Hoje tive um breve encontro com um anjo

O céu já mostrou sua azulice inebriante no dia de hoje, doze de julho. O sol lhe faz companhia. A lua já se acomodou em seu leito cheio de estrelas, num sono profundo, num descanso merecido, depois de inspirar enamorados em seus idílios que podem não ir longe.

O dia de hoje, com a temperatura agradável, fazia doze graus ao descer a rua, imprecisamente antes das sete da manhã, promete ser de muito sol. E esquentar depois da volta da volta do meio dia.

Essa oscilação térmica não é favorável a saúde do nosso aparelho respiratório. Assim afirmam os dois pulmões, seus alvéolos, seus brônquios e bronquíolos, e as vias condutoras do ar que descem até eles. Minhas narinas, sempre secas, precisam de umidade, o que torna o ambiente nasal susceptível às rinites e doenças afins.

O fato retrato pintado da manhã de hoje foi tinto com as melhores tintas de que dispõem o cronista que mora dentro de mim. Caso algum de vocês, leitores e escritores desejarem inserir novos matizes de cores dentro do meu texto, por favor, assoprem, ou postem alguma coisa que o possa enriquecer, no face que logo logo vai ser postado, na minha página do Paulo Abreu.

No meio do caminho da minha curta vinda ao meu local de trabalho deparei-me com uma figura assaz conhecida.

Ela, uma senhora já andada em anos, extremamente gentil e educada, com sua aparência de anjo feito pessoa, boa, passou por mim e me cumprimentou afavelmente, depois de uma noite, não sei se bem ou mal dormida, na casa onde mora outro anjo, uma menina mulher, sobre a qual já deitei no papel nem a metade da sua bondade, da sua inocência, de nome Rosinha. Ela tem três irmãos. Dois irmãos primos, e outro, irmão de mesmos genes, mas todos nós três a amamos da mesma forma, quase igual.

Ela foi o que restou da saudade dos meus pais. Desde nascida ela vive naquela casa da Rua Costa Pereira, número 152. Onde sempre passo, ontem não foi possível, assim que a tarde ameaça virar noite, por volta das dezesseis horas, mais ou menos.

Quem cuida dela, e de outras pessoas debilitadas por alguma doença de qualquer tipo, pessoas idosas, cadeirantes ou deficientes, com carinho e desvelo, cada vez mais mais gente delas não pode ficar sem, pela casa onde mora a Rosinha já passaram dúzias delas, são chamadas de cuidadoras. E eu prefiro chamá-las de anjos sem asas, gente com enorme disponibilidade de se desdobrar entre a sua família, como donas de casas, arrimos esteios que, para aumentar a renda pouca, ou simplesmente por amarem o próximo, passam metade do dia, indo noite adentro, cuidando de pacientes, tornando-se amigos inseparáveis dos tais necessitados.

Ainda me lembro dos últimos dias, ou meses, passados por meu pai hoje ausente daquela casa, da Rua Costa Pereira, mas ainda perto de mim, não apenas na fotografia inserida logo atrás do monitor do computador onde escrevo crônicas, como também presente a ditar os meus escritos, pois ótimo escrevinhador ele era.

Minha mãe era sua cuidadora. Meu irmão não vivia aqui. A Rosinha, com sua deficiência, por vezes impaciente, não podia nada fazer por ele. E eu, ao mesmo tempo perto, e distante, por meus afazeres de médico, embora passasse por aquela casa que daqui se avista, pelos fundos, pouco pude cuidar do meu pai enfermo, bem antes que ele foi entregue a cama, vindo a nos deixar em um ano após cruel enfermidade, antes conhecida por esclerose, caduquice, outros nomes mais. Já agora, século mais adiantado em anos, um nome de procedência alemão, Alzheimer, é o mais apropriado.

Meu pai não teve a sorte de ter tido o cuidado dos cuidadores anjos. Já a sua filha, minha irmã Rosinha, à ausência dos seus pais tios, melhor chamados de pais, teve a felicidade de tê-los ao seu lado, quatro deles, ou delas, nas quarenta e oito horas de que se compõem os dias e as noites.

Hoje, bem cedo, sol já aquecendo a terra onde vivemos, alguns felizes, outros não tanto, no meio do caminho de minha casa a onde escrevo, deparei-me com dona Clarice, mãe da Rosa, depois de uma noite passada com minha irmã Rosinha.

Paramos, um ao lado do outro, instantes lépidos. Soube notícias de como passou a noite a minha querida irmã Rosa de Lourdes Rodarte de Abreu. Pela cuidadora dona Clarice soube que o outro anjo, dormiu razoavelmente bem.

Despedimo-nos num átimo.

O que seria de tantos de nós não fossem os cuidadores anjos? Ao ver a dona Clarice subir a rua, depois de passar a noite com a Rosinha, tive a resposta a minha indagação. Pobre de nós, uma vez necessitados de pessoas como eles, os cuidadores, de ambos os sexos, zelosos e prestativos, pessoas boas que dedicam parte das suas horas a cuidarem de tanta gente que, uma vez em saúde perfeita, ajudou a confortar outros enfermos, que já não mais estão aqui, a zelar por nós.

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