Assim seja…

Tudo pra ele, apelidado de Chico Hospitalidade Total, queria dizer achego, boa vontade, carinho com os menos aquinhoados pela fortuna desprovida de tal, desejo genuíno de receber, mesmo sendo pessoas estranhas que o procuravam, de cara lavada, gente boa era ele, amistosa, querido por todos os vizinhos, mesmo quem não o conhecia nele via a generosidade em pessoa. De tanto ser assim, sem nenhum desconfiômetro ligado a tomada 220, embora fosse um logro pois era quase exatamente a metade da voltagem, a vida nele pregava peças. Pois sim. Por acreditar nas mãos estendida como acordo, não de firma reconhecida em cartório, por confiar demasiado, nos negócios era fácil de ser ludibriado, de se passar a perna todas às vezes. Ao trocar uma vaca de quatro peitos perfeitos, com um vizinho velhaco, ao ver a rês chegar ao seu curral, no tirar leite, ao afiar os olhos zarolhos no mojo murcho da vaca de costelas à mostra, percebia, contrariado, que a mesma era desprovida de tetas. Por tê-las pedidas no arame farpado gasto, precisando ser trocado, da mesma forma os mourões sustentadores dos fios de arame, divisas de pastos sujos de unhas de gato e outras pragas da entressafra. E não tinha coragem de desfazer o imbróglio, pois tinha medo de tudo, até de taturana peludinha morta no asfalto. E ficava no prejuízo, via de regra.

Aos vinte anos não mudava o caráter afável e nem a conduta para ele exata. Aos trinta a mesma ladainha escrita nos parágrafos primeiros. Aos quarenta, ainda crente nas pessoas, de tanto levar calote na vendinha beira de estrada que comprou, levou manta na compra, ela era falida, nada tinha de estoque, o velho balcão era todo tomado pelos cupins, ameaçando cair de velho, e ainda por cima, para complicar a situação já bem complicada, uma penhora de bens estava prestes a ser feita. O oficial da injustiça já estava com a intimação na mão, pronta a ser entregue ao desinfeliz homem bão, o qual confiava até mesmo no agiota safado que emprestava a juros exorbitantes, e, caso não fosse paga uma das prestações tomava tudo que o devedor possuía, não saltavam de fora nem a cueca nova muito menos a ceroula gasta, presente de uma tia torta.

A tal venda foi depois trocada por uma boiada extraviada dentro de uma cerração fumarenta e nunca mais voltou à fazendola. Dizem, as línguas pontudas, que tanto as vacas, quanto os bois, foram comprados a preços de boi magro por um açougueiro mais ladino que o tal agiota que nunca foi preso por ter colarinho branco e engomado. E podia pagar a um advogado porta de cadeia que não perdia uma só causa, por ter conchavo com um juiz venal.

Aos quarenta anos completos, já em bancarrota total, não tinha nada em seu nome, nem de “laranjas” de sumo azedo, apenas ficou com a casinhola pobrinha no seu palmo de chão, fim de linha, ninguém passa por ali intencionalmente, só quando se perde, magricela, faminto, despensa vazia, perdeu todos os pseudo-amigos que julgava ter. Apenas um cãozinho fiel, sua sombra quando caminhava a luz do sol, ele e ele, tão somente os dois, vivia ao seu lado. Na saúde e na enfermidade, até que a morte aos dois mostrou a que veio. Ela não veio a passeio. E sim para ficar enquanto a eternidade durar.

Um feio dia, manhã de inverno frio, redundância falar em inverno frio, quente é que ele não está, quando tudo parecia perdido para o pobre Chico Hospitalidade Total, quando um amigo, aparentado por parte não se sabe de mãe ou pai, apareceu em sua portinhola quase dobrada ao seu peso morto, encontrou o infeliz desinfeliz acamado, coberto sobre a sua cabeça calva.

Precavido contra doenças peçonhentas, uma cobra já o havia picado, foi salvo por um vizinho curandeiro, que sabia e ressabia quase tudo sobre benzedeira e ladroeira, coisas de Brasília, assim que o recém-chegado descobriu-lhe o corpicho magro, com os dois olhos estatelados de susto misturado à surpresa, viu, toda a pele ainda branca do velho Chico invadida tanto por carrapatinhos micuins, bernes sanguessugas, moscas varejeiras farejavam-lhe a falta de asseio, um odor nauseabundo entrava-lhe pelas narinas, causando asco por todo o ambiente pútrido.

Em pouco menos de meia hora nada restou do antes ainda vivo Chico Hospitalidade. Ele acabou mortinho da silva, apesar de da Silva não ser o seu sobrenome.

No seu epitáfio foi escrita a última frase lapidar. Por inspiração de mim mesmo.

“Aqui jaz Chico Hospitalidade Hospitaleira. Ele morreu depois de ter a sua privacidade invadida. Por bernes e carrapatinhos micuins, por sarna e percevejos, por carunchos que lhe tomaram a alma boa, a qual cria nas pessoas, e, na maior parte das vezes a confiança demasiada se transformava em pesadelo. Mesmo assim morreu crente. Tomara, noutra vida que ele por certo já está, ao entrar no céu dos hospitaleiros, São Pedro lhe abra a porteira. E todos os anjos bons lhe estendam as asas, e tenham por ele a compaixão que Chico teve pelos outros, e não foi correspondido, em sua bondade boa”.

Assim seja…

 

 

 

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