Olhar passarinhos cantando, seja nas gaiolas, aqueles que desde nascidos passaram toda a infância passarinha sem saber como bater asas em liberdade, não saberiam cantar caso fossem libertos das grades onde sempre ficaram cativos, ou voando livres e soltos pela azulice do céu, olhando de longe o brilhar amarelo da face do sol, amargurado de saudade da lua recém-sumida mais perto de onde vivemos, foi sempre o que fazia, atento, aquele pequeno broto de orquídea ainda em fraldas, brotada ali mesmo, numa matinha ensombrada, perdida numa serra distante, de tudo, lugar ermo, apenas conhecido por um garoto travesso, futuro escritor, de nome Paulinho.
Filha de mãe orquídea, pai orquidófilo entusiasta, pertencente à família Orquidácea, da ordem desordenada das Asparagales, do grupo desagrupado das Monocotiledôneas, aquela espécie diminuta, batizada pelos botânicos amantes das orquídeas de Carolina Sunrise, linda e mimosa menina frágil como asa de borboleta, a orquidinha vivia solitária parasitando uma pequena arvorezinha sem muitos atrativos, que vivia à sombra de grandes árvores, numa mata fechada, dependente dela como o filho recém-nato depende do carinho e dos cuidados da mãe ainda amamentando ao peito de rico leite.
A tal Carolina Sunrise não era feliz. Como as suas próximas amigas, de outros espécimes, maiores e de cores mais berrantes, ditas mais caras por quem tem autorização, por serem profissionais do ramo, não larápios de flores orquídeas, malditos aqueles depredadores da natureza que arrancam as mudas de onde a natureza as viu nascer, e as transferem sem autorização das mães de troncos generosos, substrato natural que permitiram que as meninas orquidáceas crescessem irradiando beleza de ali mesmo. E ali ficariam à eterna idade, até que a mão de Deus as deixasse morrer.
A pequena Carolina, por sua flor vontade, se a tivesse própria, logo se desprenderia do tronco da sua hospedeira mãe arbórea e aprenderia a voar, como um pássaro, iria além do mato denso de onde jamais a permitiram sair e ganharia o mundo com suas flores feito asas, como uma borboleta azul, de vida longa, indo de flor em flor, e passaria longos anos sem desenganos, matrimoniar-se-ia com outro pássaro flor orquídea, se pudesse ser igual a ela, melhor, caso contrário, tanto menos pior.
Mas, passado tempos e tempos, temporadas inteiras, verão vendo outros verões se metamorfosearem em dias primaveris e outonos invernos não tão outonais, a oquideazinha não se via satisfeita como pertencente à espécie das orquídeas nanicas, uma reles Carolina Sunrise, e queira ir mais distante. Quem sabe se o lindo canarinho, que um dia cantou noutra árvore perto, quis-lhe o destino que o menino levado, de nome Paulinho, futuro escritor, ficcionista romancista tornado, sendo doutor especialista em próstata e seus vizinhos de infortúnio, apreendesse o canarinho belga, de penacho vermelho, e o levasse a sua casa, dando-lhe o conforto e alimentação rica, que não lhe fora permitido na vida errática de del em del, a voar pelos ares, sem muita convicção se era ou não feliz.
Assim que a pequena minúscula orquídea, a infeliz Carolina Sunrise, viu o canarinho belga dar o seu show ao meio dia, dia de sol, nascido dia de pouca luz, a luz se fez luz a hora do almoço, num canto mavioso e feliz, de súbito veio à cabecinha em forma de flores azul e amarela da pequena monocotiledônea um lampejo de alegria.
Uma ideia luminosa lhe fora posta a seu bel prazer.
Por que não tornar concreto o sonho, de se desgarrar da arvorezinha sem atrativos onde sempre ficou, presa por um cordão umbilical frouxo, aprender a cantar, como o canarinho levado pelo doutor Paulinho urologista experimentado e provado pelos anos todos na cidade de Lavras vivido, à varanda dos fundos da sua casa, num local paradisíaco, de muito verde e pássaros soltos cantando nas arvorezinhas de florzinhas brancas e perfumadas, de nome Murtas, e se transformar de uma reles orquídea nanica a um canarinho belga de canto e trinado lindo, qual um Pavarotti tenor lírico emplumado, não obeso e de barbas negras como era o grande italiano já falecido?
Assim aconteceu.
Foi no dia de ontem que a vi, ou o vi. Era um canarinho belga distinto dos seus pares. Ele cantava com seu trinado paparotesco. Quase uma ópera lírica. Em italiano. Era um canarinho com uma plumagem de cores as mesmas da orquídea diminuta, iguais as da espécie Carolina Sunrise. Ele voava sempre perto do tronco de uma pequena árvore. Igualzinha aquela do matinho ensombrado, na mesma serra longe de tudo e de todos. De repente, se meus olhos não se equivocaram, o passarozinho canoro achegou-se ao tronco da arvorezinha, e ali ficou grudado pelos dois pezinhos de unhazinhas finas. E ele não mais cantou.
Foi quando, neste exato momento, quando ia me despedir do mato, para voltar à lida na cidade, como médico ainda praticante, escritor imaginoso e de mente fértil, assisti a uma cena que me fez ficar feliz e ao mesmo tempo pensativo.
O canarinho, que em verdade era uma orquideazinha minúscula, novamente retornou ao seu habitat. Foi a primeira e derradeira vez que algo assim aconteceu. Podem crer.
Uma orquídea virar canarinho belga, aprender a cantar pavaroteando o grande tenor, e, quando menos esperava, de novo tudo voltar ao seu lugar. Como era antes de antes. O canarinho acabara de se fixar no velho tronco da arvorezinha da qual nunca deveria ter se libertado. E foi feliz assim. Cantando e enfeitando como é a vocação de uma flor.