fora da casa, numa coberta avarandada, fresca, o sol entrando de mansinho na volta do meio dia, a noite a tal morada feita de arame fino de novo é dependurada numa alça inserida no teto da mesma área feita para agasalhar uma churrasqueira modernosa, que, se foi usada por dez vezes, se tanto, hoje nem de decoração serve mais, de tão idosa que está.

Desde a idade em que o desde nasceu o menino artioso, o personagem central da minha crônica de agora, ainda por terminar, vivia nos matinhos perto da sua casinha tosca, num bairro de periferia, a caçar passarinhos com um estilingue que de repente virou peça de museu. Justamente quando, numa tarde infeliz, ao acertar o peito macio de uma rolinha deu de olhos nela caída ao chão, quase mortinha da silva, a gemer piando bem devagarinho, Chiquinho Alpiste se condoeu do seu estado semimorto, assoprou-lhe bico adentro numa tentativa malograda de restituir-lhe a vida, debaldes foram as tentativas. Ela acabou deixando as árvores onde pousava, o velho ninho abandonado, onde chocou os derradeiros filhotes, aquele voos rasantes sobre o esterco de curral a tentar ali achar algum desavisado inseto, entre eles seu prato predileto uma minhoquinha esperneante, e, principalmente, o amado rolinho, seu amor passarinho, que a ela sobreviveu.

Após a morte prematura da rolinha pura, Chico Alpiste dependurou o estilingue feito com um galinho fino em forquilha de jabuticabeira, onde disputava as jabuticabas madurinhas com os marimbondos de ferrão aguçado, dando-lhes a preferência nas frutas por apodrecerem, recentemente maduras, depois de uma chuvinha criadeira.

Anos mais tarde, assim que o novo Chiquinho se fez Chico, a seguir se transformou em Velho Chico, de sobrenome Rodarte, que saudade dele!, do tio doutor Francisco Rodarte, irmão de minha saudosa mãe Rute, que, como o garoto Chiquinho Alpiste adorava ver nas gaiolas o canto mavioso dos canarinhos, que viviam a cantar na janela da sua casa na rua Costa Pereira, que daqui se permite ver.

Dizem as boas línguas que o quase adulto moleque, ainda artioso e sapequinha, numa tarde de sol, assim que foi ter onde morava o canarinho belga, da espécie Roller, tinto em amarelo ouro e vermelho claro, de canto maravilhoso, como o dia que hoje acordou, meio frio, a seguir esquenta, não apenas o derredor como o meu âmago carente de afeto e amor, deparou-se com uma cena inusitada.

A gaiola com o canarinho chamado Russinho, ainda dependurada na mesma alça gancho fincada na laje da varanda da churrasqueira abandonada, carente de carne para ser assada e de carvão crepitante, ainda acolhia o tal passarinho cantor.

Logo à vista do alto, inserido no pequeno jardim formado por grama preta, cercado de verde musgo de uma planta bem própria de ficar tanto à sombra quanto ao sol, de quando em quando florzinhas brancas e perfumadas eclodem de dentro dela, Chico Alpiste observou, atento como o doutor escrevinhador de imaginação fecunda como a boa terra da roça pra onde ele sempre vai aos sábados de manhã madrugada, uma estranha coisiquinha verde despontar de entre os tufos de grama preta.

Foi incrível constatar, depois de ver de perto a tal mudinha, que não foi plantada por ninguém, se fazer arbusto maior, de ali despontarem galhinhos finos como canelas de passarinhos, de vários matizes de cantos e cores, sem conseguirem alçar voo, pois aquele pequeno e incipiente espécime vegetal verde, colorido em todas as cores do arco íris, era em verdade um lindo pé de passarinho, onde cantavam não apenas canarinhos belgas, bem como trinca ferros de todos os tipos, assanhaços pulavam de galho em galho, coleirinhas voavam sem se desgrudarem de onde nasceram, cotovias trinavam alegres, curiós despertavam a curiosidade de todos que por ali passavam.

Acreditem, se quiserem e suas imaginações não ficarem tacanhas como a conduta daquele velho homem que nunca sonhou, nunca viajou pelos ares, sem sair do lugar, naquele pequeno jardim nos fundos da minha casa, pertinho da churrasqueira que poucos churrascos deixou de boca salivando os apreciadores de uma boa carne, nasceu, e ainda pode ser visto de perto, por quem nunca viu, e não acreditou, que um pé de passarinhos pode nascer, não apenas da imaginação fértil de quem deixa a imaginação flanar. Saindo do lugar comum. Onde ela nunca quis ficar.

Chico Alpiste batizou aquele pé de passarinho com o nome do doutor escrevinhador que tinha por hábito cedo acordar, para escrever mais e mais, de Paulo Rodarte.

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