Caso me fossem permitidas outras opções

Hoje, descendo a rua na mesma velocidade que minhas pernas permitiam, estava frio demais a minha velhusca idade, meus quase sessenta e oito anos deveriam me conclamar a ser mais vagaroso e a ter prudência. Ao revés, eu, descompromissado com os cuidados que a vida do ancião deveria ter, quase corria, ao invés de simplesmente caminhar, mesmo fazendo os passos se agigantarem, numa corrida leve, em sintonia imperfeita com o passarinhar dos anos que o calendário que marca meu desaniversário enseja.

Ao passar perto do portão azul desbotado de uma escola sob a tutela do Estado de Minas Gerais, onde sempre vivi feliz, escola dentro da qual algumas vezes adentrei para tentar fazer de conta de que sou professor de português, dar uma aula maestral (ou seria magistral, me perdoe professora Luzia, a mestra da língua pátria formada em tal profissão deveras importante), sem ser o tal, deparei-me com alguns alunos adiantados da hora, esperando impacientes a abertura do tal portão, parei levemente para trocarmos uma opinião simplória.

“Amigos de mais juventude. Que tal trocarmos de lugar? Eu entro pelo portão, e vocês, apressados na hora, vão ao meu consultório para atender pacientes, prontos a exercerem uma profissão assaz importante como a minha, a de médico experimentado, ainda longe de inserir num quadro aparedado o velho bisturi”?

Foi quando um deles, o mais ativo, presumivelmente, respondeu sem piscar dolhos. “troco sim. Depende da volta que o senhor me põe no bolso. Quantos reais o senhor me dá de presente, para que o senhor volte no tempo, e eu , ainda antes de quinze anos, tenha poucos anos de vida pela frente”?

Deixei a juventude confabulando melhor sobre a minha proposta, creio que não indecente. Quem levaria manta? Eu, ou o rapaz ainda em verdes anos, como um dia fui, há bem menos de duzentos anos? E, pensando que ele iria concordar com a troca, quantos reais deveria deixar-lhe na mão? Ou ele na minha, caso o mesmo estivesse de acordo com a catira, em linguagem da roça?

Foi desse entrevero, ou melhor escrevendo, interregno, cordial, que nasceu a ideia de filosofar tendo esse título do começo do texto a me inspirar.

Caso tivesse outro destino, senão o de doutor especialista em Urologia, que outra coisa apreciaria ser? Por qual vereda me enveredar, caso pudesse escolher outro caminho para perseguir? Por qual profissão poderia optar, ou se tornar mais um vagabundo a marcar como o ferro em brasa deixa no traseiro da vaca as iniciais do fazendeiro, fazendo-a urrar de dor assim que a coisa quente lhe espeta o fundilho?

Dentre as opções da medicina que tal outra, meramente clínica, em que o amado idolatrado bisturi, hoje semi-aposentado pela modernidade que agora se mostra em todas as especialidades, os atos cirúrgicos independentes do crivo do bisturi lidera as frentes de combate, qual outra me faria feliz? Como me sinto no bloco cirúrgico, vocacionado operador que deveras me considero?

Ou, longe da medicina, ciência que se apossou de todo meu âmago desde há mais de quarenta anos atrás, graduado que sou em 1974? Seria feliz como engenheiro construtor, como químico enfiado naqueles cheiros ocres, ou ainda, dentre tantas e tamanhas quantas coisas que o homem pode ser, agrônomo, metendo as mãos na terra infértil, usando os seus conhecimentos em prol da produção, mãos atadas às do homem do campo, com todos os seus encantos: acordando cedo, alimentando as galinhas soltas, ordenhando a vacada mansa, enchendo-lhe depois os cochos de alimentos dali mesmo tirados, se desdobrando em mais de dez, embora seja apenas um e sua amada esposa, dois, dali tirando o pão de cada dia. Ou talvez fosse eu um padeiro madrugador, temos iguais costumes de acordar quase ao nascer do sol, ou junto ao descer da lua do seu poleiro instalado no céu, hoje ele se mostra cinzento, emburrado. Ou, pensando sobre outro prisma, quem sabe eu me sentisse a vontade pintando telas lindas, inserindo com meu pincel imaginário, fosse em quadros que versassem sobre flores, sobre paisagens mortas, em mulheres desnudas talvez fosse seduzido por algumas delas, e por elas caísse de amor, e adentrasse ao mesmo quadro e ali morasse desde agora à eternidade. Já que para tintar cores eu me sinto mais competente em pintar cenas líricas usando não as tintas multicores e sim o que deixa os meus pensamentos em digitar momentos, como agora sou possuído, como se o demo entrasse-me corpo adentro, e tão somente me deixasse em paz uma vez o livro pronto? Talvez, como escritor médico, trocando as palavras, mais médico escritor, fosse deveras mais feliz? O que pensam os meus leitores? Não vou deixar aqui qual seria o caminho, ou o descaminho, qual a opção me fizesse mais contente, quais outras veredas, ou trilhas pelo meio do mato, pela vida que hoje percorre as minhas entranhas, quantas variantes seriam, fariam de mim outro homem, pois dentro da pessoa instalada há mais de sessenta e sete anos no mais fecundo cerne dentro de algum dos tantos eus que me cavoucam o interior cabem tantas pessoas, que a conta que aprendi a fazer no curso primeiro da minha caminhada rumo ao conhecer, não me permitiriam nunca descobrir quantas são elas. Ou eles.

Agorinha mesmo, neste exato instante, são sete horas e cinquenta e sete minutos, uma exata hora faz que passei pelo portão daquela escola, e conversei poucos segundos com o rapazola que concordaria em trocar a sua idade jovem pela minha gasta pelos anos desde que eu voltasse alguma soma, não acertamos quanto seria, exatos quantos reais, ao indagar a vocês, que, por acaso leram a minha crônica matinal, quais seriam as opções para ser feliz, se nessas duas principais, médico e escritor, eu, pensando melhor, que tal juntar as duas numa só? Nem tento inserir a de médico a frente da de escritor. Uma ensina a outra, a ser feliz a dois.

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