Aquele homem e suas lembranças

Voltar de onde viemos, ir de encontro ao passado, retornar no tempo, falar em reminiscências, ter saudades imensas, tudo isso, junto, faz parte uníssona de todo meu eu.

Daqui da janela do sétimo andar onde escrevo, passo quase o dia inteiro, ou ainda fazendo de conta que sou médico, não é ficção, sou mesmo urologista, por inteiro, embora exerça a medicina da cabeça aos pés num posto de saúde há tantos e tantos anos que nem sei quantos são, ao olhar no sentido a esquerda, lá embaixo, avisto a casa onde fui feliz, ao lado dos meus pais e meu irmão genético. Onde hoje vive minha outra irmã, a Rosinha, menina aos seus mais de cinquenta anos, parece ter menos que sua idade indica, embora a jovenzinha que inda mora dentro dela seja senhora feita, cabecinha de criança, pois ela cresceu no tamanho, mas não deixou a infância, nem mesmo a inocência, deixar-lhe as entranhas.

Todos os arrabaldes que ladeiam a Rua Costa Pereira pertencem ao meu pretérito passado.

Por baixo da casa dos meus pais e aparentados, os Rodartes, existia um cafezal. Ali brincava de pique- esconde. Numa caverna inventada pela minha criativa e fecunda imaginação, fingia que existia um navio pirata, sem a tal perna de pau. Que era eu, ao jogar futebol de salão, junto ao meu pai, e outros senhores de mais idade, que aqui não mais estão. Ainda me lembro da mina de água purinha, do qual líquido fazia que fosse bento, e com ele ungia a testa dos meus amigos crianças, quando uma delas dava de cabeça numa superfície dura, e dali nascia um galo que não cantava, mas inchado doía, com a mesma dor de mentira que sentia ao ser posto de castigo por minha amada mãe, e de lá logo saía exatamente por clamar uma dor de barriga de mentirinha, invento inventado para me livrar da punição para mim injusta, e deixava a cadeira dura em parcos minutos, quando dali deveria me livrar em hora e meia inteira, maldito relógio de cabeceira, um cuco velhusco que não apontava a cabecinha oca, e logo retraía à sua morada de madeira envelhecida pelos anos atrás.

Por todas estas relembranças tantas, que são, não me livro de cortejar o passado, embora muitos digam que ele deva ser sepultado, pois devemos viver de agora em diante, pois o que importa é o presente, o futuro a nós pertence, e de nada adianta a nostalgia, rimada com agonia, que muitos desdenham, e eu não.

Inda hoje, ao descer a rua, depois do almoço, perto de uma galeria que serve de morada a uma loja lotérica, deparei-me com um senhor, reconhecido de tempos antigos, atleta renomeado, hoje afastado das lidas esportivas, pois ele se considera ultrapassado pelos jovens de performance melhores que as dele foram.

Apressei-me os passos. Fui até ele. Como estava de fone de ouvido ligado cuidei de calar-lhe a boca fina.

Em nossa conversa amistosa, ao pé do ouvido, disse-lhe que, depois do trabalho iria àquela rua de tantas lembranças eternas, passaria na casa que hoje pertence à Rosinha, trocaria uma dezena de palavras com aquela menina moça de menos dez anos que os meus, e, a seguir, ao clube onde havia um trampolim, de onde saltei apenas uma vez, quase quebrei a testa, na beira da piscina antes funda, agora rasinha, toda remodelada, aquecida, e antes à academia de exercício, para malhar em ótima companhia de moças de fino trato, e rapazes não tão idosos como eu. Ao fim da tarde, quase noite, de volta à casa, passar pelo lar onde mora meu neto, e seus amados pais, brincar com ele, descalço no tapete onde o menino não se machuca, no seu andar titubeante, e, já cansado das lidas do dia, voltar a minha casa, que acolhe meu pouco sono, sem sonhar com o que vou escrever na manhã seguinte.

À despedida do senhor, ainda forte o bastante para levantar-me com um dos dedos apenas, amistosamente como o começo da conversa, foi dele que ouvi, de sua própria boca, esta observação que em absoluto não comungo: “onde fui feliz não volto”.

Já eu, homem velho com minhas lembranças idosas, volto sempre, como rotina verdadeira. Volto sempre, pois lembranças de onde fui feliz não causam sofrimento, muito menos me fazem lamentar, pois bem sei que felicidade plena e completa, eterna, é nada mais, nada menos, composta de instantes fugazes de felicidade, que o passado remoto não desfaz.

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