O não despertar do Madrugar das Madrugadas Sertanejas

Aquela madrugada, menos de quatro da manhã assinalava o relógio preso à parede amarelecida pela gordura emersa do velho fogão a lenha, fazia um frio de fazer bater queixo o esquimó instalado no mais baixo grau de temperatura do seu iglu, quando, acordado lá pela uma da manhã, bom ressaltar que Zé Capiau, também alcunhado de Madrugar das Madrugadas, com o Sertaneja de sobre, se levantou da cama, lavou a cara numa pia da cozinha mesmo, ele morava consigo mesmo, pensava que se bastava, e foi à horta de couve, onde abóboras também eram colhidas maduras, jilós e beterrabas davam prazer a quem aprecia tais legumes fresquinhos, e foi ao curral na intenção da primeira das duas ordenhas do dia.

Um densa névoa fumarenta impedia enxergar um palmo adiante dos olhos. O pequeno lago, construído há anos distantes do que sua lembrança acusava, mostrava uma fina lâmina de gelo por cima. Caso alguém se atrevesse a atravessar a superfície do pequeno açude correria o risco de afundar as pernas naquela água fria, e dali tirar um baita resfriado, ou até mesmo dessa constipação passar a uma pneumonia de gravidade extrema, já que o pobre Zé já estava adiantado em anos. Presumia-se, nos arrabaldes, que ele já colecionava mais janeiros que todos os passados na folhinha vencida há dez anos, a qual ficava pregada perto do velho relógio Cuco que vomitava as horas de meia em meia.

Uma vez tirado o leite das tetas das dez vacas magras, famintas quase sempre, já que a entressafra nada deixou a restar da pastaria enregelada pela geada caída de véspera, três horas ficou nessa tarefa inglória. Já as galinhas cacarejavam ao derredor, aproveitando o resto da fraca ração deixada nos cochos furados, neca de capim picado, ou qualquer cheiro de milho feito farelo, na picadeira toda remendada, morada de ratazanas gordas, petisco de dois gambás famintos. Os quais, uma vez, quando o mesmo dono do pedaço de pasto sujo, a mesma hora de hoje, ao abrir da tulha onde eram guardados dois sacos de farelo de trigo, deparou com um dos gambás entalado com um enorme rato gordo numa trave do telhado carunchado e pedindo outro em melhor estado. Não precisa repetir que o pobre homem de poucas letras, nunca foi à escola, quando o pai o levou, numa escolinha rural da qual apenas restaram ruínas escombros, o danadinho do safadinho evadiu-se num pulo. E nunca mais a professora, mais feia que seriema faltando dois olhos, e mais magricela que uma macaca vesga, o viu assentado à carteira carunchada, caindo aos pedaços, não precisa afirmar o estado lastimável da educação em nosso país continental.

Depois de saciar em parte a fome das galinhas, das quais nunca viu os ovos, também surrupiados do ninho pela mesma família de gambás, a quantidade enorme de tarefas restantes a fazer, até finar o dia, era tanta, tanta e tanta, que todos os dedos das duas mãos não dariam nunca conta de dizer quantas eram.

Mesmo assim, caso alguém fizesse uma proposta de tentar mudar de vida do pobre Madrugar das Madrugadas, levá-lo à cidade, dar-lhe uma condição de ser mais feliz, ele, num muxoxo, chocho, diria assim: “tá doido! Sair daqui? Nunquinha da silva. Só de for de caixão feito, de madeira dura, que não disponibilize trela a cupim, melhor se for de jacarandá roxo”.

E de nada adiantava a tal alma caridosa, pura mentira!, pois o mesmo sujeito nunca se interessou pelo bem estar do pobre Zé. E sim na sua pequena propriedade, que, sabedor que era, num futuro ainda não definido, tudo aquilo faria parte de uma linda represa que em muito iria valorizar as terras férteis da região.

E dia após dia caminhava a vidinha que pouco mudava a rotinha enfadonha do capiau da roça.

E ele, parece, era feliz, e pensava saber sê-lo.

O inverno daquele ano de 2017 exibia na sua temperatura a previsão de ser mais um ano duro para todos os que vivem da terra. A safrinha de milho não vingou. Também, Madrugar das Madrugas não plantou. Não por não ter coragem. E sim por absoluta falta de recurso, já que o banco fominha a ele não destinou crédito para o plantio, por causa do seu saldo curto.

E da sua falta de dinheiro guardado no velho colchão furado, morada de ratos e percevejos.

Finado junho, julho entrou um tanto quanto mais quentinho. O mesmo laguinho gelado deixou o gelo fino para o inverno próximo. Já se podia andar de bote no mesmo açude, onde tilápias magricelas não mordiscavam a isca e se escondiam no barro mole do fundo raso.

Foi numa mesma madrugada, não tão gelada como a do começo da história, um vizinho de pasto, de nome Tião Sossego Sossegado, que nunca esquentou a cabeça com nadica de nada, em visita ao Zé Capiau Madrugar das Madrugadas Sertanejas, bateu palmas a porta da sua casinha tosca. De dentro dela não veio nenhuma resposta. Rebateu as mesmas palmas, acompanhadas de um alto: “onde tatu amigo Zé”?

Mais um silêncio de sepulcro morto foi o que pensou ter ouvido do lado de dentro da morada, já que o infeliz vizinho Tião Sossego era mais surdo que uma porteira cega.

Foi quando foi chamado, para auxiliar na procura, um guarda parrudo, que de vez em quando fazia patrulha na região rural. Esquecida por todos, menos por Lúcifer, parente do diabo vermelho, de rabo pontudo em forma de âncora pontiaguda.

Foi preciso arrombar a porta com um pontapé fraco. Sem muito esforço ela foi ao chão. Com um pouco audível “nheco nheco”.

Lá dentro, durinho de duro, estendia-se no mesmo colchão de palha de milho velho, com um terço enrolado na mão direita, o defunto lívido do pobre e desinfeliz, embora pensasse ser, feliz, o Zé Capiau Madrugar das Madrugadas Sertanejas.

Zé Madrugar das Madrugadas não despertou como de outras vezes. Dormiu seu sono eterno. Para sempre, valha-lhe o bom Deus…

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