Enfim, João Destemido deixou-se devassar seu mais recôndito escondido

Era num mês frio igualzinho aquele por onde passamos, julho no comecinho, junho não se apresentou tão abrigado em grossos casacos de lã felpuda, quando aquele caboclo, nascido e espichado bastante na roça onde sempre viveu, afeito à lida no campo, sabia como poucos remendar cercas de arame farpado, carpir o sarandi em que se transformou o roçado não feito no ano passado por pura falta de tempo, ordenhar, a mãos desarmadas mais de vinte vacas baldeiras, com um delas, ainda novilhota, perdeu a virgindade num matinho feito matel, sorte ambos não tinham genes compatíveis, pois então nasceriam gabiruzinhos a cara dos dois, nos fundos da pequena propriedade, e, não bastante tantos percalços, ainda o esperavam de bocas abertas, famintos, dez porcos enormes, de uma raça aparentada ao javali, o Java- porco, por ele mesmo inseminado, as galinhas já ciscavam ao seu derredor catando minhocas que desapareceram de tantos pescadores às suas procuras, e, quando, ao fim da tarde fechando os olhos de sono, ainda o pobre enfezado João Destemido, apelidado dessa maneira por não temer nada, nem o presidente Temer, ameaçado de ser de novo impichado, para que ele continuasse em seu cargo conquistado em direito o tal caboclo, mãos como lixas gastas de tanto raspar das paredes cacas de morcegos fruteiros, empenharia a própria alma purinha, da silva, apesar de seu nome não mostrar o da Silva no seu sobre, era Destemido mesmo, de pai e avô nomeados dos mesmos sobres, ao chegar à idade da próstata, mais de quarenta e cinco nos costados, já que tinha aparentados indo ao céu dos homens da roca por causa de câncer naquela glândula sem serventia depois que a gente cria família, e fica aumentada num lugar incômodo, abraçando, a exemplo de um nó apertado no pescoço como se fosse uma gravata nova, pequena para ele,  tapando a emissão da urina, fazendo do pobre paciente um troca fraldas de tempos em tempos, caso contrário corre-se o risco previsível de molhar a roupa na parte inerente de onde sai a urina, e, nos casos mais adiantados acontece uma dor imensa ao se levantar da cama, de onde saiu várias vezes durante o sono mal dormido, caso não fosse célere ao vaso sanitário mijaria na roupa de cama, molhando a pobre mulher que tentava dormir ao seu lado, já que não deu conta de fazer sexo como das vezes antes, ficou em duas tentativas mal sucedidas, nem o comprimidinho de Viagra melhorado adiantou, a ereção plena não subiu, até que, nos derradeiros anos de vida, assim que chegou aos mais de sessenta, a tal urina empacou, da bexiga cheia não viu  a luz do dia, ou da madrugada fria, e teve de ser retirada à sonda mesmo de dentro do reservatório onde cabem folgadamente quase um litro do tal líquido amarelo citrino, quando não coexistem infecções ou a presença de sangue coagulado no subproduto do nosso organismo, os rins são a caixa filtro cuidadora da homeostase do corpo humano. Foi quando o nosso desditoso personagem da crônica de hoje cedo, gente nascida e bem criada na roça da família boa de  braço e de enxada de três libras, a foice rombuda era outro artefato de carpir pragas que infestavam a pastaria suja, ao ver a urina arrebentando a cúpula da bexiga estufada, por nós urologistas chamadas de globo vesical, um abaulamento na pelve, abaixo da cicatriz umbilical, em muito parecida a um útero grávido de quase nove meses, véspera de parturição, foi às pressas a um pronto socorro longe do seu palmo de chão.

Ali ficou horas intermináveis a espera de atendimento, já que de urgência urgentíssima ele se tornara. Pois, caso arrevesado a bexiga lotada de urina estouraria, como um balão de gás nas festas de São João, a já bastante fragilizada caixa de água, não da minha que serve de beber a casa onde morava, se escondia durante a noite, já que passava mais tempo fora dela, nas incontáveis tarefas tantas que faziam parte do seu metier.

Foi quando, depois de horas baldias a espera, afinal aparece, vestida de um branco imaculado, uma mediquinha recém-saída dos cueiros, a qual julgou que o infeliz João Destemido, dado ao abaulamento na pelve, logo abaixo da cicatriz umbilical, aquele gordo caroço não fosse outra coisa senão um feto a nascer em breve.

Como a experiência não era o forte da nova esculápia, para ela se ver médica completa precisaria estudar muitos anos mais, perguntou, com a voz carrega de angústia e cheia de estresse, qual o profissional especialista deveria ser chamado para resolver a pendenga médica.

Foi quando meu celular tilintou forte aos meu ouvidos moucos. Era uma vozinha esbaforida, a qual se escutava do outro lado da linha, não de anzol, pois os peixes estavam no fundo do açude, esperando tempo de esquentar para mordiscar a isca.

