“Pronde nóis vai memo”?

Agorinha mesmo, ao titular este meu escrito, logo o corretor ortográfico do Word sublinhou as quatro palavrinhas entre aspas e depois dela entrou uma interrogação.

Mas não são todas as pessoas, neste nosso imenso país gigante pela própria natureza, cheio de encantos e desencantos mil, uma palavra fica por minha conta na primeira estrofe do Hino Nacional, que apreciam ou se deixam corrigir nas suas incorreções gramaticais ou ortográficas, podem até responder, deseducadamente, a nossa intervenção professoral, quando não somos professores de português, que: “por favor, se falo errado é por minha conta. E me arrisco a ser assim, exatamente como você, em tom professoral, puro esnobismo, tem a mania de corrigir meus senões, não se preocupando com os próprios equívocos, cometidos contra a nossa amada e maltratada língua, última flor do Lácio, inculta e linda como uma cotovia azul”.

E por falar em Lácio, sempre gostei dessa frase, referindo-se à língua portuguesa, não a falada ou escrita em Portugal, que é bem distinta da que é dita ou grafada por aqui.

Soneto de Olavo Bilac, Flor do Lácio

Soneto “Língua Portuguesa” de Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

O grande poeta brasileiro considerava a língua portuguesa como a última língua derivada do Latim Vulgar falada no Lácio, uma região italiana, inculta pois era própria de camponeses e camadas populares, distinta do Latim Clássico, de domínio das classes superiores.

E como parte expressiva de nossa população trata mal o nosso lindo idioma. Talvez seja por essa causa que mais e menos ela é entendida, praticada, lida, nos quatro continentes, segundo minha estulta observação.

E como foi bom e saboroso, na minha derradeira ida a nossa mãezinha paternal, o querido Portugal, palavrotas quase iguais às nossas, ditas ligeirinho, com um sotaque inconfundível, como foi aprender que “paneleiro” é o mesmo que boyola, gajo é nome dado a desconhecido e é falta de boa educação tratar uma pessoa conhecida ou amiga por gajo, não sei se existe gaja, que “caminhoneta” também é o nome que aqui usamos para chamar o ônibus, e outras mais, que “castiço” é o português escorreito, sem máculas ou manchas que tanto me faz abominar ou repreender aquele incauto que incorre em imperfeições ao falar ou escrever o português, agora, modernosamente, jovens impúberes e imberbes usam outro acinte nas suas mensagens via internet, ferramenta que, se bem usada serve para quase tudo, até mesmo melhorar a nossa língua pátria, aviltando-a, vilipendiando-a, usando nos watsApps o internetês, engolindo, sem fome, letras imprescindíveis ao perfeito entendimento do que deveria ser escrito e compreendido, e não o é.

A redação nas escolas de nível médio, salvo exceções gloriosas, é não apenas sofrível como incompreensíveis. Imexíveis nas suas correções, conforme dizia, do alto da sua soberba ignorância, um ex-ministro de não sei qual desgoverno foi. Aliás, pregar a incultura não é costume de hoje, conforme alardeava um ex-presidente, o qual se gabava, com ares de sapo barbudo, nunca ter frequentado os bancos das universidades, cujo tempo passou, inda bem, tomara não volte nunca, jamais (grafia igual), como diria minha professora de francês.

Os alunos de hoje sabem, como a gente não sabia, enviar mensagens via celular usando as duas mãos, inserir pendrives com retumbante sucesso as nossas Cpus, formatar computadores galhardamente, são mestres em internetar (mais um neologismo rodarteano), e, a hora de redigir uma singela carta de amor às suas Julietas, os Romeuzinhos moderninhos escrevem tantas  asneiras que logo perdem a carteira para outro mais letrado, que, ao invés de soletrar a palavra miúda com s, usam dez ss, não conseguem diferenciar o que deve ser escrito com c, ignoram que o c pode ser com ç, e por aí ficam a ver outro rapaz afanar-lhe os carinhos, e algo mais da linda mocinha, de nome Julieta, a qual pensava ser pura, mas já lhe romperam o lacre da castidade, jogaram o selo falso longe do que os olhos não vêem e o coração não sofre.

Nada contra a linguagem usada com maestria, com eles, e por eles aprendo muito, os sertanejos caipiras, muito mesmo mais que nos bancos  da escola de medicina, a qual deixei no longínquo 1974. Três anos após tornei-me especialista em Urologia. O escritor veio bem depois.

Aos sábados, quando chego à minha rocinha prejuizenta, onde sei que, apesar de o leite ser branco a  dona dele veste negro, que vaca de três peitos não verte a mesma quantidade que a de quatro tetas perfeitas, que mamite pode fazer um estrago danado, se não tratada a contento, a prevenção é a melhor medida contra a tal infecção bacteriana, são tantas e tamanhas coisas e loisas ali aprendidas, que, caso fosse enumerá-las todas faltaria papel na minha pobre impressora. O linguajar local, bonito como o canto do bem-te-vi à procura da sua bem-te-via, não só me purifica o hálito assim como me lubrifica as juntas carcomidas pelos anos.

Ontem, por volta da volta do meio dia, ao descer a rua, de cima para baixo, que redundância inadequada à última flor do Lácio inculta e bela, deparei-me com uma cena inusitada, embora bem comum, em nosso cotidiano rico e pobre ao mesmo tempo.

Uma senhora, mais gasta em anos, conversava animadamente com uma possível aparentada, quase certo filha, com a sua filhotinha nos braços.

“ Óia. Pronde nóis vai memo”?

Eu, de fone de ouvido ligado, escutando pouco, ainda melhor, que bem, “prumei meus dois óio vesgo” sem bem “avista”, passei batido adiante, religuei no maior volume os dois “instrumento” de impedir a “iscutá”, se não de boa música, e escafedi-me de ali. Tomara pra nunca mais “iscutá” coisa “iguar”.

Ao final, retornando à última flor do Lácio inculta e bela, que saudade do velho Olavo Bilac, com suas pérolas lindas e cultas, foi que da minha boca surgiu tal pergunta, para a qual ainda não tenho a resposta exata.

Com quase dezesseis livros editados, mais de dez mil crônicas escritas, esta talvez seja a dez mi e uma, tentando me fazer entender em seis idiomas, incluindo aí o lindo, lírico, e mal amado Português, por que, e para quê?, tentar falar e escrever mais e melhor? Pra quê?, se por aqui, no meu, nosso, querido Brasil vender livros é como tentar enxergar poeira em alto mar, ou aves marinhas no deserto de dona Sara. Ou seria Saara?

“Óia, pronde nóis vai”? Já eu fico, tô cansado…

 

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