Ainda me lembro…

Lembranças fazem parte do meu todo desde o quando foi a mim apresentado.

Reminiscências não me permitem esquecer o que passou. Nostalgia me cavouca o âmago, da mesma forma que um punhal ensartado espeta bem no fundo de minhalma. Saudade rima com a minha idade. Sentimento em minha pessoa profundamente arraigado, assim como quando o espinho fere a mão macia do cirurgião que ainda mora dentro do meu eu. E não quero, muito menos desejo me desvencilhar dele. Amar, estar apaixonado, sentir em demasia, voltar àquela rua, agorinha mesmo passei por ela (Costa Pereira). Daqui de onde escrevo a vejo todos os dias, mesmo neste sábado, céu azul, pela manhã fazia frio, agora o calor se manifesta nos raios do sol. Embora, lá fora, um ventinho maroto ameaça fazer o frio voltar, apesar de o inverno ainda perdurar mais tempo, como espero minha vida ainda tarde em parar de respirar.

E como tem morrido gente conhecida nos últimos dias! Foram-se colegas de infância, amigos, gente da minha idade, menos do que os anos que contam passados dos meus vinte anos.

Uma amiga querida, serviçal de excelente humor, colega de trabalho no AME Zona Norte, de nome simplificado Tati, por muitos conhecida como Quebra-Barraco, sempre de vassoura e pano de chão nas mãos ágeis, na quinta-feira passada, quando tive a notícia, saída de sua boca que não se cala nunca, de dois acontecimentos tristes: a morte de um ex-colega de Gammon e a enfermidade grave de um excelente cirurgião, ela veio com mais esta: “quem nunca foi tá indo”. Apesar de infelizes as duas novidades não tive como não sorrir, dentes a vista.

Hoje, quinze de julho, metade do ano, mais ou menos um ou dois dias a mais, ao abrir um dos portais virtuais no meu computador escrevinhador, que me insere às novidades, boas ou menos boas, da minha querida Lavras, fui sabedor de mais um desaparecimento, do falecimento, da última visão do corpo que está ocorrendo neste exato minuto na capela um do velório São João Batista.

Bem me lembro dele, em vida.

Ele morou bem defronte ao meu consultório. No outro lado da rua. E, com que prazer fui por ele visitado várias vezes, como paciente impaciente. E como nós ríamos ao devassar-lhe as entranhas, a ver como estava o estado da sua uretra e a saúde da sua próstata. Bem crescida, por sinal.

Fui também, quando aqui cheguei da Espanha, nos idos de 1977, maio, quem diagnosticou a doença da próstata do seu pai, o também falecido Haical Haddad. Ele sempre me lembrou desse incidente médico diagnóstico.

Ainda me lembro de quando a ele vendi um dos meus primeiros livros. Não sei, mal se o segundo, o terceiro, ou qual deles. Como foi difícil tirar do seu bolso dotado de cadeado, fortemente trancado, a importância mixa de pouco mais de vinte reais. E, ainda por cima, as lembranças reincidem, bem lembradas, de quando ele aqui veio para devolver o livro, com aquele sorriso farto, alegando que já o tinha lido. Ainda insistiu para ter o dinheiro pago de volta com juros e correções da moeda. Outra lembrança do falecido no dia de hoje, foi, graças ao seu infindável bom humor, piadista de mancheia, quando ele me parou no passeio da Santa Casa, para que dele escutasse um chiste, muito engraçado, que conto a vocês, lembrando-me ainda dele. “Sabe, Paulo, com a idade que estou, trôpego de velho demais, não vou nunca a cemitérios. Imagine se alguém, que não gosta de mim, me vê perto da cova aberta e me empurra? Não quero ser enterrado ainda, estou velho mas ainda presto a alguma coisa”.

E como ele prestava serviços à igreja de aqui! Católico praticante, nato, creio eu, embora não o tenha visto nascer, entendedor das Sagradas Escrituras, da Bíblia era experto, como tento ser na Urologia.

Ainda me lembro da última vez que proseamos. Na subida para minha casa, quase à hora do almoço, deparei-me com a porta do seu apartamento aberta. Como um cão vadio adentrei o recinto. Um dos seus cuidadores me pediu identificação. Fui convidado a entrar, embora já o tivesse feito. Li uma das minhas dez mil crônicas para ele. O falecido na data de hoje ainda não havia se despedido da gente, ainda bem. Saudades antecipadas do velho e caro amigo.

Tomei coalhada síria, com não sei se foi um pãozinho qualquer, ou um naco de queijo fresco. Foi quando o velho Zé me levou ao escritório, para tentar me entronizar às sagradas escrituras. Zé do Haical era em verdade especialista no que escrevia com sábia fecundidade. Logo depois, por outra porta entrou o novo pároco da igreja fronteiriça. Ele foi conversar primeiro com dona Geni, esposa amantíssima. Despedi-me em poucos minutos, pois, ainda me lembro, Zé do Haical, pão duro que sempre foi, não me ofereceria almoço muito menos janta.

Bem me recordo daquela derradeira vez.

Na data que a folhinha aponta, quinze de julho, a cidade de Lavras perdeu um dos seus mais notáveis cidadãos. A igreja católica deveria decretar luto oficial, não fechar as portas da sua casa, como o Zé jamais o fez. Que o digam aqueles que o conheceram. Como eu, meu pai Paulo José de Abreu, meu tio Chico Rodarte. Ambos, com certeza devem, em pouco tempo, discutir a Bíblia Sagrada com a sua augusta pessoa. Num lugar lindo onde devem estar juntos a partir de agora.

Hoje Zé do Haical despediu-se de nós. Deixa órfãos não apenas os filhos, sua esposa dedicada, mas, principalmente a sua vizinha, do outro lado da rua, a Igreja Matriz de Santana, da nossa querida Lavras do Funil.

 

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