Chico Ministério Público e o dia quando lacraram-lhe a boca

Desde cedo, aquele menino com pendor manifestado precocemente pelas letras, se dava mal entre os números, assim que viu terminar o segundo degrau de uma escada longa e empinada, prestes a entrar na faculdade, se viu numa encruzilhada de duas bifurcações principais.

Acontece que a família humilde, de poucos recursos chamado dinheiro, pai trabalhava numa fábrica falida, a mãe, dona de casa que se desdobrava em quatro delas, embora fosse apenas uma, necessitava de mais uma mão para ajudar nas despesas, já que a despensa da casinha modesta, sempre vazia, um dia chamou o pequeno Chico para ajudar ao pai a vender cachorros quentes, num pequeno trailer alugado ao dono daquilo, que fora de pouco interditado pela fiscalização rigorosa de alimentos, nomeada de vigilância “insanitaria” (perdoem-me os titulares daquela repartição deveras importante, que não apenas fiscaliza a saúde dos consumidores, como também tem o direito e o dever de lacrar negócios os quais não apresentam a devida higiene, no trato com as pessoas- ela se chama, em verdade – vigilância sanitária).

Pouco durou a nova atividade do menino Chiquinho. Um dia, tarde vestindo noite, num dia quente, na praça principal da cidade, chamada Lavras, em Minas Gerais, quando o movimento prometia melhorar, estudantes de uma escola situada logo defronte a pequena fabriqueta de cachorros quentes acorriam famintos em busca dos tais pãezinhos recheados com uma salsicha e molhos de vários sabores e cores, apareceu, de repente, a temida fiscalização impertinente, deu voz de prisão aos dois vendedores, por não apresentarem alvarás em dia, o pai do menino Chico, por não ter ainda renda para pagar a taxa à prefeitura municipal, não o fez oportunamente. E mais um negócio desfeito no currículo resumido do pobre menino pobre, que ainda teria várias decepções adiante.

Devido a competência do jovenzinho Chico, pelo seu pendor pelas letras, era nota dez em português, redigia com rara proficiência, aos menos de dezessete anos adentrou à faculdade de direito. E se gradou direito na tal carreira importante, na definição das leis, na soltura ou prisão dos bons e maus elementos, e por aí vão, as várias aptidões de um bom advogado. Que tanto pode militar na área privada, como virar delegado, promotor, juiz togado, e, mais tarde, caso seja em verdade competente e destemido, por que não um Sergio Moro? Ou um juiz agora aposentado, que ficava em pé no lugar a ele destinado, por sofrer sérios problemas na coluna vertebral, o qual sumiu da mídia depois de ver ventilado seu nome à presidência da republiqueta, chamada Brasil. O magistrado negro, nascido em Paracatu, no meu estado, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal teria sido um bom presidente? Não vai ser possível dizer, pois sua candidatura não mais vai decolar. Quiçá?

Voltando um cadinho atrás, não vamos deixar o Chiquinho graduado com distinção por uma escola de bom conceito, uma vez feito advogado, queria ir mais longe. Pois, até a presente data, o local mais distante que havia ido foi à Aparecida do Norte, mesmo assim em romaria, num velho ônibus que sofreu assalto, depois de ter um pneu furado, quando levaram até a calcinha rendada de uma beata que desmaiou de terror dos assaltantes, que, uma vez vendo o strip tease da madame ainda virginal levaram-na a um matagal, e acabaram de vez com seu selo lacre onde ninguém ainda tinha ousado invadir a tal gruta do amor sexual.

Chico, ainda não nomeado Ministério Público, advogado de porta de cadeia, a esfera criminal era a mais apreciada, depois de anos e anos militando sem receber a conta dos presos soltos em primeira instância, depois reincidentes no crime eram novamente trancafiados, prestou concurso para a promotoria pública. Não precisa dizer que ali entrou em primeiro lugar. Teve de mudar de comarca, para um estado distante, mais abaixo de São Paulo, o mesmo onde se dedica de corpo e toga negra, o famoso juiz federal que conseguiu, quase ainda, enjaular um ex-presidente, o qual jura nada saber, embora não seja cego dos olhos, e sim da alma de um Pinóquio cujo nariz não para de crescer, bem como a lista enorme das falcatruas a ele imputadas, mais e mais processos serão abertos na sua longa ficha suja, do tamanho que vai de aqui ao Chuí, esticando-se ao Acre e adjacências.

Uma vez feito promotor, com que ira ia aos ditos cujos declarados facínoras, não tendo descanso enquanto não os via amargar xilindró, por tempo indeterminado.

Doutor Chico Ministério Publico angariou fama em todos os arrabaldes. Mandava fechar, abrir, lacrar, não apenas as instituições que agiam na ilegalidade, como idem aquelas que deixavam de cumprir as normas ditadas pelas leis da municipalidade. Por uma simples ausência de um item pequenino, por exemplo, a falta de um extintor de incêndio, por um sujinho na entrada de uma escola estadual, por uma professora não trajada a contento, tendo os joelhos a mostra, a despertar a sexualidade prematura dos alunos, que já conheciam tudo sobre sexo, o promotor, tido como severo demais, mandava lacrar a escola, quando, na mesma cidade, o posto de saúde vivia insalubre, com lixeiras inadequadas, lixo esparramado na sala de curativos, luvas rotas que eram as únicas para fazer o exame de próstata, pobre do urologista que carecia delas. Na mesma comarca a escolinha estadual, todas elas amanheceram de portões cerrados, observando-se, fincados à porta, um aviso de lacre, de impedimento a continuação das aulas, cujos únicos prejudicados eram os próprios alunos, que não podiam pagar uma escola particular. E se viram privados de continuar seus périplos educacionais, talvez seja isso mesmo que deseja o desgoverno federal, menos educação, mais gente iletrada, menos passeatas, menos protestos, e por aí rumina o status quo de tudo que a gente conhece, muitos se calam, e consentem.

Como tudo que é azul um dia se torna preto, meses depois que o novato promotor foi empossado no cargo, uma pertinaz enfermidade tomou conta de seu corpo ainda de raro vigor. Um câncer de estômago logo o consumiu, por inteiro. Em um mês, se menos, se podia ver-lhe as costelas, antes cobertas por músculos bem definidos. Em dois a barriga foi afundando, afunilando, que se podiam ver os intestinos, quase a luz da verdade. Em três Chico Ministério Público não mais respirava. Morrera, de fato e de direito. Ele, que tanto usava o Direito, um verdadeiro titã em defesa das causas e coisas as quais considerava certas. Embora entre o certo e o duvidoso exista uma linha tênue, da finura de um buraco de agulha.

Ao seu funeral estive presente. Por acaso por ali passei, pois por ali andava, a passos trôpegos.

Dentro do caixão, um caixote negro como a toga que ele usava, vi, juro ser mais uma invencionice das minhas, quando lacraram-lhe a boca com uma fita crepe, não sei se azul ou branca com as asas dos anjos.

De tanto lacrar departamentos das suas comunidades, acabaram por lacrar-lhe a própria bocarra falastrã, do desinfeliz Chico Ministério Público, cujos funcionários sempre os tive em ótimo conceito, não apenas como cidadão, assim como médico funcionário público estadual e municipal.

 

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