Dia vinte de julho não aconteceu ontem. Hoje a data foi trocada para vinte e três de julho, domingo fresco, ventoso. Ele (vinte de julho) foi um dia assaz importante para mim.
Além de ter sido a data comemorativa do aniversário da minha querida amada Lavras, antes do Funil, hoje bem mais modernosa. A ponte do Funil foi sepultada profundamente e hoje mora dentro da saudade de muitos que tiveram a satisfação de ver aquele turbilhão de águas revoltas formando um redemoinho ameaçando tragar o incauto que se aventurasse a nadar por ali, naquele dia passado duas efemérides de suma importância sucederam: meu querido neto Theo completou seu primeiro aninho vestido à moda de um comandante de Boeing, mais lindo, ou de beleza equivalente ao seu avô, aos mesmos um ano de idade, na querida e não olvidada Boa Esperança, pena que a velhice em verdade é uma fábrica de monstros, quem assim o diz é o espelho e as pessoas que me conheceram dantes, e me olham assustadas aos sessenta e sete, fora a minha querida esposa e meus filhos, não sei ainda o que Theo pensa de mim.
O terceiro fato, para mim alvissareiro, foi quando, naquele vinte de julho, quinta-feira, dei um último alento ao meu terceiro romance: “Por Quem os Sinos não Dobram”, agora sendo passado em revista pelo professor e amigo Luiz Fernando de Oliveira, além de doutor em filosofia trata-se de um grande e bem conceituado sujeito. Foi o mesmo quem revisou meu primeiro romance, já esgotado – Crônica de Um Sonho Interrompido.
Embora três dias perfaçam do dia vinte de julho ao dia de hoje, vinte e três, parece que foi ontem que o conheci.
Duas crônicas já saíram de aqui mesmo, deste meu computador sofredor, sobre o amigo de todos nós, ícone meu por gostar de correr, segundo li no portal do amigo Bissoli ele já correu a São Silvestre, em tempos distantes de quando ele veio a se despedir de nós.
Parece que foi ontem que passei por ele, naquele ponto de ônibus onde eu mesmo apeei, por ele passei, num momento de sobriedade, saindo de um bar, onde, atualmente, ele corria de bar em bar, tomando todas. Acontece que, meu amigo Zé Miguel, epitetado Baratinha, alegre como sempre, quando em estado normal era um tanto quanto casmurro, arredio, parecia até mesmo infeliz.
Em estado etílico ele destrancava o semblante, fazia questão de me beijar com aquele amistoso “doutor Paulo, amigo antigo” , esta mesma cordialidade a ele retribuía, evitando-lhe o ósculo com cheiro da “marvada” pinga ruim.
Parece que foi ontem que o vi, na mesma rua, no ponto de ônibus, na parte alta da cidade, alegre e festivo. Não posso afirmar com exatitude qual a idade certa do amigo Baratinha. Creio que, um ano apenas a mais que os meus sessenta e sete. Soube agora mesmo que ele contava com setenta.
Não estive presente, contaram-me o incidente, de quando o Zé Miguel de Oliveira evitou o suicídio de um individuo que ameaçava saltar de um ponto elevado na rodoviária local.
Quem me disse esse fato notório e notável marrou-o assim: “quando a pessoa estava prestes a pular da marquise alta, quase, apareceu, do nada, o querido falecido numa data próxima e exclamou, alto e bom tom:” não faça isso, colega. Quem precisa despedir-se da vida ruim que levo esse alguém seria eu, que nada tenho a perder. Vivo pelas sarjetas, finjo ser feliz, e cuido de afogar a minha tristeza nas cachaças da vida, de bar em bar, correndo de mim mesmo”. Talvez o diálogo não tenha sido exatamente este, mas foi feito escrito de coração em honra a um ídolo meu, corredor contumaz e viciado em endorfina, que em verdade sou. Só não sou em pinga, muito menos em cerveja quente.
Segundo consta no seu obituário Baratinha despediu-se da vida deixando um rastro amaro de saudade atrás de si, na Unidade de Pronto Atendimento, UPA, talvez à espera de vaga em algum hospital local.
A vaga não chegou a tempo de salvar-lhe a vida, como ele fez com o iminente suicida.
Parece que foi ontem que meu caro inspirador de hoje, domingo, dia ventoso, sibilante, que parece ventar exalando saudade do querido Zé Miguel, que ele andava, de bar em bar, pelas ruas da nossa amada Lavras.
Hoje ele não anda mais. Nem bebe mais. Triste, nostálgico, recheado de amarguras, data do passamento do amigo Barata, batizado de Zé Miguel. Parece que foi ontem, que o meu ícone, não às avessas, tanto por sua enorme vitalidade, por gostar de correr, de rir, que tinha por bordões estes: “Cê tá bão? Eu sou paraquedista”, voou em direção a algum bar no céu.
Pena que o ontem dele aconteceu no dia vinte e dois de julho. Pena mesmo…