O tico-tico e o barranco

Dizem, no que coloco sonoras convicções, um dia me contaram, que aquele passarozinho muito parecido ao vira-lata pardal, com ele difere por apresentar um topetinho como se um galinho de briga estivesse irritado, o tico-tico não canta como as cotovias, nem como o canarinho belga, muito menos tem a plumagem rica em cores como as têm o arco-íris, mas o mesmo apresenta uma virtude da qual fui saber há algum tempo: o pobre, ingênuo e solidário, faz o ninho, deixa-o ao deus dará dos passarinhos, e ali, tempos curtos depois, aparece um pássaro negrinho, bem maior do que quem fez o ninho, deposita seus ovos, e quem faz às vezes de chocadeira dos ovos que não são os próprios? O coitadinho da mãezinha de aluguel, ele, o tico-ticozinho.

A vida nossa, ditos humanos, embora existam tantos humanos desumanos, para comprovar o dito, mirem o que acontece ao derredor, também enseja a muitos e muitos tico-ticos, espalhados, principalmente, pelas casas menos aquinhoadas de recursos financeiros. Em lares pobres se amoitam, confortavelmente, pessoinhas retiradas da rua da amargura, por famílias que jamais conseguiriam empréstimos em bancos privados, por não terem saldo favorável nas contas sempre vestindo vermelho.

Ontem fui ter à roça. Uma rocinha lotada de causos para contar. De gente boa, mãos ásperas, tez queimada pelo sol, que acorda antes do cantar do galo, passa uma água fria na face mal dormida, toma um cafezinho sem o pãozinho francês que na cidade sobe de preço a cada mês, antes subia mais frequente, e, a seguir, segue ao curral já limpinho do cocô das vacas, imagine se elas avoassem, e se um daqueles bolos feitos de capim verdinho caísse-nos por sobre a cabeça, que estrago faria sobre a nossa beca novinha, bem lavada e branquinha. O marido , com a ajuda da mulher, aparta as vacas dos seus pimpolhos, depois de bem alimentados na tarde noite de ontem, cada úbere de dar inveja às louras americanas, enchem cinco latões de leite pelas beiradas, que descansam a espera do caminhão que passa por ali à hora quase do almoço, de novo soltar os bezerros famintos amarrados à perna da mãe, o dono da propriedade, passadas mais de duas horas nessa tarefa, que não é pouca, ao olhar o relógio do sol, já que o seu foi perdido na silagem de milho dentro do enorme buracão quase vazio, tem ainda a sua espera dez porcos quase em ponto de abate grunhindo ferozmente de fome, a galinhada solta no terreiro, cacarejando o dia inteiro tentando apontar o local exato onde o ovo foi depositado, e foi salvo de ser comido pelo gambá chamado Vladimir, vizinho safado, larápio de ovos ainda quentinhos, e, quando a noite tarda, mas não falta, o pobre morto de cansado caipira, pira pora, se prepara para dormir, cedinho, a hora exata que a galinha sobe na árvore pertinho do quarto mofado onde dorme com a patroa, toca a sirene do jacu piando, a anunciar a volta da reviravolta de um novo dia.

Depois de ver como anda a casa nova, a qual vou chamar de Solar Paulo da Rosa, de dar ordens ao filho do pedreiro verdureiro, construtor, de ver como ficou o açude de véspera esvaziado, como fazer para livrá-lo das taboas invasoras, de soltar de sua casinha pequetita, um canil improvisado à porta da cozinha, meu novo amiguinho, que vai ficar um amigão, um cãozinho que se transformará em canzarrão, de nome Del Rey, e ir com ele caminhando, se corro ele ainda não me acompanha, já se transformou em minha sombrinha, de novo passar os olhos como está a construção que empaca na época de acabamento, ela vai acabar acabando comigo, foi que, na parte de trás da casa a beira d’água, da represa do Funil, existe um desbarrancado barranco feito mal feito por uma máquina pesada chamada de retroescavadeira.

Ali vai ser um jardim inclinado, depois de feito um arrimo de mais ou menos metro e meio de altura.

Foi neste exato momento, com meu amiguinho cãozinho mordendo-me a canela, que ouvi um estranho ruído às minhas costas.

Era um som pouco perceptível. Como se pedrinhas fofas fossem caídas ao chão da mesma forma macio.

Afinei os dois ouvidos. Para certificar-me a razão daquele alarido.

Procurei atrás da casa, e nada de descobrir de onde vinha o som pouco audível. A frente nada de mais, ou de menos.

Foi num minuto de atenção absurda, que avistei, no meio do tal barranco, um passarozinho igualzinho ao descrito no parágrafo primeiro. Era em verdade um ticoticozinho arisco. Que, a procura de insetos a dar aos filhotes do pássaro preto, recém emersos dos ovos por ele e sua dona chocados, cavoucava o barranco de ali soltando pedriscos de barro duro.

Tentei acompanhá-lo em seu tiquetaquear pelo paredão a ser gramado. E ele se esquivava a tirar selfies comigo e com o Del Rey mordidão.

De repente ele, o tico-tico arisco, avoou a um galho da arvorezinha perto da minha casa de nome Solar Paulo da Rosa. E depois não o vi mais.

Já de volta à cidade, deixando atrás o meu castelo de sonhos ainda não concretizado, por inteiro, foi que voltei a pensar no barranco e no ticoticozinho arisco, que retirava bichinhos a servirem de alimento aos filhos que não eram dele.

Que bom se, onde vivemos, em nossa selva de pedra chamada cidade, quanto maiores maior a luta pela sobrevivência, cada um de nós, cidadãos e cidadãs, vestíssemos, ao invés de ternos escuros, trajes de festas feitos em pedrarias caríssimas, nos emplumássemos de vez em sempre, e nos tornássemos, um dia, ticoticozões, como aquele pequeno tico-tico, que ontem vi cavoucando o barranco.

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