Triste sina do Vida Vazia

Bem dizia meu saudoso pai, ainda na ativa, embora aposentado depois de anos a fio prestando relevantes serviços ao Banco do Brasil, nunca seria demais recordar de quando ele, gerente daquela casa bancária, em Conselheiro Lafaiete, ao final da sua vida começou outra, a carreira curta de advogado. Nela apenas militou durante poucos anos, até que pertinaz enfermidade nele meteu os dentes ferozes, da cama jamais se levantou, até ir, creio eu, seu filho mais longevo, desempenhar competentemente outra carreira, a de contador de anjos, responsável pela conta dos pecados que todos nós, pecadores, colecionamos ao longo de nossa vida de infiéis. Voltando a frase que dele aprendi: “ócio é o começo do fim”.

Ainda bem, que somados os mais de sessenta e sete anos de vida, penso estar em saúde perfeita, muitos não reconhecem a minha idade, na minha profissão tão em descrédito, pelos baixos salários dos que trabalham no serviço público, pelos maus colegas que infelizmente existem por aí, ao lado da maioria dedicada, médico não se aposenta, nunca. Esse direito os faculta aos pacientes, que, desinteligentemente os substituem por jovens profissionais, nos quais a experiência ainda não os ensinou a diferença entre fimose e epispádia, que a hemorroida, patologia anexa à proctologia não deve ser encaminhada ao urologista, mas sim ao especialista desta área contígua, quase afim.

Bem conheço aquele senhor, creio que da minha idade, senão um cadinho apenas mais usado em anos. Ele faz parte de uma família que exerce, ainda hoje, a missão difícil de soterrar os mortos, dentro de um caixote de cores a vontade da família, cuidar das exéquias fúnebres, de transportar os restos mortais dos entes queridos ou não que partiram deste mundo em direção ao desconhecido, de cuidar dos seus corpos para que deles não exale mau cheiro, no caso de o funeral ter a sua hora adiada, por causa de um aparentado ausente, e de outros detalhes que me escapam de momento.

Conforme me foi passado, por alguém que não me recordo quem foi, ele, por mim chamado de Vida Vazia, aposentou-se antes da hora por não gostar de um palavrinha a qual amo demais, assim como meu querido pai: trabalho.

Aos menos de cinquenta Vida Vazia era visto perambulando a ermo pelas ruas da cidade, andando de ônibus graciosamente, portador daquela carteira que lhe faculta esta regalia, com as mãos postas atrás do corpo, ainda em bom estado.

Era comum observá-lo entrando e saindo da casa de Deus. Ao entrar eu o via, sair não, por culpa única de que eu, ao revés do que acontecia a ele, tinha pressa, e ainda tenho, de chegar ao trabalho.

O banco da praça era seu lugar favorito. Ao lado de amigos do nada fazer ele passava horas intermináveis naquela prosa boa. Esquentando-se ao sol da manhã, deixando seu espaço que nada ocupava a hora do almoço. Ao debrum da tarde ele voltava, caminhando lentamente, sem pressa, pois para ele a pressa era palavra que não constava do seu vocabulário de poucas delas. A de que mais gostava era ócio.

Ontem mesmo passei por ele. Era domingo. Enquanto eu me exercitava numa corrida curta, fôlego em dia, o Vida Vazia fazia o mesmo de sempre. Andava, mãos às costas, lentamente, preparando-se para fazer o mesmo de sempre: nada. Dizem que ele acordava cedinho para ficar mais tempo à-toa.

Assim era o nosso cotidiano díspare.

Eu, do consultório a duas unidades de atendimento às pessoas sem plano de saúde, a casa, por volta das quatro da tarde à academia de exercício, não de letras, pois dela me separei por razões minhas. Enquanto ele, o Vida Vazia, fazia o mesmo de sempre. Não vou repetir o óbvio, vocês sabem.

Semana que olha a que entramos com olhos de pesar, soube, por um amigo que como eu adora o trabalho, o trágico sucedido ao Vida Vazia.

Se foi verdade, ou invencionice do meu amigo, assim que o Vida Vazia esperava a condução que o levaria de volta a casa, era hora da segunda refeição do dia, no ponto de ônibus perto de uma lanchonete de bom conceito na cidade, assentado, mãos às costas, naquela prosa de sempre, educado e cortes, com outro amigo aposentado precocemente, por causa de doença que apenas existia em sua cabeça oca, ao se levantar, num ímpeto, a lotação parou, ele tentou entrar porta adentro, dizem os circunstantes que o mesmo levou a mão ao peito, perto do coração, enfraquecido pele falta de exercícios físicos, uivou de dor, e acabou por falecer ali mesmo, sem que nada pudessem fazer os demais usuários do transporte coletivo.

Ao seu funeral não estive presente de corpo. De lembranças sim.

No dia seguinte fui fazer-lhe uma visita rápida no campo santo.

À beira do túmulo do Vida Vazia, naquela tarde, quase noite, fria, ouvi um murmúrio, em muito parecido a um trinado de um pássaro canoro.

Foi um Bem-te-vi quem assoprou-me aos ouvidos, essa canção que escrevo, parte dela, a seguir: “Vida Vazia, o que nada fazia, veio a nos deixar por uma única razão. O nada fazer, absurdamente nada”.

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