Em criança, na aurora da sua pobre infância, aquele moleque nascido com mais de sete quilos, mãe obesa mórbida e pai desconhecido, pouco cresceu em altura. Mas em largura, somados os mais de vinte quilos de puro tecido adiposo, de ossatura larga e pesada, antes Chiquinho, por volta dos cinco anos era apelidado de bebê Chicão, mal cabia no berço enorme, presente de um aparentado, primo longe, que também era um bebezão, do lado direto da barriga gorda, ao lado oposto, mal cabiam na fita métrica da avó materna, todos chamados de Fat Family.
Na escola sofria bullying tanto dos coleguinhas quanto daquela a qual deveria ser sua amiga e conselheira, a professora de etiqueta, chamada por todos de Dona Dorinha. Foi ela mesma quem ensinou maus modos ao pobre afeminado Chiquinho.
Diz a boca suja de quem nada tem a fazer que dona Dora, balzaquiana doida para se casar, pelo jeito roliço das suas pernas tortas, pelos olhos descoloridos que pouco enxergavam, solteirona até a idade usada que contava agora, mentia diminuindo a mesma, em verdade, no seu último aniversário, numa festinha arranjada por ela própria, quase o bolo todo ocupado por mais de cinquenta velonas, uma fumaceira danada encheu o ar que se tornou irrespirável minutos depois. Dona Dora angariou fama de ser pedófila. A hora do recreio, ou no fim da aula, a matrona gorda levava alunos escolhidos a dedo, justamente os mais obesos, sofredores de bullying, a sua casa, bem perto do portão principal da escola estadual. E ali, no recôndito escondido da sua armadilha de pegar incautos despia os rapazinhos, fazia tudo que aprendera de errado, o certo ela guardava para a igreja, onde era tida com pessoa de fino trato.
Um dos mais usados na sua libertinagem foi justamente o pobre e desinfeliz Chico gordo. Foi por este singular motivo que a vida o descobriu afeito a amar outros iguais, desdenhando das garotas, evitando-lhes a companhia, procurando os rapazinhos em busca de afagos de carinho, para ele, em casa, o que jamais teve.
Ao mais de quinze anos, já pesando do dobro do que deveria, a balança a ela olhava com olhos de receio, já era boyola confesso, paneleiro na linguagem de Portugal, viado por aqui mesmo.
De poucos atrativos na área de formosura, como as moças de não refinado costume davam sopa por aquelas bandas, era praticamente impossível ao nosso amiguinho ir a cama fazer sexo com moços, ao invés de damas, se dispusessem a fazer sexo anal com o infeliz Chico Boyola Gorda.
Foi esse um dos motivos que ele resolveu, já que na escola era um fiasco, não teve como ter sucesso em ir mais longe que o curso secundário, e como cozinhar lhe era o pendor, aos vinte anos tornou-se cozinheiro, primeiro numa lanchonete de pouca frequência, para, a seguir, ser convidado a chefe de cozinha num restaurante de boa fama.
Ali, nos doze anos que lá passou, entre as trempes de um enorme fogão industrial, disputado pelos garçons, que com ele faziam sexo, uma tarde noite, quando, ao invés de fazer um bife a cavalo, por estar com a cabeçona entre as nuvens, encheu o prato de um cliente importante com outra iguaria a qual detestava. Por este exato motivo foi posto no olho da rua. E nunca mais conseguiu cozinhar, a não ser para o seu recente marido.
Aos trinta anos completos naquele mês de julho frio, o inverno já mostrava as suas intenções friorentas, como nada dava certo em sua vidinha insossa, ao caminhar redondamente por uma região frequentada por ciganos e gente que tem o costume de vaticinar coisas numa falsa bola de cristal de fundo falso, de ler as mãos nas suas linhas cruzadas, até mesmo, pasmem!, fazer mandingas para desequilibrar a felicidade dos desafetos, deitar maus olhados na sorte dos demais, garrafadas para não deixar o feto ir a termo, foi esse descaminho que o desocupado Chico tomou a si.
A fama de feiticeiro das causas ruins caiu com uma luva grossa às costas do Chico Mandinga Redonda.
Usando ervas colhidas num pasto sujo, toda a sorte de venenos pra ele ensinados por uma velha cigana, falsa como nota de duzentos euros, Chico pensou que, agindo por caminhos tortuosos, cobrando para fazer abortar as meninas não mais moças embarrigadas por jovenzinhos evadidos da escola, aviõezinhos usados na venda de drogas, mais tarde, uma vez maiores de idade a trilha de bandidos reais era-lhes o descaminho final. Chico Mandinga, na sua cabana de péssima fama, ao tentar fazer expelir a cria da barriguinha ainda em formação de uma pobre menininha, de apenas e tão somente doze aninhos, ela sentiu-se mal durante a ingestão do líquido preparado sem o devido cuidado, foi levava tardiamente ao hospital, e ali veio a falecer. De mal pior.
Ainda bem que a criança sobreviveu à morte da mãe. E foi criada muito bem por gente boa, embora de posses modestas.
Não precisa dizer que a sorte do Chico Mandinga mudou radicalmente a partir daquele infausto dia. Foi preso na sua casinha tosca, antes que conseguisse passar adiante outro veneno como aqueloutro.
Hoje, dezessete de julho, céu azul, meio frio, ao abrir a página de um portal aqui mostrado no meu computador, fui sabedor do triste destino do desinfeliz Chico Mandinga. Ele foi encontrado durinho da silva no seu catre escuro depois de provar o próprio veneno. Uma das suas garrafadas deu cabo dele. Ele nunca mais conseguiu por fim a outra vida alheia.