Ai de mim se não fosse a saúde que ainda tenho, aos bem vividos sessenta e sete anos!
Ai de mim não fosse a família em primeira instância que me viu crescer. Meus pais, aparentados, irmão, irmã, aos quais agradeço a paciência que depositaram nos anos todos que passaram lentos torcendo por meu sucesso profissional, inclusive a facilidade que se apossou do meu eu, no manejo fértil da arte de escrever. Aos ainda vivos meu aperto de mão forte. Meu abraço fraterno, meus respeitos sinceros. Aos que não mais vivem ao meu lado, me olham do céu azul, seja de algum lugar que não conheço, a minha saudade imensa, meu penhorado agradecimento, além da minha intenção de que vocês todos, intimamente ligados ao meu passado, me presenteiem com suas bênçãos, elas são bem vindas como vocês foram, naqueles bons anos que, infelizmente, não voltam mais.
Ai de mim não fosse a saudade que sinto daquela rua por onde sempre passo, daqui posso velar o sono angelical de uma menina moça, não tão moça ainda, xodó dos meus pais, de nome Rosinha. Sei que, além de mim, seus pais, que também são os meus, oram por ela, para que a Rosa menina mulher, quase anciã, tenha vida longa, supere as adversidades que por ventura a ela se interponham, em seu caminho, já que a mesma tem pessoas boas a guiar-lhe os passos, a minha querida Rosinha.
Ai de mim não fosse a outra família, em segunda instância, composta por dois filhos maravilhosos; um homem feito, uma filha mãe de primeira viagem; uma mulher feita esposa há tantos e tantos anos, que nem sei contar nos dedos da mão como fui feliz ao descobri-la aqui na minha cidade, a minha Lavras querida, não onde tenho o umbigo enterrado, se é que o tal existe ainda, ou foi sepultado na cova rasa de uma roseira, na qual floresceu outra Rosa mulher, que felizmente hoje existe a orar por mim.
Ai do meu todo eu não fossem os amigos os quais passaram ou ainda passarão por minha vida. Não fossem as suas amizades fraternas, seus ombros amigos, não sei se chegaria a onde estou, nestes anos fecundos e tão produtivos do meu existir. Seja na esfera profissional, na força maiúscula das minhas pernas andarilhas, na minha fixação em escrever tanto, tanto, que se não me fosse permitido pensar tanto com os dedos ditados pelo meu cérebro tão vigoroso, não sei o que seria de mim. A vida que levo não teria sentido, seria um tronco oco e vazio, logo logo corroído pelos cupins.
Ai de mim se não fosse a presença do sol alternando-se com a chuva que ora se debruça sobre a terra desnuda, permitindo ao homem do campo arar, semear, plantar, colher e alimentar a todos nós, como os bichos que dependem da nossa presença para deles tirarmos o leite, os ovos, a carne, a lã que nos aquece no inverno, tudo tudo saídos dos animais, nossos parceiros reais, não imaginários como os personagens que tenho criado nos romances vários onde a ficção predomina, a imaginação pulula a exemplo dos peixes que resistem deixar a água de onde não querem sair, assim como dos nossos anzóis.
Ai de mim não fosse a luz que me alumia. Não fosse a névoa densa que me faz ficar introspectivo e sombrio. Pois da alternância entre a alegria e a tristeza é que nos faz poetar, ou escrever tantas e tantas coisas, que do meu computador sofredor nascem todas as manhãs, do dia após dia. E como o cotidiano inspira!
Ai de mim não fossem as mulheres lindas perto das quais fico horas fecundas malhando na academia. As feias também fazem falta, pois da comparação entre as duas espécies nasce a inspiração que demarca a linha divisória entre o feio e o bonito. Não quero deixar fora os do meu sexo, sem eles as nossas mulheres não seriam tão perfeitas, ou quase, já que os mesmos são profissionais de educação física que entendem como transformar um músculo atrófico em obra de Deus.
Hoje em dia tudo me cheira bem. Não diria tudo, quase.
Como dito sempre, ando, malho, uso as pernas ao invés de carros, desço, subo a rua, andando sempre. Dos autos pretendo prescindir cada vez mais, embora desconheça o que o amanhã me reserva. Não sei até quando vou conseguir caminhar sem me amuletar, tomara por muito tempo ainda.
Ontem, hoje cedo aconteceu o mesmo, ao descer para o consultório, bem cedo, dias manhãs frias, tenho visto homens, velhos, novos, andando mal conseguindo manterem-se de pé, amuletados ou cadeirantes, mesmo deficientes sentem-se em perfeitas condições, são úteis dentro das suas inutilidades, outros dormindo ao relento, cobertos apenas por papelões, debaixo de marquises improvisadas. Como eles conseguem dormir se eu, dentro do conforto da cama, no meu lar aquecido pelas paredes, ou na companhia da minha parceira querida, mal durmo, acordo pela madrugada, deixo a cama antes que ela mesma acorde, e saio à rua a hora em que o retireiro já deixou a sua casinha tosca, buscou as vacas na invernada, sob a neblina densa, ou a cerração imensa, e vai em direção ao curral ordenhar a vacada, para dos seus úberes cheios tirar o sustento da família de muitas bocas que ainda dormitam dentro de casa, aquecidos parcamente pelas achas ainda fumegantes do velho fogão a lenha, de onde saiu a janta da tarde noite de ontem.
Ao ver tantos ao desabrigo, dormindo mal, alimentando-se do resto das sobras, outros “ai de mim” saíram de dentro da minha mente hiperativa, maltratando-me a inteligência, ou a tal sensibilidade infinita que marca os meus mais puros sentimentos. Que ainda não se tornaram ressentimentos.
Outros “ais de mim” ainda me deixarão pensativo. E continuo a sofrer, não por mim, por eles todos: os desabrigados, os enfermos graves, os dependentes de máquinas para se manterem vivos, artificialmente, os de pouca inspiração, os dementes, os dependentes de fármacos para tentar mitigar, ou iludir, tanto a depressão quanto a ansiedade, e tantos outros que por aí trafegam na contramão da felicidade. Conquanto eu me sinto tão bem disposto, dentro da minha tacanha alegria de viver ou de pensar que sou, mesmo ficcionando a realidade, bisonhamente feliz.