Lá fora a temperatura oscilava entre cinco e seis graus Celsius. Céu cinzento, um vento enregelante assoprava da colina em direção a casa Amarelazul. O silêncio mal se fazia escutar nos arrabaldes. Tudo era solidão, desencanto, tristeza.
Dentro da pequena casa, já amarelada pelos anos, talvez ela contasse com mais de cinquenta anos de construção, fora seu pai que a fez, com as próprias mãos.
Ali dentro a temperatura era mais amena. Achas ainda brilhavam, cuidando de acalentar a frieza do interior, saídas de dentro do fogão a lenha, últimas fagulhas ainda brilhavam, resultado do cozimento do feijão com arroz do jantar de ontem, tarde, quase noite.
Roberto, marido da dona Lucia, aos quase cinquenta anos, parecia bem mais, era feliz e sabia sê-lo.
Um dia ele teve de se mudar da roça. Foi ter à cidade perto. Contrariado, por um sonoro motivo. A melhor vaca do seu curral, quase uma novilha, em primeira cria, parida de uma linda bezerrinha, a cara da mãe, numa manhã como a de hoje, fria e cinzenta, ao ir ao curral, visitar sua filha, durante a madrugada, acabou caindo numa enorme voçoroca. Dali ao açougue não durou mais tempo que os lépidos minutos do relógio enorme, herança da avó, que mostrava a cara cheia de ponteiros e horas na parede da cozinha, morada do fogão a lenha, e de uma mesa enorme, feita de alvenaria, recoberta de azulejos branquinhos como as asas dos anjos. Além de abrigar uma geladeira precisando ser trocada por uma nova, já que consumia muita energia, por não fechar a porta a contento, deixando uma frestinha por onde saía uma fumacinha branca. Além de um fogão a gás, apenas usado para fazer café, já que acender o fogão a lenha para pequenas coisiquinhas era um desperdício de lenha, já bastante escassa nos arrabaldes. E uma pia para lavar a louça, cujo encanamento do esgoto sempre se mostrava entupido, por mais que o marido Roberto fizesse às vezes de bombeiro hidráulico.
Nem bem o mesmo relógio de parede acusasse cinco da manhã, depois de um café coado na hora, depois de ingerido às pressas com uma broa de milho novo, de passar uma água gelada na cara toda amassada pelo travesseiro que pedia um novo, lá iam os dois, marido e mulher, ao curral, onde já o esperavam, acostumadas que estavam, duas dúzias de vacas com seus úberes vertendo leite pelas tetas, berrando de fome e de dor no úbere inflamado.
Acontece, como quase sempre ocorria, por culpa da empresa fornecedora de energia, faltou luz na região toda. E todos os aparelhos usados, tanto na ordenha, quanto no guardo do leite, não funcionavam por razões sabidas e ressabidas, por todos aqueles desafortunados tiradores de leite que não dispunham de geradores próprios. Mais uma despesa na já minguada atividade leiteira, já que qualquer gerador que se preza não prescinde de óleo para seu funcionamento.
A ordenha manual teve de ser feita naquela manhã fria do mês de julho, ao seu começo.
Tirar mais de trezentos litros de leite a espremer as tetas das vacas não era tarefa para qualquer um de nós. Um dia experimentei, ao fazer uma visitinha rápida ao amigo Roberto. Mal tive sucesso em observar o minúsculo esguicho de leite deixar o furo de onde saía. Nem tentei espremer os demais.
A tarefa primeira da manhã durou o dobro do tempo quando em dias normais. Exatas duas horas e meia, um cadinho mais.
A limpeza das instalações leiteiras era tarefa da dona Lucia. E ela o fazia, com um alegre sorriso na face, cantando a mesma canção de tantas vezes tantas. A que a ela ensinou a mãe ausente.
O relógio, desta feita do sol, que já acordara do seu sono iluminado, ensinava ser quase nove da manhã. E ainda restavam tantas coisas a serem feitas, que descarecia contá-las todas, para não desanimar o pobre cuidador das coisas e loisas da roça.
Nomeio apenas algumas: picar a cana recém cortada do canavial, encher balaios enormes, misturar o produto a silagem de milho retirada do enorme buraco que fica, felizmente, bem pertinho dos cochos recém remendados, apartar as vacas de suas crias, limpar o estrume da sala de ordenha, o qual, depois de seco serviria de adubo a nova roça de milho, deixar as vacas saboreando o desjejum, ruminando sobre o próximo cio, a seguir, o estômago já roncando de fome, dar comida aos porcos, limpar o chiqueiro imundo, remendar a cerca de arame usado toda rompida pela fuga da boiada, a seguir ir almoçar, a comida requentada de ontem de noite, nela faltou carne, apenas dois ovos, um mostrou estar choco, só restando unzinho só.
Na parte da tarde mais e mais novidades não tão novas. A pastaria carecia de limpeza. Já que as pragas não davam sossego ao capim nativo. No próximo ano, jurava o amigo Roberto, ele iria formar tudo aquilo num lindo pasto em capim Braquiarão, para que um novo verde se assanhasse todo, desde que as chuvas de fim de ano não deixassem para o ano vindouro e não faltassem como o acontecido na entressafra passada.
A noite pegou o casal entregue a um cansaço gostoso. Não deram conta de fazer amor. Dormiram abraçadinhos, num entrelace saboroso, como o doce sumo de laranja da ilha na safra.
Sábado derradeiro fui-lhes fazer uma visita. Era mais ou menos sete da manhã quando apeei a minha caminhonetinha folgada debaixo da sibipiruna sujona, onde se escondem as maritacas faladeiras. Que sobre minha pratinha valente despejam cacas verdinhas, que ficam grudadas em sua lataria até o próximo banho, na ducha de um posto de gasolina onde sempre a abasteço.
Encontrei-os na lida costumeira. Sorrindo de siso a conciso, felizes por viverem a vida que sempre lhes apeteceram.
Foi quando a eles perguntei, a seus entendimentos: “ para vocês, no que se resume a tal felicidade”?
Em coro eles responderam: “ no mugido de vaca e cheiro de curral”.
Título do meu livro novo.