“Doutor urologista. Preciso dos seus préstimos, com urgência urgentíssima. Um paciente, chamado de João, o Destemido, desde que aqui chegou deixou o destemido escondido no embornal, e de lá não  o tirou jamais. Ele tem um abaulamento por baixo da sua hérnia umbilical, o qual, na minha parquíssima experiência, este é o meu primeiro, tomara não seja o derradeiro, parece  uma gravidez a termo. Não sei o que fazer com ele. Daí o chamei, na intenção de lhe passar o caso.

Cheguei a tal UPA num pulo de gato que não mais sou. Ao ver a bexiga prestes a estourar, nada fiz de especial. Enfiei dentro da uretra uma sonda de Foley de número dezoito. Em menos de dez minutos percebi um ar de assaz satisfeito no semblante antes anuviado do pobre consultante via SUS. Enfim João Destemido teve esvaziada a sua bexiga enorme. Para alívio dele e de toda a sua família, que aguardava o desenlace do atendimento feito por mim, após horas de espera impaciente.

Mas, como tinha de comprovar a origem ainda obscura da retenção de urina, precisava completar o exame físico com um toque, sem retoque, na intimidade da sua ampola retal. É por ali que se examinam as doenças da glândula prostática, uma vez passados os quarenta e cinco, uma vez não tendo sintomas urinários, ou estando ausentes os casos de câncer de próstata nos aparentados próximos.

Foi aí que João, antes destemido, empacou assim que lhe pedi que retirasse parte da roupa de baixo, numa salinha acanhada perto da mesa de exame. A cueca, ou a ceroula, também deveriam ser cuspidas fora.

Ele não me deixou fazer o toque, por mais que a ele explicasse que nada iria doer, ou tirar-lhe a virgindade.

Dotado de muita paciência, de esperar horas e horas a espera de que se deitasse na minha mesa própria ao exame de próstata, afinal, felicíssimo por ter descoberto meu poder de persuasão, eis que o paciente oriundo da roça, respirou fundo, fechou os olhinhos caros, e acabou permitindo devassar-lhes as entranhas de seu âmago anal. Nada de gravidade acontecia-lhe na próstata. Apenas uma hipertrofia benigna, facilmente curável por uma cirurgia a ser feita num hospital perto do meu consultório onde acumulo duas funções, aliás, várias delas.

João Destemido, após perder a virgindade, sentindo-se mais leve e confortável, assim que deixou a sala de exame rápido, de agradecer o escorreito atendimento,beijou-me as mãos, enluvadas e me fez confidente: “doutor Paulo. Foi esta a primeira e derradeira vez que me permito devassar-me as entranhas. Não é que não tenha apreciado. Seu dedo indicador da mão destra até que é fino e simpático. Melhor anda feito em caráter particular. Se meu anus fosse investigado pelo SUS, usando a mão inteira, fechada, sem vaselina ou coisa que equivalha.  Via Unimed seria menos pior. Já que via Sistema Único de Saúde, tal plano no qual  ainda não se confia, ao senhor enfiar seus dedos curtos e de pouca grossura, com a mão direita fechada, sem nada a lubrificá-la, em muito seria bem pior.

Aquela foi a primeira e última vez quando o João, antes Destemido se deixou devassar-lhe as entranhas, tomara não seja a derradeira. Aconselhável ano a ano, pelo anus, a fim de evitar contratempos, vindo a descobrir, tardiamente, um câncer já avançado, para o qual nada se pode fazer, a não ser encomendar o velório, e levar o caixão à sepultura escura. A fim de  assistir, nas noites escuras, o capim nascer pela raiz. Aquele toque retal doeu-lhe menos do que o dedo obeso do proctologista, e ele não o enfiou e rodopiou tanto. Deixando-lhe na face  um sorriso encabulado, a manchar-lhe os dentes desdentados, na falta de um deles, num riso chamado de dois mil e um, precisando com denodada urgência de uma prótese bem feita. No intuito maroto de fechar-lhe a porteira das falhas que se mostram bem defronte a onde a boca deveria mostrar mais dentes.

A devassa no traseiro do João Destemido não lhe fez fazer caretas. Acreditem se quiserem, e puderem: em menos de dois dias, como dispunha de um plano de saúde sério, nomeado de Unimed, em pouco mais de duas horas, assim que deixou meu consultório, já estava de posse de duas, três, mais de dez, dezenas de opiniões sobre os descaminhos curtos da sua pequena prostatazinha, que nem de tratamento carecia. Era apenas um capricho, reconhecido em Portugal como paneleiro, ou bicha, ou veado, ou ainda boyola, que  a boa gente da roça esconde a sete chaves no criado mudo, que, mesmo sendo mudo, quando se lhe abre a boca, solta o tal palavrão, na roça, já que na cidade é coisa rotineira, xingo cujo nome é veado, transexual, traveco, e coisas sinonímias quase iguais.

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta