A data lembrada, no meu escrito de hoje cedo, sete de julho, faz-me recordar um dos dias em que minha terra querida, a Lavras que tanto amo, teve sua pedra fundamental lançada, embora aqui não tenha sido despejado em direção ao desconhecido, sinto-me como se fora.
Em verdade tenho o umbigo enterrado na terra imortalizada por Lamartine Babo, em sua linda canção – “serra da Boa Esperança, esperança que encerra, no coração do Brasil um punhado de terra, no coração de quem vai, no coração de quem vem, Serra da Boa Esperança, meu último bem”…
Ali passei exatos cinco anos. Meu saudoso pai, funcionário de um banco nomeado a imagem do seu país, ali não começou a frondosa carreira. Creio, se não se torna equívoco meu, foi em Caratinga, progressista cidade fincada na mesorregião do Vale do Rio Doce, que o contínuo, escriturário, cargo mais baixo daquela casa bancária, que o funcionário, depois de lhe reconhecido o valor, galgou degraus importantes, só não chegou a diretor por ter se aposentado em Conselheiro Lafaiete, no cargo máximo, gerente, por um simples detalhe. A nossa querida Rosinha, que hoje os sucede, na mesma casa da Rua Costa Pereira, defronte ao clube intimamente unido ao meu passado, e de tantos atletas renomeados, carecia dos cuidados dos seus amados pais postiços, que, em suas vidas aqui entre nós amaram-na mais talvez que seus verdadeiros e de mesmo sangue pais.
E por que vinte de julho faz parte do andar de cima que encabeça minha crônica?
Por todos estes motivos: em 20 de julho de 1868 a Vila de Lavras foi elevada à cidade pela lei provincial número 1510 de 1868, ao mesmo tempo de Aiuruoca e Itumirim. Em 20 de julho de 1914 foi celebrada a festa da cidade pelos alunos do grupo escolar e inaugurada uma galeria de fotografias aos benfeitores do município. E uma visita ao cemitério São Miguel onde os alunos cantaram músicas sacras e distribuíram flores nos túmulos que lá existiam. A seguir uma passeata aconteceu pelas ruas da cidade, quando o doutor Álvaro Botelho usou a palavra, além do professor Firmino Costa. No dia 20 de julho de 1917 foi inaugurado o famoso Pirulito da Praça Leonardo Venerando, marco da cidade. Outra inauguração de vulto, também em 20 de julho, foi o pavilhão da Santa Casa, a 1946. Já o Clube de Lavras teve a sua abertura em outro 20 de julho, desta feita em 1957. Já o maior prédio da cidade, o edifício Serra da Bocaina teve a sua inauguração noutro 20 de julho, em 2007. Nunca seria demais recordar a data de nascimento do Pai da Aviação, Santos Dummont, 20 de julho, em 1873.
De tantos 20 de julhos comentados acima, a nossa amada cidade, com seus problemas tantos que a afligem, paulatinamente sanados, essa data enseja uma especialíssima ocasião.
Precisamente no centro cirúrgico da mesma Santa Casa, Santa Causa por muitos nomeada, despontou, rumo ao mundo exterior um chorinho agudo, junto a ele um meninão clarinho como a flor do algodão, aliás rosado como lhe era a bochecha, parte de mim, de seus pais, de outros congêneres, um de pais queridos, filho da minha filha, e de seu pai Daniel, meu primeiro neto traz em sua genialidade nacos de pessoas a eles intimamente unidos, já que o elo de ligação do cordão umbilical logo é desprezado, jogado fora, depois de enrolado numa gasinha que logo seca, mas jamais seca o amor que por ele senti, desde que o vi, pela vez primeira.
Ainda me lembro de quando me passaram aquela trouxinha de gente, enrolado a um cueiro, ainda sujo, pouco, pelos líquidos protetores entremeados ao achego do útero protetor de sua mãe, minha pequena jornalista, que aprecia escrever como seu pai. Eu e seu pai o disputávamos ferrenhamente. Ele, tentando ver a carinha ainda assustada pelo mundo novo que o abraçava, não com a mesma força do nosso amplexo. E eu, apatetado, apalermado, talvez da mesma forma quando vi nascer meus dois filhos, uma vez que tive, com enorme receio de apertar demasiadamente aquela criaturinha frágil, nascida naquele exato instante, confesso, não sabia se chorava ou derramava gotas salinas pelo canto dos olhos, estatelados na pele branca do meu primeiro neto.
Tudo aquilo, magnífico sucedido, veio a acontecer exatamente no dia 20 de julho. Há quase um ano atrás.
Em poucos dias, estamos no dia sete de julho, treze dias, exatos, amanhã restarão menos um, meu querido Theo, sangue misturado ao meu, sei que um naco pequeno de genes, meu netinho de olhos ainda indefinidos, pele clarinha como paina de algodão, cabelos cacheados lembrando o louro dourado do ouro puro, com sua alminha pura, seu sorriso mostrando alguns dentinhos apenas, talvez, pela conta que fiz frugalmente, são dois em cima, mais outro tanto na arcada de baixo, e como ele, o pequeno Theo sabe morder!, meu dedo, um biscoito de polvilho, macio, de quando em vez ele entala, fica com o sabugo preso a garganta, e depois torna-se preciso soltar o farelo do biscoito com dedos meus, ao tirar um selfie nosso, foi que aprendi, olhando a fotografia arquivada no meu celular, que o sorriso do garoto novinho, ele vai completar um aninho no dia do aniversário da minha amada Lavras, sua terra, onde ele tem o umbigo soterrado num mar de sorrisos, em meio a lágrimas vertidas de felicidade ao vê-lo nascer, em muito assemelha-se ao escrito no texto título que encima esta
minha lucubração de hoje cedo.
O sorriso do Theo netinho primeiro não se trata de um 2001. Onde existe um dente, falta um. Foi por este exato motivo que apelidei o sorriso do Theo de 20 de julho. Em honra e homenagem ao dia do batismo da minha cidade, e dele, do meu neto querido.
E que sorriso lindo exibe a boquinha de lábios rubros do quase um ano de vida, meu neto Theo, quando ele faz careta, em muito parecido ao dia da cidade, quando ela, realmente passou de vila a sede de comarca. Ao invés de 2001, que tal chamar o sorriso dele de 20 de julho, dia da emancipação política da minha Lavras, e de todos nós, que a amamos, como amo o Theo.