Esse costume velhusco de ficarmos velhos, assistirmos, impassíveis, a idade se desdobrar em mais delas, tem-me feito ficar com a barba branca. Se fosse apenas a barba estaria feliz. Mas, no entanto, outros fios foram embranquecendo, os demais, nascidos nas têmporas, nos sobrolhos, tornaram-se grisalhos. Eles são os sobreviventes já que os do alto da cabeça não mais estão presentes. Uma calva luzidia ocupou o lugar da cabeleira descrente.
Já que dizem existir recursos para retardar a passagem dos anos, não no quesito tempo, e sim pelo bisturi, naquele estica espicha, quando de repente retornam não apenas as rugas como idem os pés de galinha, por que não ir buscar recurso onde eles se mostram? Foi quando procurei um colega especialista (ledo engano), para tentar, ou pelo menos me iludir, apagar um tantinho da minha aparência o que o espelho mostra, cara dura que é, os sinais inequívocos da idade de sessenta e sete anos que o meu desaniversário manifesta. Apesar de, caso minha mãe saudosa aqui estivesse, ela ainda me trataria no diminutivo, com um afável: “querido Paulinho, vai pro castigo logo! E vê se não repete a travessura”! Acontece que eu a repetia. Antes de continuar minha crônica, fica aqui uma ressalva, em forma de encômio. Minha mãe Rute era a única que me achava bonitinho. E revelava, antes de nos deixar órfãos, eu e meus dois irmãos, essa frase expressa: “meu querido filho mais velho. Você, com seus mais de sessenta, parece ter menos de trinta”.
O tal médico plástico, bom na cirurgia da face, depois de me examinar ostensivamente, de olhar-me de trás em diante, passar-me adiante do espelho, aconselhou-me a fazer um lifting. Dizendo que a incisão seria quase imperceptível, apenas uma linha pequena ao derredor das duas orelhas. Logo encoberta pelos cabelos brancos das têmporas. Só ainda não fui liftado por causa da velha próstata. Ela, aumentada que está, cutucando-me a hérnia inguinal, tomara ainda não seja necessário ser retirada. E ainda perdure por anos e anos a minha ejaculação longínqua e esguichada.
Sem preambular demais, ou delongar de menos, ainda sobre meu desidério de prolongar a mocidade perdida, esturdia, neste mês frio de julho, céu cinzento que se mostra hoje, desde cedo a agora depois da uma da tarde, depois de copioso almoço, ao escovar os dentes restantes, atrás eles desapareceram, depois de passar pelo boticão afiado do dentista três molares, ou prés, sisos sei que não são, pois dizem que eles falam de ter juízo, coisa perdida desde o castigo imposto por minha mãe, não sei ainda identificar os nomes dos dentes, ao me ver naquela superfície espelhada, tive uma ideia de jerico.
Comecei por retirar, com uma tesourinha de ponta fina, os cabelos brancos dos sobrolhos. Foram tantos que quase não restou unzinho inteiro. A seguir subi caminho pelo lado direito. Tentei, com a mesma tesoura, tirar um a um os pelos brancos das duas têmporas. Desnecessário ressaltar que as tentativas foram vãs. Caso fosse persistir na empreitada nada restaria dos tais cabelos. Ainda bem que tanto a barba, como o bigode, de tempos os tenho ausentes. Se decidisse por deixar ambos crescerem creio que as crianças, ávidas pela chegada do Natal, ao me verem barbudo, logo exclamariam: “ mãe”! Olha o papai Noel”!
Ainda sob as lentes do espelho, na minha caminhada taciturna pelo que restou dos meus vinte anos, no pescoço curto, vi, ao afiar os olhos, uma coisa chamada de papo, pelancas caídas, indo em direção ao tronco ainda musculoso. Os pelos, que servem de agasalho ao frio que agora faz, descarecem de dizê-los como flocos de neve. Tentei depilar parte deles. Desisti depois de tentativas infrutíferas. Não parei na parte alta, na exata metade de mim mesmo. No abdome, o antes tanquinho transformou-se em caixa dágua de pouca profundidade. Nada a ser feito, a não ser testemunhar o óbvio da maior idade. Tentar modificar o protuso da barriga nem com um milhão de horas de academia, talvez só melhorado pós abdominoplastia. Já as pernas são como dantes. A panturrilha mais parece um trilho de estrada de ferro, tão dura que é. Nada a investir nessa parte da perna.
Como tinha de ir embora, para onde estou agora, no achego gostoso da sala principal do meu consultório, ao me olhar, pela última vez, na superfície risonha do espelho, espelho meu, e da minha patroa, dona Rosa, caso tentasse, retentasse, apagar daquele eu que me olhava com olhares de mofa de dentro do espelho, todos os sinais de envelhecimento, tanto as partes das sobrancelhas, quanto os cabelos brancos das duas têmporas, indo mais abaixo, ao peito desnudo, ao abdome olhando para frente, não negativo como a de certas meninas moças fitness, se fosse continuar a minha cruzada rumo à juventude não achada, acabaria, fatalmente, me desvencilhando de mim mesmo.