Sinhozinho Se Deus Quiser

Pra ele, aquele homenzinho nascido num pequeno espaço de terra, nas lonjuras de onde a vista não alcançava, fim de caminho entre o meio e o nada, sem o livro sagrado nas mãos, aquele herdado de uma tia tida como santa, nada acontecia, na sua pequena propriedade.

A roça de milho não dava colheita que prestava. A vaca novilha não dava cio. A bezerrinha, tida como gêmea, nascia mortinha da silva, apesar de a mãe dela chamar-se outro nome. O nome da tal vaca era Morena Torta.

Católico praticante o tal Sinhozinho não perdia uma missa. Fizesse sol ao extremo, fosse a chuva caudalosa a causa do contra, lá ia ele com a melhor fatiota que tinha, só duazinhas lhe bastavam: uma branca amarelada e a outra azul desbotada.

Acontece que num destes domingos, quando nada dava certo, ao acordar bem cedinho, no tomar o banho de sábado na enorme bacia esmaltada, uma ratazana do tamanho de um porco graúdo entrou junto dele na água ensaboada. Com o susto na ponta do dedo do pé direito indo ao andar de cima, despencou da pouca altura da bacia feita banheira e acabou por quebrar a perna do mesmo lado onde trazia a canela machucada de véspera.

Sinhozinho amargou cama, onde não tinha costume de ficar senão por uma única noite apenas, de castigo, sem poder de ali sair, pois ainda se usava gesso a engessar o osso fraturado, coisa que hoje pode ser evitada por modernidades da nova ortopedia, por um tempo enorme, mais de trinta dias, um mês inteirinho, numa só posição, quase igual aquela na qual  Judas perdeu as botinas.

Quando teve alta do doutor, não dos ossos, e sim de um urologista escritor, experiente e experimentado em dedo enluvado, foi veloz com a velocidade de um raio desferido pelo gatilho de uma chuvadonha que nunca veio, prejudicando-lhe a safrinha de milho novo, plantada de fresco, de novo compareceu à velha missa rezada pelo padre novo.

Mais uma infeliz notícia abalou a vila pequena onde morava o Sinhozinho , apelidado de Se Deus Quiser. Por um singelo motivo: tudo para ele, supersticioso e temente a Deus Pai, nada aconteceria sem a sua ingerência de bom administrador das coisas mundanas. Daí do nome de Pai de Jesus Cristo.

Ao deixar a casa de Deus, a qual considerava a própria, embora de dimensões maiores e de telhado mais altaneiro, sem o seu quartinho minúsculo, sem o inseparável fogão a lenha, sem a sua bacia onde, uma vez apenas, entrou uma ratazana à hora errada, em verdade a mesma vivia ali mesmo, escorregou numa casca de banana nanica (não era tanto nanica assim a tal cascona), caiu de bunda pra cima, sob os olhares de uma benzedeira famosa nos arrabaldes por fazer despachos e mandingas, coisa ruim, por todos reconhecida, e de novo voltou à cama, para desta vez não sair mais da quarentena.

Dizem que tudo aconteceu por obra e desgraça da tal feiticeira peçonhenta, a tal comadre tida benzedeira mandinguenta, uma bruxa sem vassoura, uma dona fedorenta, que, se até hoje não morreu o fato não se deu por falta de vontade alheia.

Durante a visita do pároco local , o mesmo celebrante da missa domingueira, eis que uma taturana cachorrinha, venenosa como a língua da mulher rendeira, que em verdade não vivia de fazer renda, e sim de namorar qualquer um que pagasse o que ela merecia e pedia, embora não fosse prostituta de carteira assinada e sim uma rameira- dama, sapecou o pescoço fino do Sinhozinho, dando-lhe aspecto ainda mais asqueroso que ele era.

Quase ao fim da vida, aos mais de noventa anos, pareciam muito mais de cem, ou duzentos, com desconto, ainda crente em acreditar nas gentes, crédulo pra chuchu, eis que o tal Sinhozinho Se Deus Quiser, e ele quis assim, ao entregar a alma ao mesmo Deus, apareceu o mesmo padre confessor, o qual lhe deu extrema- unção depois de encomendar-lhe a alma pura e angelical a quem mais confiava- se Deus quiser. E ele quis assim.

Ao seu sepultamento pouca gente ajuntou-se.  Apenas dois gatos pingados, exalando álcool puro, uma junta de bois mansos, e nada mais que mais dois urubus voando baixo.

A sua frase lapidar, quem a escreveu fui eu, dizia assim: “E se Deus num quiser o que vai ser de mim”?

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