Não da pra acreditar

Foi o que postei, no meu Face, hoje cedinho, ao me plugar às notícias dos meus amigos, aliás, ontem foi dia de todos eles, assim que fui sabedor do falecimento de uma caríssima colega.

Alguns confundem as minhas crônicas com poemas. Quem sou eu, com minha prosa insossa, para fazer frente ao lirismo dos seus versos? Jamais, nunca, tive coragem de atrever a me dizer poeta. Não tenho capacidade para tanto. Creio que muitos escritores que versejam sejam hábeis em poetar. No meu caso sou uma negação negativa. Caso alguém pense, sequer imagine, que as aliterações fonéticas, não intencionais, que meus dez dedos digitam tenham algum parentesco, de longe, com rima, não é culpa de minha autoria. Se uma vez apenas tenha me imiscuído entre trovadores, poetas de cordel, gente que sabe escrever tais coisas lindas, como a senhora que ontem a noite nos deixou mais pobres sem os seus versos, nem me lembro mais se assim ousei.

Alguns instantes de sua linda mente criativa a seguir listei:

Temos tudo

Certamente, muito pouco precisamos

Por que ainda segues mesmo trilho
Da mesma estrada triste e silenciosa
Buscando aquela imagem que com brilho
Te esperaria na manhã radiosa?

Por que insistes seguir a mesma senda
Que traz o sentimento de tristura
Que não tem luz capaz que se acenda
P’ra iluminar teus dias de amargura?

E ainda faz, refaz e insistente
Procuras por alguém, que agora ausente
Está em outra estrada, em outra viagem?

Muda o caminho, há outra direção!
Empenha em outra busca, ó coração!
Escolhe outro caminho! Tem coragem!

A FALTA QUE ELE ME FAZ

Se sinto falta dele? Sinto sim!
Não do seu corpo, nem da sua presença
Eu acho que nem era amor sem fim!
Mas era estável, sem ser indiferença…

Era ternura, um acomodamento
Certeza da presença invisível
Uma tranquilidade de momento
Uma amizade calma e irresistível…

Sinto falta do que à sombra acontecia
Das alegrias… às vezes nostalgia…
Dias passando sempre em mesmo tom…

A vida ia veloz, despreocupada
Tão mansa, tão suave e afinada
Que eu nem sentia nada… e era tão bom!

E a falta que ela vai fazer? A mim, à cidade de Lavras, à família que ela deixou? Aos nossos amigos do Face? Às academias letradas pelas quais deixou sua indelével marca?

São tantas e tamanhas lembranças dela, que se fosse aqui deixar meu testemunho, não em bico de pena, e sim teclando ensandecidadamente o teclado do meu computador iluminado pela luz do sol que acordou, e creio que ele deve ter chorado lágrimas amareladas, como quase dos meus olhos atônitos escorreram, outro que, meu texto de hoje, caso fosse encompridado do tamanho da saudade que a querida Ângela Faria de Paula Lima aqui deixou, dez, vinte anos de trabalho, escrevendo mais linhas que minha inspiração possa ditar, não seriam capazes de a ela, Ângela, nem undécimo de sua pessoa reverenciaria, de verdade, sim.

Ontem a noite a literatura empobreceu. A poesia perdeu uma das suas escoras mais líricas. Os versos outros perderam a voz, de tanto roucos que ficaram. Dado ao passamento de nossa querida colega de academia, morta ontem de noite, vítima de um mal súbito, que susto ela nos deu.

Não vou declinar-lhe a biografia, tanto dos seus prêmios literários quanto do seu currículo ousado. Simplesmente, para simplificar meu texto, não se trata de um poema, como disse antes: “quem sou eu, com minha prosa insossa, para fazer frente ao lirismo dos seus versos”? Nada, nada nada, além das minhas modestas posses poéticas posso deixar escrito.

Hoje, madrugada feita, sorriso desfeito, assim que abri meu Face, e fui sabedor do falecimento da notável Ângela de Paula Lima, singelamente postei: “não da para acreditar”.

Uma vez disse o grande poeta português Fernando Pessoa: “que tragédia não acreditar na perfectibilidade humana! E que tragédia acreditar nela”!

E que tragédia infausta aconteceu ontem a noite…

 

 

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